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— Melissa, querida, poderia me fazer um favor? — Enquanto ajeitava uma mecha de cabelo que havia soltado do seu penteado estilo executiva, sua irmã lhe falou da forma que ela sempre falava quando queria manipular ou conseguir algo de alguém.
— Claro! Do que se trata?
— Estou atrasada para uma reunião com uma cliente importante, apenas passei aqui para pegar uma pasta que havia esquecido no almoço de domingo. Então, poderia passar nos Correios e enviar este envelope para Hudson?
— Sim, mas... — Melissa estranhou, eles nunca se falavam por carta — Claro! Farei sim, ainda agora a tarde. — a jovem resolveu não questionar, mas sentia que havia algo estranho.
Violet se despediu e deixou a sala. Melissa, deu um tempo, olhou pela janela e viu o carro da sua irmã deixando a frente da casa. Então, sem saber exatamente por quê, subiu para o seu quarto, trancou a porta, sentou-se devagar na cama, abriu o envelope. De início estranhou o fato dele ser confeccionado em um material escuro, de uma textura mais grossa do que os envelopes comuns.
“ Sei que o que estou fazendo é horrível, mas o meu coração e a minha intuição me pede desesperadamente por isso...”
Então, mesmo com a consciência pesada, Melissa abriu devagar o envelope marrom e se surpreendeu com seu conteúdo. Pois, dentro estava o luxuoso anel de noivado, acompanhado de uma carta. Com as mãos trémulas a jovem segurou a carta e levou até a altura dos olhos, pois mal podia acreditar no que via. Então, as palavras saltaram aos seus olhos com uma frieza que a fez prender a respiração e revirar o estomago.
“Hudson,
Escrevo porque não consigo dizer isso pessoalmente. Preciso ser honesta comigo mesma e com você…”
Violet falava de cansaço. De frustração. De sonhos interrompidos. Dizia que não era a mulher certa para um homem limitado. Que desejava liberdade, viagens, uma vida intensa, a vida que eles possuíam antes e que não conseguia se imaginar presa àquela realidade.
“Lamento, mas o meu amor não sobreviveu à mudança dos planos. Agora eu mesma possuo novos planos, em breve farei uma longa viagem sozinha para alguns lugares do mundo que sempre quis vista-los. Preciso viver novas histórias e respirar novos ares.”
Melissa fechou os olhos por um instante. Aquela carta não era apenas um rompimento. Era um abandono. Mais abaixo, Violet informava que viajaria por tempo indeterminado e que esperava que Hudson compreendesse sua decisão. Não havia pedidos de desculpa verdadeiros. Não havia carinho. Apenas palavras frias e definitivas.
Quando terminou de ler, Melissa sentiu um nó apertado na garganta e uma angustia no peito. Não podia acreditar no que havia acabado de ler. Violet não podia estar fazendo aquilo. Ela não podia está sendo tão cruel com um homem que um dia ele esteve disposta a se casar.
— Meu Deus… — murmurou.
Os seus pensamentos foram interrompidos por uma leve batida na porta. Era a sua avó a chamando pra ajudar a colocar linha na sua agulha de costura. Porém, quando ela viu o semblante de Melissa, percebeu que havia algo errado.
— O que foi, minha filha? — perguntou a avó, alarmada.
Melissa levantou o olhar lentamente e encarou a avó, enquanto apertava o papel contra o peito.
— É… é uma carta da Violet para Hudson — respondeu, com a voz trêmula.— Na verdade ela me pediu para postar e acabei tomando a liberdade de...
Os olhos de dona Áurea, se estreitaram numa mistura de curiosidade e reprovação. Melissa hesitou, mas acabou entregando o papel. De certa forma até envergonhada pela ousadia. Mas, tamanha a gravidade do que parecia conter na carta, a sua avó se manteve calada diante do pequeno delito. À medida que liam, o rosto envelhecido se transformava. A avó levou a mão ao peito e sentou-se pesadamente na cadeira mais próxima.
