O PRIMEIRO "CONFRONTO"

AMÁLIA

— Quem é você? E por que está me seguindo, se esgueirando por aí?

Minha voz saiu firme. Confrontando-o.

Um milagre. Pois por dentro meu coração parecia querer atravessar minhas costelas.

O homem apenas me encarou. Silencioso e frio.

Os olhos dourados desceram lentamente pelo meu rosto e pararam no meu pescoço… como se me analisassem, como se pretendesse me atacar a qualquer momento.

Como se estivesse decidindo alguma coisa.

Então ele soltou uma risada baixa. Rouca e deliciosamente perigosa.

- Amália pare com isso, a louca da história está parecendo você. Repreendi a mim mesma, afinal eu não deveria estar sentindo isso. Ele é um homem estranho e perigoso. Como poderia achá-lo atraente?

— Você realmente acredita que eu devo satisfações a uma humana?

Meu estômago revirou. O nervosismo me atingiu como um golpe.

Humana.

De novo aquela palavra. —Quem esse cara pensa que é?

— Certo… — murmurei, dando um passo para trás. — Então além de um perseguidor você também sofre de “delírio místico”. Ótimo. Devia ter ouvido meu pai sobre andar sozinha a noite.

O sorriso dele desapareceu instantaneamente.

- Sim. Deveria.

Ele se aproximou.

Tocando suavemente meu rosto com a ponta dos dedos, mais como uma provocação, um aviso do que poderia estar por vir. Seu toque deveria me assustar. Mas meu corpo reagiu da pior maneira possível. – Pare Amália, você precisa se controlar.

— Cuidado com a forma como fala comigo. - Você não é fraca demais para estar me confrontando assim humana?

A mudança em sua voz foi brutal.

Mais grave, até mesmo animalesca. – Quem era esse homem?

Meu corpo inteiro se arrepiou. Mesmo assim ergui o queixo e o encarei.

— Pare de me chamar de fraca. Você não me conhece. Aliás eu quem não devo satisfações a uma maluco como você.

Ele começou a andar na minha direção, lentamente, sem desviar os olhos dos meus.

— Você nem imagina o que está provocando humana. Você não tem ideia do que posso fazer com você.

Meu coração disparou.

Mas nesse momento a raiva falou mais alto que o medo.

— Ah, claro. Vai me dizer que você é um vampiro agora e vai beber meu sangue?

Ele parou.

Por um segundo, seus olhos escureceram, havia algo neles.. parecido com irritação e atravessou seu rosto.

— Vampiros são parasitas arrogantes. Não ouse me comparar a eles!

Pisquei várias vezes.

— O quê?

— E eles têm um cheiro horrível.

Apesar da situação absurda, uma risada nervosa escapou de mim.

— Meu Deus… você é completamente insano. Me diz, de qual hospício você fugiu?

— Continue me provocando e vou descobrir se você é corajosa... ou só inconsequente.

— Ah me desculpe. Parece, que magoei a fera.

Os olhos dele escureceram de repente, havia raiva ali. Selvageria.

— Sou o Alfa Supremo da alcateia Lua Prateada. Venho de uma linhagem pura. Exijo respeito.

O vento atravessou a viela violentamente.

Os cães voltaram a choramingar ao longe era como se sentissem..dor.

Mas eu só conseguia olhar para aquele homem.

Alfa Supremo, alcatéia.

Aquilo era ridículo.

Então comecei a rir sem controle, até meus olhos marejarem.

— “Alfa Supremo”? Isso vem com capa ou só problema psicológico mesmo?

O olhar dele endureceu instantaneamente. E se aproximou andando em volta de mim, como uma fera prestes a atacar sua presa.

— Você acha engraçado humana? Porque ainda não entende o perigo em que está.

Revirei os olhos e passei por ele.

— Boa noite, “Alfa Supremo”.

Nem consegui terminar a frase.

Num instante ele estava na minha frente.

Meu corpo travou.

Não ouvi passos ou sequer movimentos, ele simplesmente apareceu ali, bem na minha frente.

Estava extremamente perto, podia sentir seu hálito levemente contaminado por alguma bebida que não pude identificar.

O cheiro de terra molhada e sândalo me atingiram de forma brutal, era uma mistura perigosa e ao mesmo tempo, deliciosa. Porque isso mexia tanto comigo?

Era forte, quente e extremamente selvagem. E por mais que a razão me dissesse para temer, esse cheio me trazia familiaridade. Queria mais. muito mais.

Meu ar falhou.

— Como você fez isso…? Enfrentei-o novamente com o resto de coragem que ainda possuía.

O homem inclinou levemente a cabeça.

— Finalmente uma pergunta inteligente para uma humana tão pequena e tão tola.

Meu sangue ferveu.

— Escuta aqui, seu—

Então eu vi.

As presas se alongando lentamente.

Meu cérebro simplesmente se recusou a processar.

Não . Não. Não. Isso é loucura demais.

Isso não era possível.

Os olhos dourados fixaram nos meus de forma predatória, famintos por algo.. por mim.

Um rosnado grave vibrou em sua garganta.

E aquilo…definitivamente, não era humano.

Meu grito rasgou a rua.

Instintivamente puxei o spray de pimenta do bolso. Meu pai havia me dado para ocasiões como essa. Bem, não exatamente como essa.

— Fique longe de mim, seu lunático!

Disparei direto no rosto dele.

Uma.

Duas.

Três vezes.

O jato espalhou no ar.

Ele recuou com um rosnado furioso.

— O que diabos—?!

Não esperei terminar.

Saí correndo. Os passos batiam violentamente na calçada enquanto eu tentava respirar.

Meu coração parecia explodir.

Não olhe pra trás Amália, não olhe para trás.

Não olhe—

Um som ecoou atrás de mim mas consegui identificar.

Não eram passos, era muito pior.

Parecia… algo correndo nas sombras e rápido demais.

Animal demais. “Oque ele era”? Essa pergunta ecoou na minha mente.

As lágrimas ardiam nos meus olhos por causa do spray espalhado no ar.

Ou talvez do pânico que me consumia nesse momento.

Virei a esquina praticamente tropeçando.

A chave caiu da minha mão quando alcancei a porta de casa.

— Anda, anda, anda…

Meus dedos tremiam tanto que mal consegui destrancar.

Entrei rápido e bati a porta. Girei a chave várias vezes.

Só então percebi que estava sem ar.

O silêncio da casa caiu sobre mim imediatamente.

A televisão da sala ainda estava ligada em volume baixo.

Meu pai já devia estar dormindo. E isso era tudo que eu precisava naquele momento. Não tinha condições de dar nenhuma explicação do que aconteceu, até porque nem mesmo eu sabia oque estava acontecendo.

Chegar em casa deveria me acalmar.

Mas não acalmou.

Porque mesmo do outro lado da porta…

Eu ainda conseguia sentir aquele cheiro. Não sabia se era real, ou se estava marcado em minha mente. Sentia..

Terra molhada.

Sândalo.

E floresta depois da chuva.

Meu sangue gelou. Lentamente fui até a janela da sala…

Olhei para fora em direção á escuridão. E por um segundo tive a sensação de ver dois olhos dourados me observando do lado de fora.

Minhas pernas tremiam, meu coração desacelerava lentamente e eu só conseguia pensar em um banho quente e ir para debaixo dos cobertores.

Precisava esquecer essa noite maluca.

Precisava esquecer aquele cheiro.

Só não sabia se seria capaz.

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