Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Liah
Na manhã seguinte, o reino fingiu paz. Gente demais sabe fingir paz quando a guerra pisa leve no pátio. Os ferreiros bateram ferro como se fosse só trabalho, não aviso. O som ecoava ritmado demais, ensaiado demais, como se cada martelada dissesse ainda estamos aqui para quem soubesse ouvir. As cozinhas ferveram caldos como se estivessem alimentando crianças, não colunas de marcha. As servas sussurraram fofocas como se fosse vida comum, não uma maneira cuidadosa de espalhar versões antes que a versão real pegue fogo. A paz sempre começa como um acordo tácito para mentir juntos. Eu saí para o terraço com uma coragem falsa nos pés. Precisei dela. A Primeira Lua tinha sido noite de nome, mas também de corte. A partir dali, cada gesto meu seria reescrito pelos olhos de quem quisesse. E eu precisava escolher qual mentira funcionaria a nosso favor. O céu estava claro demais para um reino em risco. Isso sempre me irrita. O mundo não respeita os nossos tempos. Ele segue azul quando quer, indiferente às decisões que podem enterrá-lo. Respirei fundo. O cheiro do castelo naquela hora era estranho: pão fresco, metal quente, pedra úmida. Vida acontecendo apesar de tudo. Ou por causa de tudo. Encontrei Rael primeiro. Ele sempre vem primeiro quando preciso lembrar como respirar sem calcular consequências. Estava no pátio lateral, tentando domar um falcão jovem com um pedaço de carne e muita conversa gentil, como se pássaros obedecessem ao amor e não à fome. O falcão bicava o ar, desconfiado, mais orgulho do que asa. Ao me ver, Rael endireitou o ombro, enfiou o queixo numa dignidade que ainda é grande demais para ele. Sorri sem perceber. Ele relaxou meio dedo. — Aelyra? — perguntei. — Biblioteca, mãe. — respondeu sem hesitar. — Diz que os mapas mentem quando ninguém está olhando e que alguém precisa vigiar. Fechei os olhos por um segundo. — Não discuto quando ela fala com esse tom. — Nem eu. — Ele ergueu o braço; o falcão subiu, indeciso, bateu as asas com força e pousou de volta, inseguro. — Hoje vai ter conselho? — Hoje, amanhã e depois. — respondi. — Até alguém cansar primeiro. — Eles nunca cansam. — Cansam sim. — disse. — Só cansam de nós, não da guerra. Rael baixou os olhos por um momento. Ele entende mais do que gostaria. Depois abriu um sorriso torto, o mesmo sorriso que me fez sobreviver a noites que não tinham teto nem promessa. O sorriso que diz ainda estamos aqui, mesmo quando não deveríamos. — Mãe… — começou, e parou. Esperei. — Você vai contar? O vento trouxe o cheiro de água sob a ponte, de ferrugem limpa, de pão cedo. E, misturado a tudo, aquele perfume novo que mora dentro de mim. Algo antigo, quente, atento. Tive vontade de dizer sim. Tive mais vontade ainda de dizer não. Acabei dizendo a única coisa que ainda me salva quando tudo aperta: — Vou contar do meu jeito. — Eles não vão gostar. — Eles nunca gostam. — Eu gosto. Segurei o rosto dele entre as mãos. O calor da pele, a teimosia boa nos olhos, a confiança que pesa mais do que qualquer coroa. É impossível não chorar quando o próprio filho te oferece a casa que você não tem por dentro. Eu não chorei. Mas chorei em algum lugar que os deuses veem. Ou fingem ver. — Traga sua irmã quando o sino tocar a segunda hora. — Ele assentiu. — E cuide para que ninguém a incomode. Nem mesmo o pai. Rael entendeu qual pai eu não disse. Engoliu em seco. Não perguntou nada. Não precisava. Às vezes, amar é saber exatamente o que não dizer. — Vou ficar por perto. — garantiu. — Eu sei. Ele se afastou devagar, como quem carrega uma responsabilidade maior do que o corpo. O falcão finalmente levantou voo, uma asa desajeitada, a outra convicta. Identifiquei-me inteira naquele pássaro e ri sozinha. Tem vezes que a gente precisa rir na cara do abismo para ele não se sentir tão à vontade. Fiquei ali mais um pouco, observando o pátio se encher. Soldados passavam fingindo rotina. Conselheiros cruzavam caminhos com a pressa de quem já escolheu um lado, mas ainda não decidiu qual mentira defender. O reino respirava curto. Senti o peso se acomodar dentro de mim. Não era medo. Era aceitação. Hoje eu não falaria como rainha dócil. Não falaria como fêmea marcada. Falaria como quem entende que a guerra não começa quando o primeiro golpe cai, mas quando alguém decide parar de pedir licença para existir. E, dessa vez, eu não pediria.






