Capítulo 05 - A Substituta

     Melissa nunca se esqueceu do instante em que colocou os pés fora de casa naquela manhã ensolarada.O céu estava claro demais. Calmo demais. Como se o mundo ignorasse completamente a tempestade que se formava dentro dela. Despediu-se dos avós com um beijo e um abraço apertado. Eles eram seu porto seguro e talvez fossem também a última lembrança de normalidade antes de tudo mudar.

      — Por favor, não me olhe assim, vovó… e não conte nada para o vovô ou para a Violet — pediu, num sussurro, ao beijar a testa da avó. — Lembre-se de que é um segredo apenas nosso.

       A avó suspirou, aflita. Mal podia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo e que ela estava compactuando com tudo aquilo. Ainda bem que Violet já havia viajado para  passar um tempo fora.

       — Minha filha… além de não ser algo correto, temo que você esteja se sacrificando por nós. Isso não é justo.

Melissa balançou a cabeça, com doçura.

      — Não é um sacrifício para mim… — confessou, com os olhos baixos. — Sempre o amei em silêncio.

       A avó levou a mão ao peito, surpresa.

      — Melissa… eu mal posso acreditar…

      — Não se preocupe comigo — insistiu ela. — Estarei bem. Quanto a vocês, ficarei tranquila sabendo que estão seguros.

      Então assim, Melissa partiu. Levava apenas uma mala … e um peso enorme no coração. Durante a viagem até a ilha, mal conseguiu pensar em outra coisa que não fosse a como seria a sua chegada a ilha. Sabia que estava sendo aguardada, mas lembrava-se constantemente da mentira que estava prestes a viver. Quando olhava para a própria mão e via o anel de noivado brilhar, sentia o estômago se revirar.

“Estou fazendo isso por amor.

Por ele, por eles… e por mim.”

       Mas a culpa vinha logo depois, silenciosa e insistente. A lancha cortava as águas tranquilas quando a mansão surgiu ao longe, branca, imponente, quase ofuscante sob o sol. Bonita. Elegante. E profundamente solitária. Um funcionário uniformizado aguardava no píer.

      — Senhorita Carters? — perguntou, respeitosamente.

O coração de Melissa acelerou, mas ela manteve a voz firme.

       — Sim. Sou eu.

      Vestia um vestido leve, branco, até os tornozelos, chapéu de verão sobre os cabelos loiros soltos. Tentava parecer segura. Tentava parecer Violet.

       — Sou Manfred, secretário pessoal do senhor Theodore — apresentou-se. — Ele a aguarda.

       Houve uma breve pausa, e então ele acrescentou, com discrição e um tom mais pessoal:

     — O senhor Hudson… tem seus dias difíceis. É um homem exigente. Espero que compreenda.

      Melissa apenas assentiu.

      O trajeto até até o interior da  mansão foi feito em silêncio. Os corredores amplos, o mármore frio sob seus pés, o eco dos passos.  Tudo reforçava a sensação de que ela estava entrando num território que não lhe pertencia.

      — O senhor Theodore está no salão principal — informou o mordomo antes de se afastar.

       A jovem respirou fundo diante da porta e pensou: É agora.

       Então, oo entrar, encontrou Hudson de pé, próximo à janela aberta. Vestia roupas escuras, camisa polo e calças esporte simples, óculos escuros  estilo Ray-ban ocultando o olhar que ela tanto conhecia. Estava mais magro, mais sério. A postura impecável, o corpo ainda forte, mas algo nele parecia endurecido.

      — Violet? — chamou, ao perceber a presença dela.

      — Sou eu — respondeu, com cuidado.

      — Você veio — Hudson virou-se lentamente.

      Não havia euforia em sua voz. Havia alívio. Contido. Controlado. Ele caminhou alguns passos à frente, com segurança, evitou tatear nos móveis,  até parar diante dela como se fosse guiado por alguma espécie de sensor de calor.

       — Estou muito feliz que esteja aqui e que tenha vindo tão rápido atender ao meu chamado. — Hudson falou de forma prática.

      — Claro. Sou sua noiva — respondeu. —  Então, quando recebi seu chamado achei que melhor vir rápido.

       Hudson assentiu, como se aprovasse aquela resposta. Afina, fazia poucos dias que havia enviando um telegrama pedindo a presença da sua noiva na ilha.

       — Fez bem — disse apenas.

       Tomou a mão dela por um instante, breve demais para ser íntimo. Um gesto firme, quase protocolar. Ainda assim, o toque fez o coração de Melissa disparar.

      — Eu entendo — respondeu ela, imediatamente.

      — Não preciso de pena, mas você como minha noiva, deve compreender que preciso de mais parceria — completou Hudson, num tom calmo, porém definitivo.

      — Não estou aqui por pena. — Melissa engoliu em seco

       Houve um silêncio. Hudson pareceu analisá-la por alguns segundos, como se buscasse algo além das palavras.

      — Espero que seja verdade — disse, por fim. — Porque não toleraria descobrir o contrário. Ah! Por favor ainda hoje entregue seus documentos ao meu secretario, ele cuidará do nosso casamento.

    — Casamento? — Melissa falou surpresa. Aquilo a pegou como um soco no estomago.

    — Claro! Afinal já somos noivos a algum tempo por que a surpresa? Não casaria com um cego?

   — Não, não quis dizer isso... é que na pressa acabei esquecendo eles.

  — Entendo... mas não se preocupe. Nada que dinheiro e prestigio não resolva. Manfred irá providenciar os trâmites.

        Melissa pega de surpresa ficou gelada. Sabia que tinha vindo até ali ficar com o seu noivo,  mas não que  haveria um casamento em breve. Isso a deixou desnorteada, mas tentou disfarçar. Outra coisa a chamou atenção: Se ela era Violet, sua noiva, então onde estava o Hudson do  passado? Pois com aquele novo Hudson não houve nada de abraços,  beijos ou promessas românticas. Melissa o amava, mas parecia que ali havia um novo Hudson ou era o embaraço inicial da sua chegada devido ao tempo afastados.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App