Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV Liah
A sala dos ritos ficou vazia rápido demais, como se o próprio castelo quisesse engolir de volta aquilo que viu. Os ecos da minha voz, dos três nomes proclamados e do silêncio que se seguiu ficaram presos nas pedras. Eu ainda sentia o peso das coroas invisíveis pousadas no topo das minhas mãos, não as de ouro, mas as de sangue, destino e perda. Eu não olhei para trás quando eles foram embora. Não ousei. Se visse Rhaziel com aqueles olhos marejados, eu quebraria. Se encarasse Magnus com aquela máscara de ossos calados, eu cairia. E eu não podia. Não agora. A Primeira Lua Sangrenta pendia do céu como uma lâmina ergueu voto sobre nossas gargantas, e qualquer fraqueza seria um convite à decapitação. Meus filhos se aproximaram primeiro, como sempre. Aelyra, branca como a própria noite quando decide ser neve, tocou minha barriga com a seriedade de uma anciã. Rael, quente como um sol preso em corpo miúdo, encostou a testa no meu ombro e respirou fundo, como se quisesse aprender de cor o cheiro do futuro. — Mamãe, já demos os nomes — ele sussurrou, temendo acordar as paredes. — Agora falta o mais difícil. — O quê? — Aprender a não odiar sozinha — disse Aelyra no meu lugar, a voz tão baixa que quase não existiu. Mas existiu. Sempre existe. Eu queria dizer a eles que eu não odiava sozinha, que o ódio era um bicho de muitos dentes mastigando cada canto deste reino; que os corredores tinham inveja; os salões, cobiça; as muralhas, medo; e os leitos, ambições esfomeadas. Mas meus filhos aprendem com o que eu faço, não com o que eu digo. Eu apenas os abracei. E, por um instante breve demais, a Primeira Lua pareceu menos cruel. Quando os levei aos quartos, Aelyra se movia como quem já conhece o mapa de um sonho antigo. Deitou-se, mãos sobre o peito, olhos abertos para o teto, e eu soube que ela não dormiria. Rael lutou contra o sono, recuando, espiando a porta, como se esperasse que um lobo atravessasse a madeira só para dizer a ele qual lado escolher. Beijei as testas, as pálpebras, a ponta do nariz. Eles riram baixinho, e eu guardei esse som dentro da boca, como quem segura um feitiço com a língua. — Três luas — Aelyra disse, quando já estava quase do lado de fora. — A terceira vai pedir um preço. Não deixe que paguem por você. — Quem? — perguntei. — Os que amam você demais para fugir. Fechei a porta. Fiquei parada alguns segundos no corredor, ouvindo os passos que não vinham. Nem os dele, nem do outro. O castelo respirava no meu ouvido, lento e grosso, como um animal velho tentando não ser percebido pelos caçadores. Voltei ao salão vazio. O incenso tinha morrido nas tigelas de ferro. Algumas pétalas de heléboro resistiam no chão, esmagadas por botas, por pressa, por decisões. Debrucei sobre o altar de pedra e apoiei as mãos. O frio subiu e me encheu até o fundo dos ossos. Não era um frio do corpo. Era o frio de ser Rainha e fêmea, mãe e arma, ferida e ponte, tudo ao mesmo tempo. De quem é? A pergunta não saiu da minha boca, mas a pedra parecia escutar. O que cresce em mim carrega mais do que sangue; carrega guerra. Carrega memória. Carrega aquilo que eu tive medo de ser desde o começo: escolha. Eu me lembro da primeira noite em que Magnus me tomou. Lembro porque não há como esquecer quando uma vida é partida ao meio com as mãos. Também me lembro da noite em que eu escolhi Rhaziel. Lembro porque é raro, raríssimo, o mundo permitir que eu seja eu. Entre as duas noites há todas as versões de mim; a que foi caçada, a que foi coroada, a que aprende a mandar, a que ainda treme quando alguém fecha a porta atrás de mim. — Minha Rainha? — a voz veio da sombra, macia demais para a hora. — Entre — disse, sem perguntar quem era. Eu sabia. Há vozes que a gente aprende com o corpo, como aprende a prever a dor antes dela chegar. A anciã das ervas entrou em passo curto, os cabelos como palha de lua, os olhos de poço sem fundo. — Eu não te chamei, Irmaline. — Foi o cheiro que me chamou. E os antigos não precisam de convite quando o destino cantou primeiro. Virei metade do rosto, o suficiente para não negar nem aceitar. Ela se aproximou do altar, fitou as tigelas vazias, a faca embainhada, os três fios de fita, branco, cinza, escarlate, que usei na cerimônia dos nomes. — Vocês, rainhas novas, sempre tentam resolver com silêncio o que exige rito — ela murmurou, um pequeno riso sem dentes. — Não é hora de ritos, é hora de guerra. — Guerra é só o rito dos homens. — E o que você quer de mim? Ela respirou, lenta. — Que coma. Que durma. Que sangre quando for a hora. E que pare de achar que esconder é proteger. — Está todo mundo faminto por uma fraqueza minha — retruquei, sentindo a vela corroer o próprio pavio só para me contradizer. — Se souberem, usam. Se não souberem, inventam. Escolho o menor veneno. Irmaline inclinou a cabeça, os dedos deformados pela idade roçando o altar como se ele fosse um gato grande. — O menor veneno é o que você já engoliu. O segredo cresce com o menino. E segredo, Rainha… segredo dá à luz monstros. Ela me olhou como quem pesa o crânio de um rei. — Não estou pronta para isso — eu disse, mais baixo do que queria. — Não ainda. — Ninguém está. Só que a lua não pergunta. A lua convoca. Ela tirou do manto uma pequena bolsa de couro e deixou ao lado da faca. — Para enjoos, para os ossos, para os sonhos. Não há erva para Magnus, nem para Rhaziel. Esses dois… são uma doença que só cura com tempo. Ou com sangue. — Eu não posso perder nenhum. — Então aprenda a perder a si mesma um pouco menos. Ela virou as costas. Antes de sair, deixou cair uma última frase: — Não guarde o nome por raiva. Nome segura o espírito no corpo. E o seu já tem gente demais tentando puxá-lo para fora. Fiquei sozinha com as tigelas vazias, as fitas e a bolsa de couro. O cheiro de raiz e mel ferveu por um segundo, depois sumiu, como fazem as coisas que só existem para dar recado e ir embora.






