Mundo ficciónIniciar sesiónA sala de jantar estava iluminada por luzes suaves, refletidas na longa mesa de madeira nobre. Velas delicadas criavam um clima intimista, quase solene, e o som distante do mar atravessava as janelas abertas da mansão. Melissa estava bem vestida, usando um elegante vestido tubinho preto, até a altura da canela, os cabelos bem penteados. Ela estava bem ao estilo Violet, apesar de Hudson não conseguir enxerga-la, achava importante está bem vestida para a ocasião. Sem falar que ela, pelo menos naquela noite, havia copiado um pouco do estilo da irmã, o que talvez lhe desse uma certa segurança ao se passar por ela.
Melissa sentou-se com o coração acelerado. Aquele era o primeiro jantar a sós com Hudson.
O primeiro momento em que precisaria sustentar a farsa sem o apoio da formalidade ou da distância. Ela observou enquanto Hudson tomava lugar à sua frente. Mesmo sem enxergar, ele se movia com uma desenvoltura impressionante. Seus gestos eram cuidadosos, seguros, como se cada objeto ao redor já estivesse perfeitamente mapeado em sua mente. Sentado a cabeceira da mesa comprida, usava os talheres com calma, guiado mais pelo tato e pela memória do que pela necessidade de ajuda. Melissa sentada bem próxima, a sua direita, observava.— Espero que esteja confortável — disse ele, com um sorriso leve. — Pedi que preparassem algo simples… mas especial.
— Está perfeito — respondeu Melissa, tentando manter a voz firme.
Ela o observava com atenção, fascinada e, ao mesmo tempo, tomada por um nervosismo que não conseguia esconder. Era impossível esquecer que estava ali ocupando um lugar que não era seu. Hudson ergueu a taça de vinho com cuidado. No gesto seguinte, porém, a borda da taça inclinou-se mais do que o necessário, e algumas gotas do vinho escuro escorreram, manchando discretamente a toalha branca. Melissa se levantou num impulso.
— Que diabos! Mas, não se preocupe — disse ele, rapidamente, percebendo o movimento dela. — Foi só um descuido.
— Eu… posso chamar alguém para limpar — sugeriu ela.
— Não é necessário, sei me virar sozinho e para isso possuo empregados. — respondeu Hudson, com um tom de voz mal humorado diante do acontecido.
Melissa sentiu um aperto no peito. Aquele pequeno incidente a lembrava de tudo o que ele perdera… e de como era importante ter alguém que ele amasse e confiasse ao seu lado.
— Claro... eu só quis ajudar. — Ela falou sem graça enquanto desdobrava o guardanapo e colocava no colo.
Durante o jantar, conversaram sobre a viagem dela, sobre a ilha, sobre pequenas lembranças do passado que Melissa precisava contornar com cuidado. Cada resposta era medida. Cada palavra, pensada. Ainda assim, Hudson parecia à vontade. Mais do que isso… atento.
— Você está diferente — comentou ele, em certo momento e Melissa sentiu o sangue gelar.
— Diferente? — repetiu, tentando soar casual.
— Mais silenciosa — explicou ele. — Mas… de um jeito bom. Possui um tom romântico quando se expressa. Algo que não me recordava em você
Ela forçou um sorriso. Mas, ao mesmo tempo ficou preocupada. Pois a sua irmã nunca foi romântica e para ela seria difícil se policiar nesse aspecto.
— Talvez seja o lugar — disse. — A ilha inspira silêncio e romantismo.
Ao final do jantar, Hudson levantou-se e estendeu a mão na direção dela.
— Venha — disse. — Quero lhe mostrar outra sala. Nas poucas vezes que estivemos juntos aqui, chegamos a passar um tempo ali à noite. Após o jantar. Lembra?
— Claro... querido, como eu poderia esquecer?
Melissa hesitou apenas um segundo antes de aceitar. A sala era mais acolhedora, com sofás baixos e uma vitrola antiga. Hudson serviu mais uma taça de vinho para cada um, com ainda mais cuidado desta vez. A música começou lenta, envolvente, preenchendo o ambiente com notas suaves. Melissa começou a disfarçar, fingir que bebia. Afinal, Violet bebia socialmente, mas ela era fraca para bebida, devido ao pouco hábito. Então, ao ligar a vitrola, Hudson aproximou-se e estendeu a mão na direção do sofá, onde sabia que ela havia escolhido sentar a poucos minutos.
