Capítulo 05 - A Substituta

   

    

      Melissa nunca se esqueceu do instante em que colocou os pés fora de casa naquela manhã ensolarada. O céu estava claro demais. A natureza ignorava completamente a tempestade que se formava dentro dela. Despediu-se dos avós com um beijo e um abraço apertado. Eles eram seu porto seguro e talvez fossem também a última lembrança de normalidade antes de tudo mudar.

      — Por favor, não me olhe assim, vovó… e não conte nada para o vovô ou para a Violet — pediu, num sussurro, ao beijar a testa da avó. — Lembre-se de que é um segredo apenas nosso. Eu fui fazer um curso fora por uns três meses....

       A avó suspirou, aflita. Mal podia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo e que ela estava compactuando com tudo aquilo. Ainda bem que Violet já havia viajado.

       — Minha filha… além de não ser algo correto, temo que você esteja se sacrificando por nós. Isso não é justo.

Melissa balançou a cabeça, com doçura.

      — Não é um sacrifício para mim… — confessou, com os olhos baixos. — Sempre o amei em silêncio...

       A avó arregalou os olhos por baixo das lentes,  levou a mão ao peito, surpresa. Não podia acreditar no que estava ouvindo e como aquilo esteve ali bem debaixo do seu nariz sem perceber.

      — Melissa… eu mal posso acreditar… como você conseguiu esconder isso? Como não percebi isso...

      — Não se preocupe comigo — insistiu ela. — Estarei bem. Quanto a vocês, ficarei tranquila sabendo que estão seguros.

      Então assim, Melissa partiu. Levava apenas uma mala grande… e um peso enorme no coração. Durante a viagem até a ilha, mal conseguiu pensar em outra coisa que não fosse em como seria a sua chegada. Sabia que estava sendo aguardada, mas lembrava-se constantemente da mentira que estava prestes a viver. Quando olhava para a própria mão e via o anel de noivado brilhar em sua mão direita, sentia um frio na barriga. Ainda lembrava do dia em que foi ao joalheiro fazer um pequeno ajuste e o homem visivelmente ficou curioso com aquela joia, apenas de não ter feito comentários. Ela discretamente levou o anel até os lábios e beijou o diamante incrustado nele.

“Estou fazendo isso por amor.

Por ele, por eles… e por mim.”

       Mas a culpa vinha logo depois, silenciosa e insistente. A lancha cortava as águas tranquilas quando a mansão surgiu ao longe, branca, imponente, quase ofuscante sob o sol: bonita, elegante e profundamente solitária. Um funcionário uniformizado a aguardava no píer.

      — Senhorita Carters? — perguntou, respeitosamente.

       O coração de Melissa acelerou, mas ela manteve a voz firme e tentou se acalmar. Afinal ela também era a senhorita Carters, mas não a que ele estava esperando...

       — Sim. Sou eu.

      Vestia um vestido leve no estilo praia, na cor branca,  na altura dos tornozelos, chapéu de verão sobre a cabeça e os cabelos loiros que a brisa marítima insistia em brincar com os cachos. Tentava parecer segura. Tentava parecer Violet.

       — Seja bem-vinda, senhorita! Sou Manfred, secretário pessoal do senhor Theodore — apresentou-se. — Ele a aguarda.

     — É um prazer está aqui e obrigada por está a minha espera. — Melissa falou simpática, tentando disfarçar o nervosismo.

       Houve uma breve pausa, e então ele acrescentou, com discrição e um tom mais pessoal:

     — O senhor Hudson… tem seus dias difíceis. É um homem exigente. Espero que compreenda.

      Melissa apenas assentiu. O senhor Manfred pegou suas malas e fez sinal para que ela entrasse numa espécie de carrinho usado em campos de golfe e assumiu o volante. Pois dali já dava para ver a imponente mansão em mármore branco, erguida num terreno mais elevado e cercada por um belo jardim, com um gramado verde bem cuidado, palmeiras e flores da estação. Contudo, caminhar até lá era desnecessário e até um pouco desconfortável carregando uma mala pesada.

       Melissa tentou disfarçar a surpresa, pois Violet já havia estado ali, mas ela não. Então, mesmo que os empregados não fossem mais os mesmos não era bom externar a sua admiração pelo lugar como se o estivesse vendo pela primeira vez. A Mansão em mármore branco lembrava um pouco o famoso Taj Mahal. Além disso em sua volta havia um belo jardim, uma grande piscina e duas palmeiras uma de cada lado da entrada principal. O trajeto até o interior da mansão foi feito em silêncio e ela agradeceu mentalmente por isso, pois havia o medo de entrar em contradição. Os corredores amplos, o mármore frio sob seus pés, o eco dos passos.  Tudo reforçava a sensação de que ela estava entrando num território que não lhe pertencia.

