Capítulo 07 - Entre o Desejo e o Medo

   

Melissa passou a noite praticamente em claro. Deitada na cama ampla do quarto de hóspedes, escutava o som constante do mar, o vento batendo suavemente nas janelas e o silêncio profundo da mansão adormecida. Cada ruído parecia lembrá-la de onde estava… e de quem fingia ser. O nome da irmã pesava como uma sombra permanente sobre seus pensamentos.

        A cena da noite anterior voltava à sua mente com insistência: o jantar, a dança lenta, o pedido direto de Hudson e o modo como ele aceitara sua recusa, sem discutir, sem pressionar… mas também sem esconder completamente a decepção.

      “Ele esperava mais e isso ficou bem claro...” — Ela  pensou.

      Quando o céu começou a clarear, Melissa levantou-se devagar. Tomou um banho demorado, como se a água pudesse lavar a culpa que lhe escorria pela alma. Vestiu-se com cuidado, escolhendo roupas claras, simples, discretas. Não queria chamar atenção. Não queria errar. Antes de sair do quarto, aproximou-se da janela… e então parou.

      — Nossa… — murmurou, surpresa. — Pelo visto ele acorda cedo.

      Hudson estava na piscina. O sol da manhã refletia na água azul cristalina enquanto ele nadava com movimentos firmes, precisos, quase duros. Cada braçada revelava força, disciplina, controle. Não havia fragilidade alguma naquele corpo. Ao lado da piscina, um homem o acompanhava de perto, orientando-o com comandos breves.

      — Mais à direita… agora volte… excelente.

      Melissa sentiu o coração acelerar. Era impossível não observá-lo. A água escorrendo pelos ombros largos, os músculos definidos, o rosto sério, concentrado. A imagem contrastava com tudo o que ela imaginara sobre um homem cego. Hudson não parecia alguém que aceitara limites, parecia alguém que os desafiava diariamente.

      Quando ele se apoiou na borda da piscina, respirando fundo, Melissa sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ver aqueles braços  musculosos em evidencia, assim como o seu peitoral desenvolvido pela pratica tênis e natação. Ela sentiu um calor e afastou-se da janela.

    “Para uma senhorita inexperiente, você está muito animadinha, dona Melissa.”

     Alguns minutos depois, caminhou em direção à área externa. O sol já aquecia o ambiente, e o cheiro de cloro misturado à brisa do mar tornava o ar quase entorpecente. Parou a alguns passos de distância. Hudson ainda estava na piscina. Usava agora nãos mais os óculos de natação, mas  seus  costumeiros óculos escuros modelo aviador, o que lhe conferia um ar ainda mais imponente.

      — Há mais alguém aqui — disse ele, com naturalidade e o treinador sorriu.

     — Sim, senhor Theodore. Sua noiva acabou de chegar e está de pé bem em frente a sua direção.

     — Bom dia, Violet. É um prazer ter a sua companhia neste horário. Não a chamei porque nunca gostou de acordar cedo. — disse, simplesmente.

     — Bom dia, querido. — O comentário dele a pegou de surpresa, mas ela respondeu, suavizando a voz, como Violet costumava fazer. — Realmente, mas o clima nesta ilha parece ter o poder de mudar as pessoas e incentivar bons hábitos.

      Ele saiu da piscina com movimentos seguros. Um funcionário se aproximou, colocando-lhe um roupão branco sobre os ombros. Hudson ajustou a faixa na cintura com calma, antes de caminhar até ela com um dos braços estendidos por cautela. Assim, ele tocou uma pequena mesa redonda que tinha a sua direita e seguiu em frente.

     — Dormiu bem? — perguntou num tom de voz prático e Melissa se perguntou se ele havia ficado chateado pela recusa dela na noite passada.

     — Dormi, sim — mentiu.

    Hudson pareceu captar algo no silêncio dela.

    — Reconheço seus passos — comentou. — mas, percebo que estão mais cautelosos.

      O comentário a fez prender a respiração.

      — Talvez eu esteja… me adaptando ao clima sem pressa desta pequeno paraiso. — respondeu.

    Hudson parou a poucos centímetros dela. Não a tocou de imediato. Havia nele também uma certa cautela, como se medisse cada gesto. Talvez fruto da rejeição da noite passada. Pois foi assim como ele interpretou.

      — Posso? — perguntou, erguendo a mão.

     Melissa assentiu, embora ele não pudesse ver. O toque veio lento. Deliberado. Os dedos dele deslizaram por seu rosto com atenção quase analítica, como se quisesse memorizar cada detalhe. Não havia romantismo exagerado — havia necessidade de controle.

     — Você está diferente  também em outros aspectos— murmurou.

