Mundo de ficçãoIniciar sessãoMelissa nunca se esqueceu do instante em que colocou os pés fora de casa naquela manhã ensolarada.O céu estava claro demais. Calmo demais. Como se o mundo ignorasse completamente a tempestade que se formava dentro dela. Despediu-se dos avós com um beijo e um abraço apertado. Eles eram seu porto seguro e talvez fossem também a última lembrança de normalidade antes de tudo mudar.
— Por favor, não me olhe assim, vovó… e não conte nada para o vovô ou para a Violet — pediu, num sussurro, ao beijar a testa da avó. — Lembre-se de que é um segredo apenas nosso.
A avó suspirou, aflita. Mal podia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo e que ela estava compactuando com tudo aquilo. Ainda bem que Violet já havia viajado para passar um tempo fora.
— Minha filha… além de não ser algo correto, temo que você esteja se sacrificando por nós. Isso não é justo.
Melissa balançou a cabeça, com doçura.
— Não é um sacrifício para mim… — confessou, com os olhos baixos. — Sempre o amei em silêncio.
A avó levou a mão ao peito, surpresa.
— Melissa… eu mal posso acreditar…
— Não se preocupe comigo — insistiu ela. — Estarei bem. Quanto a vocês, ficarei tranquila sabendo que estão seguros.
Então assim, Melissa partiu. Levava apenas uma mala … e um peso enorme no coração. Durante a viagem até a ilha, mal conseguiu pensar em outra coisa que não fosse a como seria a sua chegada a ilha. Sabia que estava sendo aguardada, mas lembrava-se constantemente da mentira que estava prestes a viver. Quando olhava para a própria mão e via o anel de noivado brilhar, sentia o estômago se revirar.
“Estou fazendo isso por amor.
Por ele, por eles… e por mim.”Mas a culpa vinha logo depois, silenciosa e insistente. A lancha cortava as águas tranquilas quando a mansão surgiu ao longe, branca, imponente, quase ofuscante sob o sol. Bonita. Elegante. E profundamente solitária. Um funcionário uniformizado aguardava no píer.
— Senhorita Carters? — perguntou, respeitosamente.
O coração de Melissa acelerou, mas ela manteve a voz firme.
— Sim. Sou eu.
Vestia um vestido leve, branco, até os tornozelos, chapéu de verão sobre os cabelos loiros soltos. Tentava parecer segura. Tentava parecer Violet.
— Sou Manfred, secretário pessoal do senhor Theodore — apresentou-se. — Ele a aguarda.
Houve uma breve pausa, e então ele acrescentou, com discrição e um tom mais pessoal:
— O senhor Hudson… tem seus dias difíceis. É um homem exigente. Espero que compreenda.
Melissa apenas assentiu.
O trajeto até até o interior da mansão foi feito em silêncio. Os corredores amplos, o mármore frio sob seus pés, o eco dos passos. Tudo reforçava a sensação de que ela estava entrando num território que não lhe pertencia.
— O senhor Theodore está no salão principal — informou o mordomo antes de se afastar.
A jovem respirou fundo diante da porta e pensou: É agora.
Então, oo entrar, encontrou Hudson de pé, próximo à janela aberta. Vestia roupas escuras, camisa polo e calças esporte simples, óculos escuros estilo Ray-ban ocultando o olhar que ela tanto conhecia. Estava mais magro, mais sério. A postura impecável, o corpo ainda forte, mas algo nele parecia endurecido.
— Violet? — chamou, ao perceber a presença dela.
— Sou eu — respondeu, com cuidado.
— Você veio — Hudson virou-se lentamente.
Não havia euforia em sua voz. Havia alívio. Contido. Controlado. Ele caminhou alguns passos à frente, com segurança, evitou tatear nos móveis, até parar diante dela como se fosse guiado por alguma espécie de sensor de calor.
— Estou muito feliz que esteja aqui e que tenha vindo tão rápido atender ao meu chamado. — Hudson falou de forma prática.
— Claro. Sou sua noiva — respondeu. — Então, quando recebi seu chamado achei que melhor vir rápido.
Hudson assentiu, como se aprovasse aquela resposta. Afina, fazia poucos dias que havia enviando um telegrama pedindo a presença da sua noiva na ilha.
— Fez bem — disse apenas.
Tomou a mão dela por um instante, breve demais para ser íntimo. Um gesto firme, quase protocolar. Ainda assim, o toque fez o coração de Melissa disparar.
— Eu entendo — respondeu ela, imediatamente.
— Não preciso de pena, mas você como minha noiva, deve compreender que preciso de mais parceria — completou Hudson, num tom calmo, porém definitivo.
— Não estou aqui por pena. — Melissa engoliu em seco
Houve um silêncio. Hudson pareceu analisá-la por alguns segundos, como se buscasse algo além das palavras.
— Espero que seja verdade — disse, por fim. — Porque não toleraria descobrir o contrário. Ah! Por favor ainda hoje entregue seus documentos ao meu secretario, ele cuidará do nosso casamento.
— Casamento? — Melissa falou surpresa. Aquilo a pegou como um soco no estomago.
— Claro! Afinal já somos noivos a algum tempo por que a surpresa? Não casaria com um cego?
— Não, não quis dizer isso... é que na pressa acabei esquecendo eles.
— Entendo... mas não se preocupe. Nada que dinheiro e prestigio não resolva. Manfred irá providenciar os trâmites.
Melissa pega de surpresa ficou gelada. Sabia que tinha vindo até ali ficar com o seu noivo, mas não que haveria um casamento em breve. Isso a deixou desnorteada, mas tentou disfarçar. Outra coisa a chamou atenção: Se ela era Violet, sua noiva, então onde estava o Hudson do passado? Pois com aquele novo Hudson não houve nada de abraços, beijos ou promessas românticas. Melissa o amava, mas parecia que ali havia um novo Hudson ou era o embaraço inicial da sua chegada devido ao tempo afastados.







