Capítulo 03 - A Ilha

       A ilha tornara-se o refúgio de Hudson… e também a sua prisão. Distante do continente, cercada por um mar calmo demais para um homem que travava batalhas internas constantes, a mansão imponente permanecia silenciosa a maior parte do tempo. Ali, Hudson Theodore passava os dias submetido a uma rotina rígida, quase inflexível, cercado por poucos funcionários de absoluta confiança. Nada era deixado ao acaso. Os horários das refeições eram exatos. As reuniões por telefone com seus sócios aconteciam sempre nos mesmos horários. As caminhadas pelo jardim seguiam trajetos previamente definidos.

          Hudson não aceitava improvisos. Desde o acidente, adaptara-se à cegueira com uma disciplina admirável, quase severa. Recusava qualquer sinal de compaixão. Não permitia vozes suaves demais, nem cuidados exagerados. Preferia ordens claras, descrições objetivas, silêncio quando não houvesse nada de útil a dizer. Os empregados sabiam disso.

       — Senhor, o sol está forte hoje — avisou o mordomo, mantendo a postura rígida.

      — Ótimo — respondeu Hudson, sem alterar o tom. — Descreva o jardim.

      O homem obedeceu imediatamente. Falou das flores, do vento leve, do brilho do mar que Hudson não podia mais ver. Hudson escutava em silêncio, atento, mas impaciente quando a descrição se tornava longa demais. Não fazia perguntas. Não demonstrava emoção. Aceitava aquelas informações como quem aceita dados necessários. Nada além disso. À noite, permanecia longos minutos sentado no escritório, ouvindo relatórios, revisando números com o auxílio de um secretário de confiança. Comandava os negócios com a mesma autoridade de antes. A escuridão não o tornara frágil. Apenas mais rígido.

      A cegueira havia mudado o mundo ao seu redor, mas não o homem que exigia controle. Violet praticamente não aparecia. No início, ainda fizera uma ou duas visitas curtas. Chegando apressada, permanecendo poucas horas e parecendo sempre deslocada naquele ambiente silencioso e disciplinado demais para alguém como ela. Evitava intimidades. Evitava conversas mais profundas. Evitava o homem que Hudson se tornara. Ele percebia e não insistia.

      Hudson não fazia perguntas. Não cobrava presença. Não implorava atenção. Havia decidido, desde cedo, que não mendigaria sentimentos. Se Violet estivesse ali, deveria ser por vontade própria. Não por obrigação ou pena.

       — Preciso ir — dizia ela com frequência, ajeitando a bolsa. — Tenho compromissos no continente.

       — Claro — respondia Hudson, de forma breve.

      Ele nunca reclamava. Nunca demonstrava mágoa. Guardava tudo para si, como aprendera a fazer desde o acidente. Com o tempo, as visitas tornaram-se raras. Depois, praticamente inexistentes. A ilha passou a ser habitada apenas por Hudson…

e pelo silêncio que ele fingia não perceber.

      Enquanto isso, na casa dos avós, Melissa acompanhava tudo à distância. As notícias chegavam fragmentadas, sempre através de Violet ou dos comentários cautelosos dos avós. Hudson estava bem. Hudson se adaptava. Hudson não recebia visitas. Melissa escutava… e guardava tudo para si. Todas as noites, após se recolher, sentava-se à pequena escrivaninha do quarto e escrevia cartas. Cartas longas, cheias de palavras que jamais seriam lidas.

“Querido Hudson,

     Penso em você todos os dias…”

       Ela descrevia o jardim da casa dos avós, os livros que lia, o céu que observava da janela. Escrevia como se estivesse falando com ele, como se pudesse atravessar o mar que os separava e aliviar um pouco da solidão que imaginava que o envolvia naquela ilha distante. Às vezes, escrevia apenas uma frase.

Às vezes, páginas inteiras.

Mas nunca enviava. Pois não tinha aquele direito. Não possuía aquela intimidade. Hudson era o noivo de Violet. A vida dele não lhe pertencia. Aquela dor… ela carregaria sozinha. Então, dobrava as cartas com cuidado e as guardava numa caixa escondida no fundo do armário, como se aquele amor precisasse permanecer trancado, protegido do mundo. Ao mesmo tempo em que pensava.

     “Hudson... como eu gostaria de abraça-lo forte, de está com você neste momento...”

       Certa tarde, Violet apareceu na casa dos avós apenas para pegar algumas coisas. Como arquiteta, já morava sozinha havia algum tempo, num pequeno apartamento. O plano era, após o casamento, mudar-se para a imponente mansão Theodore. Estava elegante como sempre, mas havia nela uma impaciência difícil de ignorar.

      — Ele está… diferente — comentou, jogando a bolsa sobre a mesa. — Tudo naquela ilha é pesado demais.

Melissa levantou os olhos do livro.

      — Você finalmente vai vê-lo hoje? — perguntou com cuidado. — São apenas algumas horas de jato e barco disponibilizados por ele.

        — Não sei… talvez outro dia. — Violet fez uma careta.

      “Outro dia.”

       O coração de Melissa apertou mais uma vez. Naquela noite, voltou a escrever. As palavras saíram mais trêmulas, mais doloridas. A caneta pesava sobre o papel de carta delicado e perfumado.

“Se eu pudesse estar aí…

Se eu pudesse segurar sua mão…”

     Então, mais uma vez, a carta foi guardada. O tempo passou. As semanas se acumularam. E a ilha continuou distante, envolta em silêncio, enquanto Hudson se fechava cada vez mais em sua própria fortaleza emocional…Sem saber que, do outro lado do mar, alguém o amava profundamente. Em silêncio.

À distância. Sem jamais esperar nada em troca. Assim, sem que ninguém percebesse, o destino começava a tecer uma história que mudaria tudo.

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