Um novo inimigo

Os números não mentem.

Raquel encarava o painel projetado na parede da sala de reuniões enquanto os gráficos se atualizavam em tempo real. Linhas que antes subiam com segurança agora apresentavam pequenas oscilações descendentes. Nada catastrófico. Nada escandaloso. Mas suficiente para chamar atenção.

— Isso começou há três semanas — disse Francine, em pé ao lado da tela. — Primeiro em duas unidades. Agora já são oito.

Os diretores trocavam olhares discretos. Aquela não era uma reunião de crise, mas definitivamente não era rotineira.

— Estamos falando de quanto? — perguntou um dos conselheiros.

— Entre cinco e oito por cento de queda — respondeu Francine. — Variável por região. Coincide exatamente com a expansão de uma nova rede.

Raquel manteve o olhar fixo nos dados.

— Repete — pediu.

Francine mudou o slide. O nome da rede apareceu em destaque, acompanhado por imagens de campanhas agressivas, cores fortes, slogans provocativos.

— Uma rede de academias fitness — explicou. — Crescimento rápido. Investimento pesado. Marketing invasivo. Eles não vendem só exercício. Vendem um discurso.

Raquel inclinou levemente a cabeça.

— Qual discurso?

Francine respirou fundo.

— Que comer é fraqueza. Que prazer é desculpa. Que corpos precisam ser corrigidos.

O silêncio que se seguiu foi denso.

Raquel sentiu algo antigo se mexer dentro dela. Não era medo. Era reconhecimento. Aquele tipo de linguagem ela conhecia bem. Era a mesma usada nos corredores da escola, nos olhares atravessados, nas risadas disfarçadas de “brincadeira”.

— Eles nos citam? — perguntou.

— Não diretamente — respondeu Francine. — Mas insinuam. Criam comparação. Colocam a culpa no consumidor.

Raquel apoiou os cotovelos na mesa.

— Isso não é concorrência direta. É guerra simbólica.

Um dos diretores pigarreou.

— Com todo respeito, Raquel, isso é só tendência de mercado. Fitness vende. Sempre vendeu.

Ela virou o rosto lentamente para ele.

— Não quando vem acompanhado de humilhação — respondeu. — Isso vende rápido. Mas cobra um preço alto depois.

O diretor se calou.

Raquel se levantou e caminhou até a janela da sala de reuniões. Lá embaixo, a cidade pulsava, alheia às batalhas invisíveis travadas nos andares superiores.

— Não vamos reagir com pânico — disse ela, sem se virar. — Ainda não.

— Então qual é o plano? — perguntou alguém.

Raquel virou-se.

— Observação. Análise. Estratégia. Eles querem provocar reação emocional. Não vamos dar isso.

Francine sorriu discretamente.

— Já comecei a mapear o público deles — disse. — E o nosso. Há sobreposição, mas também há rejeição silenciosa.

— Como assim? — perguntou Raquel.

— Nem todo mundo gosta de ser julgado — respondeu Francine. — Alguns vão por curiosidade. Outros por pressão. Mas muitos voltam se sentindo menores do que entraram.

Raquel assentiu.

— Culpa é uma moeda instável.

A reunião terminou com decisões claras: monitoramento constante, revisão de campanhas, reforço da identidade da marca. Nada de ataque direto. Nada de resposta impulsiva.

Mas, por dentro, Raquel sabia: algo havia mudado.

Mais tarde, em seu escritório, ela revisava relatórios sozinha. A luz da cidade entrava pelas janelas de vidro, refletindo nos números espalhados pela mesa.

Ela fechou um dos arquivos e apoiou a testa na mão por um instante.

Memórias antigas surgiram sem aviso. Frases soltas. Risadas distantes. Um recreio quente demais. Um corredor estreito demais.

Ela respirou fundo.

— Não agora — murmurou para si mesma.

O celular vibrou.

Era Francine.

— Estou no marketing — disse a amiga. — Preciso que você veja uma coisa.

Minutos depois, Raquel entrou na sala onde uma equipe observava vídeos em silêncio. Na tela, influenciadores repetiam frases quase idênticas:

— *“Sem desculpas.”*

— *“Corpo bom é corpo disciplinado.”*

— *“Vergonha não emagrece, mas motiva.”*

Raquel sentiu o estômago revirar.

— Isso vai longe — disse Francine. — Eles estão criando um inimigo imaginário. E esse inimigo somos nós… ou tudo o que representamos.

Raquel cruzou os braços.

— Eles sabem exatamente o que estão fazendo.

— A pergunta é — Francine a encarou —, quem está por trás disso?

Raquel ficou em silêncio.

Naquela noite, em casa, Raquel não conseguiu dormir. Caminhou pelo apartamento escuro, descalça, sentindo o frio do chão nos pés. Parou diante da janela e observou a cidade iluminada.

Ela pensou na menina que fora. Pensou na mulher que se tornara. Pensou no quanto havia custado chegar até ali.

Não era apenas sobre vendas.

Era sobre narrativa.

Sobre quem tinha o direito de existir sem pedir desculpas.

No dia seguinte, as redes sociais explodiram com um novo vídeo da academia rival. Milhões de visualizações. Comentários divididos. Alguns exaltando. Outros criticando.

Raquel observava tudo com atenção cirúrgica.

— Eles vão forçar até alguém reagir — disse Francine, ao seu lado.

— E quando isso acontecer — respondeu Raquel —, vão descobrir que mexeram com a pessoa errada.

Francine inclinou a cabeça, curiosa.

— Você parece… pessoalmente incomodada.

Raquel demorou a responder.

— Algumas guerras começam no mercado — disse por fim. — Outras começam muito antes disso.

Ela ainda não sabia o nome do inimigo.

Ainda não conhecia o rosto.

Mas sentia, com uma certeza desconfortável, que aquela ameaça vinha de um lugar antigo demais para ser coincidência.

E quando finalmente descobrisse quem estava por trás daquela rede, o jogo deixaria de ser apenas corporativo.

Seria ajuste de contas.

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