O restaurante estava cheio, como quase sempre.
O cheiro de comida quente se espalhava pelo salão, misturando-se às vozes animadas, talheres batendo nos pratos e música ambiente baixa, cuidadosamente escolhida para não invadir conversas. Raquel caminhava entre as mesas com passos tranquilos, observando detalhes que a maioria das pessoas ignorava: o tempo de espera, a postura dos garçons, o sorriso verdadeiro — ou forçado — dos clientes.
Ela não precisava estar ali. Aquele restaurante era apenas um entre dezenas. Mas Raquel nunca deixou de visitar suas unidades. Não por controle excessivo, e sim por princípio. O império que construíra tinha raízes no chão, não apenas em relatórios.
— **Mesa sete pediu para elogiar o molho novo**, — disse uma voz familiar ao seu lado.
Raquel sorriu antes mesmo de virar o rosto.
Francine caminhava ao seu lado com um tablet na mão, cabelo perfeitamente alinhado, maquiagem discreta e elegante. Usava o uniforme da gerência com naturalidade absoluta, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar — e, de fato, pertencia.
— Eu sabia que iam gostar — respondeu Raquel. — Ajustamos no ponto certo.
Francine assentiu, digitando algo rapidamente.
— Vendas do prato subiram vinte por cento desde o lançamento. E o feedback online está ótimo.
Francine não era apenas a melhor amiga de Raquel. Era sua parceira de guerra.
As duas se conheceram muitos anos antes, ainda na faculdade. Raquel, calada e observadora. Francine, intensa, inteligente, afiada. Enquanto o mundo insistia em tentar encaixá-las em lugares menores do que eram, elas se reconheceram.
Não foi uma amizade construída sobre semelhanças, mas sobre sobrevivência.
Francine sabia o que era entrar em um lugar e ser avaliada antes mesmo de falar. Sabia o que era ter sua competência questionada por causa do corpo, da identidade, da existência. E, assim como Raquel, aprendera a responder com excelência.
— A equipe está tensa hoje — comentou Francine, baixando a voz. — Você sentiu?
Raquel olhou em volta com mais atenção. Alguns garçons cochichavam. O gerente do turno parecia inquieto demais.
— Algo específico? — perguntou.
Francine fez uma expressão breve, quase imperceptível.
— Os números da última semana não foram ruins… mas não cresceram como esperado. E isso não é comum pra gente.
Raquel parou de andar.
Não era pânico. Era alerta.
— Mostra depois — disse ela. — Vamos fechar o salão primeiro.
Enquanto o restaurante seguia funcionando, Raquel e Francine se moveram como sempre fizeram: com coordenação silenciosa. Um olhar bastava. Um gesto resolvia.
No escritório da unidade, longe do barulho, Francine projetou os dados na tela.
— Olha isso — disse. — Algumas unidades mantiveram o fluxo. Outras caíram levemente. Nada drástico. Mas… estranho.
Raquel cruzou os braços.
— O mercado não muda do nada.
— Exato.
Francine respirou fundo antes de continuar.
— Surgiu uma nova tendência forte nas redes. Não diretamente contra a gente, mas… indireta.
Ela abriu uma campanha publicitária recente. Vídeos de corpos sarados, frases agressivas sobre “disciplina”, “vergonha alimentar”, “culpa”.
Raquel sentiu algo se mover dentro do peito.
— Isso é novo — murmurou.
— Uma rede de academias — explicou Francine. — Crescimento rápido. Discurso provocativo. Eles não vendem só treino. Vendem julgamento.
Raquel fechou os olhos por um segundo.
Ela conhecia aquele tom. Conhecia aquela violência disfarçada de motivação.
— Ainda não nos atacaram diretamente — continuou Francine. — Mas estão criando uma narrativa perigosa. Comer vira erro. Corpo vira falha.
Raquel abriu os olhos.
— E quando fazem isso, não estão vendendo saúde. Estão vendendo culpa.
Francine sorriu de lado.
— Por isso eu trabalho com você.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, absorvendo o peso daquilo. Não era apenas concorrência. Era ideologia.
— Vamos observar — disse Raquel, por fim. — Nada de reação precipitada. Ainda.
Francine assentiu, mas seu olhar permanecia atento.
— Só uma coisa — acrescentou. — Essa rede não é amadora. O investimento por trás é grande. Estratégia agressiva. Eles sabem exatamente o que estão fazendo.
Raquel apoiou as mãos na mesa.
— Então nós também sabemos.
A amizade das duas não precisava de discursos. Era feita de confiança construída em dias difíceis, em noites longas, em portas fechadas na cara. Raquel confiava em Francine como confiava em si mesma.
— Aliás — disse Francine, mudando levemente o tom —, a entrevista da semana que vem. Quer que eu revise o roteiro?
— Quero — respondeu Raquel. — E corta qualquer pergunta sobre “superação pessoal”. Quero falar de negócio.
Francine riu.
— Claro. Nada de “história inspiradora”. Só estratégia e resultado.
— Exatamente.
Quando saíram do escritório, o restaurante já se preparava para fechar. As últimas mesas eram recolhidas, o bar silenciava, as luzes iam sendo diminuídas.
Raquel caminhou até a porta e parou por um instante, observando o espaço vazio. Cada mesa, cada cadeira, cada detalhe existia porque ela não desistira quando tudo dizia para desistir.
Francine parou ao seu lado.
— Você percebe que construiu algo que vai muito além de comida, né?
Raquel pensou por um momento.
— Eu sei. — Fez uma pausa. — Mas também sei que isso incomoda.
— Sempre incomodou — respondeu Francine. — Pessoas felizes, livres e sem culpa sempre incomodam.
Raquel respirou fundo.
— Então vamos continuar incomodando.
As duas trocaram um sorriso cúmplice.
Do lado de fora, a cidade seguia viva, indiferente aos impérios que nasciam e aos que estavam prestes a ser desafiados.
Raquel ainda não conhecia o rosto por trás daquela nova ameaça. Não sabia o nome. Não sabia a história.
Mas algo lhe dizia, com a mesma intuição que a trouxera até ali, que aquela não seria apenas uma disputa de mercado.
Seria pessoal.
E quando o primeiro golpe viesse, Raquel não estaria sozinha.
Ela tinha Francine.
E isso fazia toda a diferença.