Capítulo 5 – O Lobo à Porta

POV Magnus

O trovão não veio de fora.

Veio de mim.

Eu estava ali, parado a poucos passos dela, e podia jurar que a própria terra queria abrir um fosso entre nós para evitar que eu fizesse o que meu corpo gritava para fazer. O chão parecia instável sob as botas, como se reconhecesse a violência contida em cada músculo meu, como se tentasse me lembrar que até montanhas sabem quando um colapso está prestes a acontecer.

Tomá-la.

Arrancá-la de perto dele.

Marcar de novo aquele ventre até que qualquer lembrança de Rhaziel fosse apagada como cinza na neve.

Era isso que meu instinto pedia. Não como desejo cego, mas como necessidade primitiva de reafirmação. Como se o mundo inteiro dependesse de provar, mais uma vez, que ela ainda era minha fronteira, meu território, minha guerra particular.

Mas não.

Ela ficou erguida. A mão pousada sobre a barriga, firme, quase protetora, com a calma calculada de quem sabe que o verdadeiro poder não grita. Ele sussurra. Ele observa. Ele espera.

E então ela sussurrou um nome. Dois, na verdade.

Nyra.

Cael.

O som daqueles nomes foi como lâmina fina entrando entre minhas costelas. Um deles, talvez, sangue do meu sangue. Talvez não. Um deles, talvez, herdeiro do que eu fui antes da fúria me definir. Ou talvez fruto de algo que eu não controlei, que não toquei, que não marquei.

E isso… isso foi a primeira corrente que mordeu meu pescoço.

Porque não há nada que enfureça mais um alfa do que a dúvida. Não saber onde termina o próprio domínio é mais cruel do que qualquer derrota aberta.

Eu não falei nada diante do mensageiro do Leste.

Deixei que o silêncio fizesse o trabalho.

O silêncio é mais letal do que qualquer espada. Ele permite que o medo se construa sozinho, que a mente dos outros crie versões piores do que eu jamais precisaria executar. O silêncio cria monstros mais obedientes do que soldados.

O velho falava demais. Sempre falam. Acham que palavras compram território. Não compram. Só denunciam fraqueza.

Quando ele se retirou, levando metade da maldição com ele, eu não olhei para Rhaziel. Não precisava. Eu reconheço o cheiro de um homem que acredita que venceu. É um cheiro doce demais, quase enjoativo.

O gosto da vitória dele é de melado podre.

E vai apodrecer mais.

Porque vitórias construídas sobre concessão não duram. Elas afundam lentamente, corroendo tudo por dentro até não sobrar nada além de arrependimento e ossos limpos.

Deixei o salão por último.

Caminhei devagar, sentindo cada pedra sob as botas como se fosse carne. Como se o castelo fosse um organismo vivo e eu estivesse atravessando suas veias com a paciência de quem sabe onde cortar quando for preciso.

Atrás de mim, o som das vozes se afastava. Conselheiros, mensageiros, promessas ocas. À frente, corredores longos demais para quem carrega pressa e fome.

E eu carregava as duas.

O castelo ainda tinha o cheiro da Primeira Lua Sangrenta. Sangue seco nos degraus mais altos. Fumaça de ervas nos corredores estreitos. Suor de corpos que passaram a noite tentando fingir que a paz existe.

Não existe.

Nunca existiu.

A paz é apenas o intervalo entre duas escolhas violentas.

E eu vou lembrar a todos disso.

Quando cheguei aos meus aposentos, o silêncio foi um golpe na cara. Não pelo vazio. Mas porque era o mesmo silêncio de três meses atrás, quando voltei da guerra e encontrei a cama fria, o quarto limpo demais, como se ela nunca tivesse dormido ali. Como se sua ausência tivesse sido organizada com cuidado, para não deixar rastros que me ferissem.

Sentei na beira da cama e apoiei os cotovelos nos joelhos.

Ali, sozinho, sem soldados, sem conselhos, sem tronos, eu era apenas um homem enfrentando o que não podia dominar com força.

Fechei os olhos e deixei que o cheiro dela me atingisse como uma lâmina: jasmim queimado, pele aquecida, e agora o traço agridoce da gestação. Uma mistura de vida e desafio, promessa e afronta.

Meu corpo reagiu de um jeito que me envergonharia, se eu fosse outro homem.

Mas não sou.

Sou feito de fome.

E a minha fome nunca foi por comida, nem por vinho, nem por tronos. Sempre desprezei aquilo que pode ser conquistado sem risco real.

Minha fome sempre foi por ela.

Por sua resistência.

Por sua forma de me enfrentar sem erguer a voz.

Por sua capacidade de existir sem pedir permissão, mesmo quando tudo ao redor exige submissão.

E agora, havia algo mais.

Ela não estava apenas distante. Estava inacessível de um jeito novo. Não por muros, nem por guardas, mas por escolha.

Isso era pior.

Levantei-me devagar e atravessei o quarto. Passei a mão pela mesa, pelas armas, pelo mapa aberto que mostrava fronteiras que em breve seriam rasgadas. Tudo aquilo era simples demais perto do que realmente estava em jogo.

Reinos podem cair. Clãs podem desaparecer.

Mas o que eu estava perdendo não tinha nome político.

Era algo mais antigo. Mais cru.

Era o controle sobre o que me definia.

Ela não era mais apenas a fêmea marcada. Não era mais apenas a mulher que eu tomei, quebrei, e que mesmo assim permaneceu. Agora, ela era a linha que separava o alfa do monstro que ele carrega dentro.

E eu sentia essa linha ficando fina demais.

Se Rhaziel acredita que venceu, é porque ainda não entendeu o tipo de guerra que começou. Ele luta com estratégia, com palavras, com concessões calculadas.

Eu luto com ruína.

Com aquilo que não deixa espaço para reconstrução confortável.

E quando eu decidir avançar, não será por posse.

Será por necessidade de existir inteiro outra vez.

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