O vento soprava entre as árvores antigas da floresta dando um aviso impossível de compreender.
As copas altas balançavam lentamente sob o céu carregado, enquanto a névoa avançava silenciosa entre os troncos escurecidos pela umidade da noite.
Havia algo estranho naquele silêncio — algo vivo, inquieto, quase consciente. Como se a própria mata estivesse observando… esperando pacientemente por algo que estava prestes a acontecer.
Ela está próxima.
A voz grave reverberou dentro da mente de Cassius como um rosnado contido.
Ele permaneceu imóvel diante da enorme janela arqueada da mansão, observando a tempestade se formar sobre a mata fechada que cercava o território da alcateia.
A lua ainda não havia surgido.
Ainda assim, sua criatura já estava inquieta.
Os dedos apertaram lentamente o braço da poltrona de couro escuro. O rangido da madeira denunciou a força absurda escondida sob o controle impecável que sustentava diante dos outros.
O cheiro da chuva invadiu o ambiente.
Mas não foi isso que fez seu corpo enrijecer.
Foi outra coisa.
Algo impossível de imaginar.
Um aroma suave.
Distante.
Quente.
Como terra molhada após o inverno.
Cassius fechou os olhos por um breve instante e inspirou profundamente.
E então sentiu.
O coração da criatura dentro dele desacelerou pela primeira vez em semanas.
Ela existe.
O pensamento surgiu brutal e perigoso dentro dele.
Porque, se fosse verdade…
Tudo poderia ser diferente... Ele poderia.. ser feliz!
----------------------------------------
Amália levava uma vida simples.
Simples demais para alguém que, no fundo, carregava a estranha sensação de nunca pertencer completamente àquele lugar.
Morava em St. Jacobs, uma pequena cidade cercada por estradas de terra, colinas silenciosas e extensões intermináveis de mata fechada. O sítio onde vivia ficava afastado do centro, escondido entre árvores antigas e campos tomados pelo verde irregular do interior.
Era apenas… simples.
O pequeno chalé de madeira parecia resistir ao tempo mais por teimosia do que por força.
O telhado escuro rangia nos dias de vento forte, as janelas tinham molduras envelhecidas e a varanda estreita sempre carregava o cheiro de café fresco misturado ao aroma da terra úmida.
Nos dias frios, a fumaça da chaminé subia lentamente pelo ar, espalhando um calor acolhedor que fazia aquele lugar parecer maior do que realmente era.
Ali, dividia seus dias com o homem que escolhera ser seu pai.
Sua única família.
E, para Amália, isso sempre foi mais do que suficiente.
Porque ele não lhe dera a vida…
Mas dera sentido a tudo o que veio depois dela.
----------------------------------------------
Naquela mesma noite, muito longe dali, Cassius observava as próprias mãos escurecerem lentamente.
As veias sob sua pele pulsavam em negro.
As unhas começavam a alongar.
Outra vez.
A maldição estava piorando.
Gustavus permanecia em silêncio atrás dele.
Tenso.
Preparado para o pior.
— A lua cheia está próxima demais — Gustavus murmurou.
Cassius não respondeu imediatamente.
Seus olhos permaneceram presos na escuridão além das janelas.
Na floresta.
Como se pudesse enxergar algo através dela.
Porque aquela sensação ainda estava ali. Viva demais.
A mesma presença impossível.
O mesmo aroma.
Distante…
Mas ao mesmo tempo ...real.
E, pela primeira vez em anos, o monstro dentro dele não desejava matar.
Desejava encontrar.