      — O senhor Theodore a aguarda no salão principal. Não se preocupe com sua mala, perguntarei a governanta em qual quarto devo coloca-la. —  Manfred informou antes de deixa-la sozinha e indicar a direção correta.

        “Agora é comigo. Chegou a hora...”

       Então, ao entrar no ambiente bem decorado, paredes brancas, moveis em tons claros, encontrou Hudson de pé, próximo à janela aberta. Vestia camisa polo e calças esporte numa tonalidade escura, óculos escuro estilo Ray-ban ocultando o olhar que ela tanto conhecia. Estava mais magro, mais sério. A postura impecável, o corpo ainda forte, mas algo nele parecia endurecido.

      — Violet? — chamou, ao perceber a presença de alguém no ambiente.

      — Sou eu — respondeu, com cuidado.

      — Você veio — Hudson virou-se lentamente.

      Não havia euforia em sua voz. Estava contido. Controlado. Ele caminhou alguns passos à frente, com segurança, evitou tatear nos móveis, até parar diante dela como se fosse guiado por alguma espécie de sensor de calor.

       — Estou muito feliz que esteja aqui e que tenha vindo tão rápido atender ao meu chamado. — Hudson falou de forma prática, enquanto tateando segurou o rosto da jovem com as duas mãos, procurou o contorno dos lábios com os dedos e lhe deu um beijo rápido, apenas tocando os lábios de leve com a sua boca. Aquele beijo simples, quase casto, fez o coração de Melissa disparar. Afinal nunca tinha sentido os lábios dele tocarem os seus.

      — Claro, querido. Sou sua noiva — respondeu assim que ele afastou os lábios. —  Então, quando recebi seu chamado achei que melhor vir rápido.

       Hudson assentiu, como se aprovasse aquela resposta. Afina, fazia poucos dias que havia enviando um telegrama pedindo a presença da sua noiva na ilha.

       — Fez bem — disse apenas.

      — Que bom que pensa assim. — respondeu ela, imediatamente.

      — Sim, ultimamente tento ser prático e direto. Saiba que não preciso de pena, mas você como minha noiva, deve compreender que preciso de mais parceria, de uma parceira por completo.  — Hudson, falou num tom calmo, porém definitivo.

      — Não estou aqui por pena. — Melissa engoliu em seco. — Estou aqui por que eu te amo e o meu lugar é ao seu lado. O seu telegrama fez reacender isso dentro de mim.

       Houve um silêncio. Hudson pareceu analisá-la por alguns segundos, como se buscasse algo além das palavras.

      — Espero que  isso ainda seja verdade — disse, por fim. — Porque não toleraria descobrir o contrário. Ah! Por favor ainda hoje entregue seus documentos pessoais ao meu secretário,  você já o conheceu  quando chegou aqui, ele cuidará o mais rápido possível do nosso casamento.

    — Casamento? — Melissa falou surpresa. Aquilo a pegou como um soco no estomago.

    — Claro! Afinal já somos noivos há alguns meses e você acabou de falar que o seu lugar é ao meu lado. Esperava algo diferente disso? Ou não casaria com um cego?

    — Não, meu bem. Claro que não. Só achei que... os preparativos haviam sido congelados. — A jovem falou tentando demonstrar calma, mas por dentro um verdadeiro furacão agitava seu interior.

       — Não, não foram congelados e essa foi a principal razão para  chamá-la aqui. Se acha que veio aqui ser uma espécie de enfermeira ou cuidadora, saiba que já possuo os profissionais que preciso. Agora quero ao meu lado a minha mulher. Até porque esse papel nunca combinou com você.

    — Não, não quis dizer isso... mas quero que saiba que  na pressa acabei esquecendo os  meus documentos pessoais — Melissa achou a fala dele um tanto possessiva, contrastando um pouco com o Hudson que conhecia do passado.

   — Entendo... mas não se preocupe. Nada que dinheiro e prestigio não resolva. Manfred irá providenciar os trâmites assim mesmo. Não precisa perturbar seus avós idosos ou sua irmã pelo envio dos mesmos.

        Melissa pega de surpresa ficou gelada. Sabia que tinha vindo até ali ficar com o seu noivo,  mas não que  haveria um casamento em breve. Isso a deixou desnorteada, mas tentou disfarçar. Outra coisa a chamou atenção: Se ela era Violet, sua noiva, então onde estava o Hudson do passado? Pois aquele não parecia o Hudson caloroso e gentil de antes. Parecia ter se tornando alguém  um pouco frio, prático.

  

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