Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Liah
Convoquei o conselho ao meio-dia. Não porque eu queria, mas porque o reino precisa ver cenas públicas de ordem, sob pena de enlouquecer no privado. A mesa estava plena dos mesmos velhos de sempre, com seus mesmos truques de sempre. Um deles, o castanho alto, o da voz de seda que tenta entrar pelas nossas orelhas e fazer ninho, abriu a boca primeiro. — Minha Rainha, chegaram corvos do Leste. Falam de um levante entre os remanescentes de Arkan. Um filho bastardo reivindica terras nas ravinas. Meu estômago virou uma tigela de gelo. Bastardo e Arkan na mesma frase ainda são duas facas na mesma ferida. O homem tentou continuar, mas a porta abriu sem cerimônia. Eu já sabia que seria assim: quando um rei não pode invadir com exércitos, ele invade com o corpo. Magnus entrou como se as paredes tivessem sido construídas para vê-lo passar. Não usava coroa. Não precisava. Os olhos, vermelhos menos de fúria, mais de febre, percorreram a sala como quem mede os ossos de uma fera já abatida. Ele não me olhou de primeiro. Foi ao fundo, pegou uma taça, provou o vinho como quem experimenta o próprio veneno. Depois, sim. Firmou os olhos nos meus. — Você tem um reino para governar, Liah — disse, calmo de um jeito que deixa o mundo nervoso. — E agora… tem dois corações para proteger. Minha mão tremeu um fio. Só um fio. — Três — corrigi, sem sorrir. — O meu ainda conta. — Sempre contou — ele sussurrou, e só eu ouvi. — Conselho — cortei, erguendo o queixo. — Ninguém fala de ravinas enquanto o Norte sangra. O Leste espera. O Sul está em silêncio pelos motivos errados. E não entregaremos o flanco ocidental aos boatos de bastardia. Quem quiser o que é meu, que venha pedir com rosto descoberto. — E o que é seu? — o velho de voz de seda arriscou. — Tudo que respira sob minha lua — respondi, e as janelas pareceram escurecer só para provar meu ponto. Magnus empurrou a taça. Não quebrou. Ele não está mais no tempo de quebrar copos; aprendeu que copos não sangram. A porta abriu de novo, e o silêncio da sala cedeu como gelo sob o peso. Rhaziel entrou com a franqueza de um corte limpo. Não fez reverência ao rei. Fez um aceno à Rainha. — Tem mensageiros do Sul pedindo passagem — falou direto, sem poesia. — Dizem que trazem trégua. Eu digo que trazem olhos. — Deixe-os entrar — respondi. — Que vejam o que precisamos que vejam. — O que é? — Unidade. Ficamos três batimentos de coração nos encarando: eu, Magnus, Rhaziel. Três formas diferentes de guerra contendo a respiração para não explodir a mesma sala. Depois mandei o conselho embora, um por um, carregando seus “sim, minha Rainha” nos corredores como tigelas que vão cair. Quando ficamos só nós, não por escolha, mas por necessidade, falei primeiro. Sempre o faço quando o mundo está prestes a afogar. — Ninguém pergunta o que eu vou fazer. Magnus cruzou os braços. Rhaziel franziu a testa. — O que você vai fazer, Liah? — Magnus deixou a pergunta cair entre nós, pesada, redonda, cruel. A resposta estava nos músculos da minha mandíbula desde a Primeira Lua: — Vou dar um nome. O silêncio retesou o teto. — Agora? — Rhaziel foi o único a ousar. — Você disse que… — Eu disse que não era hora de ritos — cortei. — E não era. Ontem o nome seria um troféu para a guerra de vocês. Hoje, o nome é um cerco que eu levanto contra os dois. É assim que eu protejo meus filhos: amarrando o destino deles no meu, não no de vocês. Magnus respirou fundo, um sopro que pareceu morder o ar. — Diga então — exigiu baixo. — Se tiver coragem. Eu me aproximei da janela. A luz do fim de tarde estourava em laranja nas telhas negras. Havia pássaros cortando os fios suspensos entre as torres, e por um segundo jurei ser capaz de voar por dentro daquela luz. Abri a boca. Fechei. Abri de novo, deixando o nome nascer onde ele devia: entre língua e dente, ferro e sangue, carne e promessa. — Se for menina, Nyra. Se for menino… Cael. Rhaziel cerrou os olhos como quem recebe um beijo e uma sentença ao mesmo tempo. Magnus não se moveu, mas a taça que ele não quebrou rachou por dentro, um som fino, impossível, atravessando a sala. — Por quê? — ele perguntou, rouco. — Porque Nyra significa “noite que guarda” na língua antiga. E Cael, “céu ferido que não cai”. — Voltei-me por inteiro, encarando os dois. — E porque não vou permitir que o próximo herdeiro seja só mais um título no pescoço de vocês. Ele será meu — nosso — mas pertencerá primeiro ao reino que estou tentando manter vivo. Magnus aproximou um passo. Meu corpo inteiro pediu para recuar. Eu fiquei. Rhaziel deu um passo também, de outro lado, e por um instante tive a impressão perfeita de que eu era a linha que impede dois mundos de colidir. — Você acha que um nome vai nos domar? — Magnus sussurrou. — Eu acho que um nome pode domar um destino. E isso, Magnus, é mais do que conseguiram suas garras. Ele riu. Um riso sem dentes, sem gozo, sem nada. — E o pai? A palavra pendurou. Eu senti meu coração pedir abrigo no chão. — O pai… — respirei. — O pai é quem fica. Nenhum dos dois se mexeu. É assim que se mede coragem nos palácios: pelos corpos que não se movem quando o mundo empurra. Quando a porta atrás de mim rangeu, não foi o vento. Era Aelyra. Rael ao lado, a mão dele segurando a dela, como sempre fizeram antes de atravessar qualquer sala cheia de adultos. — Mamãe — Aelyra disse, simples. — A segunda hora soou. Olhei para meus filhos. A maré dentro de mim baixou um dedo. Apontei o altar menor do salão, o de madeira, aquele que guarda pão, água e sal. Coloquei as mãos sobre a barriga. Não por superstição. Por lei. — Hoje, eu amarro o nome ao sangue — disse, e minha voz não vacilou. — Nyra ou Cael. Não haverá disputa sobre este corpo, nem sobre o que mora nele. Quem quiser este trono… que aprenda a ser ponte, não muro. Rhaziel foi o primeiro a se mover. Ajoelhou, não a mim, mas ao altar do pão. Era sua maneira de dizer “eu fico”. Magnus não ajoelhou. Mas tirou a lâmina do cinto, apoiou sobre o sal, a oferenda de um rei que entende o único pacto que ainda nos sobra: o do limite.






