Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Liah
Minhas mãos tremeram. Só por dentro. — Repitam comigo — pedi, não a eles, mas aos meus filhos. Aelyra e Rael falaram juntos, como se tivessem ensaiado numa língua que eu não conheço: — Que o nome segure o espírito. Que o espírito segure a carne. Que a carne segure a casa. Que a casa segure a noite. E que a noite não engula o que nos pertence. Senti o mundo deslocar um milímetro. Às vezes é isso que um rito faz: move uma coisa invisível na dobradiça do destino. Quando abri a boca para selar, uma sombra cortou a janela com violência. Não era pássaro. Não era nuvem. Era uma bandeira rasgada pela metade, a metade que vinha do Leste. Caiu no terraço como um corpo. Rhaziel se ergueu num salto. Magnus puxou a lâmina do sal como quem arranca um dente. Rael correu para a janela. Aelyra não se moveu; as pupilas dela diminuíram até virarem pontas de agulha. O corno tocou nos muros do castelo. Uma vez. Duas. Três. — Não é ataque — Rhaziel disse, depois de um silêncio que doeu. — É parlamento. — Do Leste? — perguntei. — Do Leste — Magnus confirmou, a voz baixa. — Trazem um nome. Senti náusea. Não a dos enjoos que têm erva, não a dos medos que têm abraço. A náusea dos reinos: a certeza de que alguém vem dar nome ao que é meu antes de mim. — Tragam-nos — ordenei. — Aqui. Diante do pão, da água e do sal. Rhaziel moveu-se primeiro. Magnus travou a lâmina sob o braço, pronto para o que a palavra “paz” costuma disfarçar. Aelyra veio para o meu lado e, pela primeira vez, segurou meus dedos sem me dirigir instruções do céu. Rael respirou fundo. — Mãe? — Sim? — Quando ele vier… vai ouvir a nossa língua primeiro, não a deles? Apertei a mão dele. — Vai ouvir seu nome. O portão interno abriu. Quatro homens em mantos de poeira, um estandarte sem metade e um velho com olhos que eram dois pregos. Ele entrou com o passo de quem já morreu e voltou, apoiado numa lança curta. Não parou diante de Magnus, não procurou Rhaziel. Veio até mim. O cheiro de estrada grudou no meu palato: terra, suor, cavalo cansado, medo muito antigo. — Rainha das Sombras — ele falou, e a voz tinha ferros velhos. — Trago-te um recado do Leste e do passado. — Que recado? Ele levantou o pergaminho, carimbado com um selo que reconheci e odiei ao mesmo tempo: o lobo coroado de Arkan. — “Três luas depois, o céu sangraria. O herdeiro nasceria entre trovões. E a loba que foi marcada por um monstro… seria coroada por um Deus.” — Ele ergueu o queixo. — O Deus pede o nome. Eu sorri. Não de alegria. De guerra. — O Deus pode esperar a minha boca. Ele abriu a palma, mostrando algo pequeno, frio. Um pingente, metade de um círculo, mordido de um lado. A outra metade, eu conhecia. Dorme numa caixa de ferro no fundo da minha cama. Minha mãe me deu quando ainda éramos ninguém. — O Deus — ele continuou — trouxe de volta o que tirou. A outra metade está no teu quarto. Esta… esteve conosco cinquenta anos. E agora volta ao lugar. Magnus me olhou, teso. Rhaziel me olhou, pronto. Eu fiquei de pé como as coisas que não podem cair sem derrubar o resto do mundo. — Diga ao seu Deus — falei, curva e reta ao mesmo tempo — que a loba dá nome quando a loba quer. Virei o rosto, toquei a barriga, tomei o ar como quem toma a última água na travessia. — Se for menina: Nyra. Se for menino: Cael. E quem ousar tirar este nome do corpo que carrego… beberá o sal com os dentes. O velho fechou os olhos. Parecia que aquilo era o que ele tinha vindo buscar, não entregar. Quando os abriu, havia uma calma feia neles. — Então prepare os trovões, Rainha. A terceira lua já subiu. A janela escureceu de relâmpago. O estandarte rasgado estalou. Rael apertou meus nós. Aelyra arfou baixinho. Magnus deu meio passo, o suficiente para lembrar ao mundo que ele existe. Rhaziel ficou ao alcance da minha sombra. Eu ergui a cabeça. Ninguém roubava nome da minha casa. Nem reis. Nem deuses. Nem os mortos. — O trovão que venha — eu disse. — Eu sei parir na tempestade. E, pela primeira vez, fui eu quem sorriu primeiro.