     — Diferente? — repetiu ela, com o coração disparado.

     — Mais calma — explicou. — Menos… inquieta.

     Ela engoliu em seco.

      — Acho que é impressão sua, ou talvez nem eu mesma esteja percebendo as minhas pequenas mudanças desde que  coloquei os pés aqui.

      Hudson franziu levemente a testa, mas não insistiu. Seus dedos deslizaram até os cabelos dela.

      —  Ontem percebi que estão mais longos.

      — Um pouco.

      — Hum… — murmurou. —  deve lhe conferir um ar romântico.

      Ele segurou suas mãos, entrelaçando os dedos com firmeza. Ela não conseguia olhar nos olhos dele, mesmo sabendo que ele não podia vê-la.

      — Sua voz também mudou — comentou. — Parece mais… baixa.

      — Estou tentando ser… mais cuidadosa. —        Melissa sentiu os olhos marejarem.

     Hudson ficou em silêncio por alguns segundos.

     — Talvez isso não seja ruim. — disse, por fim.

     Houve uma pausa carregada entre eles. A proximidade era intensa, mesmo sem palavras doces.

     — Senti sua ausência — declarou ele, de repente. —Mais do que gostaria de admitir.

      O coração de Melissa apertou em pensar nele sozinho ali naquela ilha e Violet se negando a ir visita-lo, o quanto que ela insistiu para que a irmã como noiva fizesse isso. Mas ela em seu egoísmo não cogitou atende-la.

     — Eu… não pretendia me afastar.

     — Espero que não volte a fazê-lo — respondeu ele, sem dureza, mas com firmeza.

      Hudson então se afastou um pouco e fez um gesto vago à frente.

     — Há uma mesa nesta direção. — Hudson fez sinal para a direita. — Costumo tomar o café da manhã fora. Se quiser pode me acompanhar…

      — Claro — respondeu ela, rapidamente.

      Sentaram-se frente a frente. Hudson falava sobre a rotina, sobre os horários, sobre o que esperava dos dias seguintes, sobre pequenas intimidades do passado dos dois. Melissa o ouvia em silêncio, absorvendo cada palavra, cada gesto.  Ali sentados lado a lado, naquela mesinha redonda  ao lado da enorme piscina e protegidos por um guarda-sol a proximidade dele a perturbava.  A sua coxa grossa  não protegida pelo tamanho do short em tecido leve, estava a poucos centímetros da coxa dele ainda de sunga, parcialmente revelada pelo roupão entreaberto. Ela não sabia descrever em qual momento da conversa aconteceu, mas foi pega pela sua mão forte lhe fazendo carinho em sua coxa, enquanto que com o outro braço Hudson fazia carinho em sua nuca, a fazendo virar o pescoço em sua direção. Então, ele desceu um pouco sua mão e segurou seu pescoço, a trazendo em direção a sua boca e aconteceu.

       O beijo foi intenso, caliente, a língua dele explorava a maciez da sua boca com habilidade e delicadeza, enquanto sua outra mão explorava partes intimas do seu corpo a deixando sem fôlego e com uma moleza gostosa que vinha de dentro como uma fogueira a consumindo.  Aquele não era seu primeiro beijo, pois já havia trocado beijos inocentes em sua época de adolescente no colegial, mas aquele era o seu primeiro beijo intenso, apaixonado e no homem que ela amava: Hudson. Porém, mesmo gostando, achou que era perigoso demais se abandonar e deixar as coisas acontecerem. Assim ela aos poucos foi se desvencilhando e contendo a paixão dele.

     — O que houve? Você sempre adorou esse tipo de beijos, esse tipo de carinho... — ele perguntou intrigado e com uma pitada mágoa na voz.

     — Ah... meu bem... não foi nada. É que está quente hoje. Acho que a temperatura subiu muito para o horário e nós contribuímos com isso. — Tentou encaixar um pouco de bom humor para disfarçar.

    — Pois  gosto do calor, sou um homem quente e se dependesse de mim você seria minha aqui e agora. — Hudson respondeu com um tom firme.

   — Entendo... mas não acho conveniente, pelo menos não hoje e neste local... — Ela respondeu sem graça e temendo a comparação com a verdadeira Violet.

    — Será quando você desejar, talvez eu precise ser apresentado a esta nova Violet e também me adaptar. Contudo, daqui a quinze dias nosso casamento se realizará e até lá teremos tempo para isso...

    “Quinze dias? Meu Deus... não esperava que já era algo para tão próximo...”

Karina Bezerra

Queridas leitoras, espero que esteja gostando dessa história no estilo dos antigos romances de banca Sabrinas, Biancas, Julias e que fez parte da adolescência desta autora( as vezes ainda fazem).

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