— Ela… ela não pode fazer isso — murmurou a avó. — Hudson sempre foi tão generoso com ela e conosco. Além disso ela sempre se dizia ama-lo.
“O amava ou o dinheiro dele e a vida social que ele lhe proporcionava?” — Melissa pensou, mas não quis compartilhar com a avó.
O medo tomou conta da casa. Não apenas pelo rompimento, mas pelo que ele significava. Hudson sustentava parte das despesas médicas, ajudava com os remédios, com a casa. Sem ele, tudo se tornaria incerto.
Melissa sentiu o peso da responsabilidade esmagá-la.
— E agora? — perguntou o avô, com a voz cansada. — O que será de nós… e dele? Como a nossa neta pode ser tão fria e egoísta?
Melissa não respondeu. Segurava a carta com força demais. O papel amassou sob seus dedos. Hudson estava cego. Isolado. Sozinho numa ilha.
E acabara de ser abandonado pela mulher que prometera amá-lo. Naquela noite, Melissa não conseguiu dormir. Sentada na cama, releu a carta inúmeras vezes. Cada palavra parecia mais cruel do que a anterior. Violet não apenas rompera com Hudson… ela o deixara no momento em que ele mais precisava de alguém. E, pela primeira vez, Melissa permitiu-se pensar em algo que sempre negara a si mesma.“Se fosse eu… eu jamais o deixaria.”
O pensamento veio como um sussurro perigoso, um pensamento intrusivo. Ela caminhou até a janela e ficou ali, olhando o céu escuro. Pensou em Hudson sozinho naquela ilha, naquela mansão silenciosa. Pensou nas cartas que escrevera e nunca enviara. Pensou no amor que carregava em silêncio desde o primeiro dia que o conhecera. Então, a decisão começou a se formar. Não foi impulsiva. Foi dolorosa e definitiva. Melissa voltou a mesinha do seu quarto, dobrou cuidadosamente a carta e a colocou de volta no envelope junto com o anel. Sabia que, se Hudson a recebesse naquele momento, seria devastador para ele e para todos naquela casa. Ela respirou fundo. Talvez… apenas talvez… houvesse outra maneira. Uma maneira errada.
Arriscada. Mas capaz de protegê-lo da decepção, da rejeição e também aos avós da perda da assistência. O coração batia descompassado enquanto a ideia tomava forma.Então, poucos dias depois Violet viajou para a tal viagem e sem data para voltar. Contudo, o que surpreendeu ainda mais a jovem apaixonada e selou a sua decisão, foi o telegrama que chegou na manhã seguinte a partida de sua irmã.
“Desejo e preciso da minha noiva aqui comigo em definitivamente.”
Hudson Theodore”
— Meu Deus... ele ainda não sabe de nada! O que direi a ele? Mas já que eu o amor e fui quem interceptei a carta...Será que eu não poderia...
A jovem falou sozinha com olhos saltados e o telegrama apertado contra o peito, antes mesmo de mostra-lo a avó. Sabia que também não deveria tê-lo aberto, mas com a sua irmã viajando e diante da atual situação. Além disso, sua irmã não parecia está atualizando o noivo sobre pequenas mudanças em sua vida. A começar que aquele não era mais seu endereço, pois já a alguns meses possuía seu próprio apartamento.
“Mas... e se eu for em seu lugar? As nossas vozes e altura são parecidas, ele está isolado, não consegue enxergar e Violet comentou certa vez que os novos funcionários não a conheciam...Bastava apenas que vovó me apoiasse e Violet não soubesse, ao menos por enquanto. Sei que estaria errada, mas seria por uma boa causa...”
De início a jovem se envergonhou e chegou até corar com tal ideia. Mas, depois fechou os olhos, sentindo o peso daquela escolha, caso tomasse aquela decisão. Ela não estaria apenas mentindo para Hudson. Estava cruzando uma linha da qual talvez jamais conseguisse voltar. Mas, por amor, ela estava disposta a tudo...