— Dança comigo?
Melissa assentiu, mesmo sentindo o coração disparar. Ele a envolveu com delicadeza, uma mão firme em sua cintura, a outra segurando a dela. Os corpos ficaram próximos demais para que ela se sentisse confortável… e próximos o suficiente para que Hudson sentisse algo despertar. A dança era lenta. Íntima. Silenciosa. Melissa sentia a respiração dele mudar, a masculinidade se manifestando por baixo da calça esporte. O toque tornar-se mais presente. Mais consciente. Hudson a apertou bem próxima ao seu corpo, inclinou o rosto ainda protegido pelos óculos escuros, como se quisesse memorizar aquele instante, mas não através da sua visão inexistente, mas através dos seus outros sentidos que a cada dia se tornavam mais aguçados.
— Acho melhor subirmos para o nosso quarto — disse ele, em voz baixa bem próxima ao seu ouvido — Já está tarde. — Ela sentiu a sua respiração quente em seu pescoço delicado. O pânico tomou conta dela ao ouvir a expressão “nosso quarto”.
— Hudson… — começou, afastando-se com cuidado. — Eu… preferia dormir sozinha esta noite. No quarto onde inicialmente a minha mala foi colocada e que usei para descansar esta tarde...
O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado. Constrangedor para a jovem e decepcionante para o seu noivo e futuro marido, cheio de desejo. Desejo este que pelo visto Violet não lhe negava a satisfação no passado.
— Sozinha? — repetiu ele, sem acusação, apenas surpresa.
— É só… — ela respirou fundo — nervosismo. A viagem. Tudo é novo outra vez.
Hudson permaneceu imóvel por alguns segundos ao ouvir aquilo. Mas, tentou disfarçar e compreender. Afinal, não queria a compaixão de ninguém e nem nada que não fosse por espontânea vontade. Mesmo com sua limitação visual, era um homem por inteiro e não queria ninguém pela metade.
— Claro — disse, por fim, com um tom sereno que não escondia completamente a decepção. — Não há pressa. A Violet do passado, não agiria dessa forma, mas parece que todos nós aqui estávamos passando por adaptações não é mesmo? — Ele conclui num tom que beirava o sarcarmos.
Ele deu um passo atrás. Afastou-se um pouco dela, mas tateando pegou a sua mão, a levou até seus lábios e a beijou para em seguida dizer-lhe.
— O quarto de hóspedes no qual você foi instalada provisoriamente continuará a sua disposição — Fez uma pausa. — Já faz algum tempo que… não temos intimidade. Entendo que precise do seu tempo.
Melissa sentiu um misto de alívio, culpa e medo. Pois se sua irmã e o noivo já eram tão íntimos por quanto tempo ela conseguiria manter aquela farsa? E após o casamento e noite de núpcias? Como conseguiria disfarçar?
— Obrigada por compreender — baixou a cabeça e murmurou.
Enquanto ele chamava um funcionário para acompanhá-la, Melissa respirou fundo. Ela estava segura… por aquela noite. Mas uma certeza se instalou em seu coração: Hudson falava com naturalidade demais sobre intimidade. Aquela relação, antes do acidente, não fora distante nem contida como ela desconfiava. O noivado da irmã fora moderno. Próximo.
Íntimo. E isso tornava sua farsa ainda mais perigosa. Minutos depois, já sozinha no luxuoso quarto de hóspedes, Melissa sentou-se na beira da cama, levando a mão ao peito.— No que foi que eu me meti… — sussurrou.
Do outro lado da mansão, Hudson permaneceu por alguns minutos na sala vazia, ouvindo a música terminar. Algo naquela noite lhe parecera diferente.
Não errado… mas diferente. Assim, sem perceber, ambos foram dormir com o coração inquieto. Cada um carregando segredos e incertezas que, cedo ou tarde, cobrariam seu preço.






