Início / Lobisomem / A Guerra da Fêmea Marcada Livro II / Capítulo 4 — O Recado do Passado
Capítulo 4 — O Recado do Passado

POV Liah

Minhas mãos tremeram. Só por dentro.

— Repitam comigo — pedi, não a eles, mas aos meus filhos.

Aelyra e Rael falaram juntos, como se tivessem ensaiado numa língua que eu não conheço:

— Que o nome segure o espírito. Que o espírito segure a carne. Que a carne segure a casa. Que a casa segure a noite. E que a noite não engula o que nos pertence.

Senti o mundo deslocar um milímetro. Às vezes é isso que um rito faz: move uma coisa invisível na dobradiça do destino. Quando abri a boca para selar, uma sombra cortou a janela com violência. Não era pássaro. Não era nuvem. Era uma bandeira rasgada pela metade, a metade que vinha do Leste. Caiu no terraço como um corpo. Rhaziel se ergueu num salto. Magnus puxou a lâmina do sal como quem arranca um dente. Rael correu para a janela. Aelyra não se moveu; as pupilas dela diminuíram até virarem pontas de agulha.

O corno tocou nos muros do castelo. Uma vez. Duas. Três.

— Não é ataque — Rhaziel disse, depois de um silêncio que doeu. — É parlamento.

— Do Leste? — perguntei.

— Do Leste — Magnus confirmou, a voz baixa. — Trazem um nome.

Senti náusea. Não a dos enjoos que têm erva, não a dos medos que têm abraço. A náusea dos reinos: a certeza de que alguém vem dar nome ao que é meu antes de mim.

— Tragam-nos — ordenei. — Aqui. Diante do pão, da água e do sal.

Rhaziel moveu-se primeiro. Magnus travou a lâmina sob o braço, pronto para o que a palavra “paz” costuma disfarçar. Aelyra veio para o meu lado e, pela primeira vez, segurou meus dedos sem me dirigir instruções do céu. Rael respirou fundo.

— Mãe?

— Sim?

— Quando ele vier… vai ouvir a nossa língua primeiro, não a deles?

Apertei a mão dele.

— Vai ouvir seu nome.

O portão interno abriu. Quatro homens em mantos de poeira, um estandarte sem metade e um velho com olhos que eram dois pregos. Ele entrou com o passo de quem já morreu e voltou, apoiado numa lança curta. Não parou diante de Magnus, não procurou Rhaziel. Veio até mim. O cheiro de estrada grudou no meu palato: terra, suor, cavalo cansado, medo muito antigo.

— Rainha das Sombras — ele falou, e a voz tinha ferros velhos. — Trago-te um recado do Leste e do passado.

— Que recado?

Ele levantou o pergaminho, carimbado com um selo que reconheci e odiei ao mesmo tempo: o lobo coroado de Arkan.

— “Três luas depois, o céu sangraria. O herdeiro nasceria entre trovões. E a loba que foi marcada por um monstro… seria coroada por um Deus.” — Ele ergueu o queixo. — O Deus pede o nome.

Eu sorri. Não de alegria. De guerra.

— O Deus pode esperar a minha boca.

Ele abriu a palma, mostrando algo pequeno, frio. Um pingente, metade de um círculo, mordido de um lado. A outra metade, eu conhecia. Dorme numa caixa de ferro no fundo da minha cama. Minha mãe me deu quando ainda éramos ninguém.

— O Deus — ele continuou — trouxe de volta o que tirou. A outra metade está no teu quarto. Esta… esteve conosco cinquenta anos. E agora volta ao lugar.

Magnus me olhou, teso. Rhaziel me olhou, pronto. Eu fiquei de pé como as coisas que não podem cair sem derrubar o resto do mundo.

— Diga ao seu Deus — falei, curva e reta ao mesmo tempo — que a loba dá nome quando a loba quer.

Virei o rosto, toquei a barriga, tomei o ar como quem toma a última água na travessia.

— Se for menina: Nyra. Se for menino: Cael.

E quem ousar tirar este nome do corpo que carrego… beberá o sal com os dentes.

O velho fechou os olhos. Parecia que aquilo era o que ele tinha vindo buscar, não entregar. Quando os abriu, havia uma calma feia neles.

— Então prepare os trovões, Rainha. A terceira lua já subiu.

A janela escureceu de relâmpago. O estandarte rasgado estalou. Rael apertou meus nós. Aelyra arfou baixinho. Magnus deu meio passo, o suficiente para lembrar ao mundo que ele existe. Rhaziel ficou ao alcance da minha sombra.

Eu ergui a cabeça. Ninguém roubava nome da minha casa. Nem reis. Nem deuses. Nem os mortos.

— O trovão que venha — eu disse. — Eu sei parir na tempestade.

E, pela primeira vez, fui eu quem sorriu primeiro.

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