Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira coisa que fiz foi entrar correndo dentro de casa.
Troquei de roupa rapidamente e, mesmo sabendo que precisava usar o dinheiro daquela maleta, escondi tudo embaixo de uma caixa na cozinha. Parte de mim ainda se sentia horrível só de olhar para aquele dinheiro. Mas eu não tinha escolha. Corri para o hospital aproveitando a carona de Bianco. O caminho inteiro foi silencioso. Meu coração parecia prestes a sair pela boca. Assim que cheguei, fui direto falar com o médico. E as notícias foram ainda piores do que eu imaginava. — Houve algumas complicações durante a madrugada. Senti meu corpo gelar imediatamente. — O estado dela piorou bastante. Se não iniciarmos um tratamento mais avançado… ela pode não resistir mais do que dois ou três dias. Dois ou três dias. Minha vontade foi desabar ali mesmo. Olhei para minha avó desacordada naquela cama e senti lágrimas queimarem meus olhos. Ela não podia morrer. Não depois de tudo. Não depois de me criar praticamente sozinha. Respirei fundo tentando me manter firme. O dinheiro ainda estava escondido na minha casa. E eu sabia exatamente o que precisava fazer. Eu iria voltar. Pegaria a maleta. E salvaria a vida da minha avó. Mesmo que aquilo significasse aceitar dinheiro vindo de um homem como Paolo Russo. Bianco ficou comigo durante boa parte da madrugada no hospital. Conversamos baixo perto da janela enquanto eu tentava não surtar completamente. Acabei contando para ele que tinha conseguido muito dinheiro de forma inesperada e que provavelmente usaria para pagar o tratamento da minha avó. Mesmo sabendo que a origem daquele dinheiro não era a melhor possível. Mas omiti alguns detalhes importantes. Especialmente o fato de que um homem absurdamente gato, armado e completamente bilionário tinha aparecido na minha casa durante a noite carregando uma maleta cheia de euros. Mas Bianco me questionou. Perguntou como eu poderia conseguir tanto dinheiro assim e, ao mesmo tempo, parecer tão aflita para usá-lo. Mentir foi mais fácil do que explicar a verdade. — É um empréstimo do banco. Falei naturalmente, desviando o olhar. E, pelo jeito, ele acreditou. Eu e Bianco namoramos por alguns meses durante a adolescência, mas claramente não deu certo. Ele fez faculdade. Construiu uma carreira. Tem um bom emprego. Enquanto eu… Sou apenas uma cuidadora desempregada tentando salvar a avó de todas as formas possíveis. Mas a verdade é que eu nunca fui apaixonada por ele. Na verdade, acho que nunca consegui amar alguém de verdade. Eu leio romances. Assisto filmes românticos. Mas nada daquilo parece comigo. Infelizmente, amar alguém nunca foi prioridade quando minha vida inteira parece um caos constante. E, naquela época, Bianco parecia muito mais meu amigo do que meu namorado. Olhei para minha avó mais uma vez antes de respirar fundo. Eu precisava parar de pensar tanto. Ia enxergar aquele dinheiro como um milagre. Uma oportunidade. Porque talvez nada daquilo tivesse acontecido por acaso. Quando o horário do almoço se aproximou, me despedi de vovó e deixei o hospital. Então caminhei lentamente até o ponto de ônibus. Dentro do ônibus parecia que tudo acontecia lentamente. Encostei a cabeça na janela enquanto observava a cidade passando do lado de fora. E, várias vezes, pensei em Giácomo. Senti saudades dele. Saudades de conversar com ele. De ouvir suas reclamações aleatórias. Ou simplesmente de abraçá-lo. Além disso, eu estava preocupada. Queria saber se ele realmente estava bem depois de tudo aquilo. Então, aproveitando que o ônibus estava quase vazio, peguei o celular e liguei para Camila. Ela atendeu rapidamente. Assim que ouvi sua voz, comecei a perguntar sobre Giácomo. Camila tentou me confortar dizendo que nada do acidente tinha sido culpa minha. — Ele está bem, Nati. E pergunta toda hora por você. Meu coração apertou. Hoje era sábado, o dia que seria minha folga. Mas parecia que eu ainda estava presa no caos de ontem. E o morador de rua? Será que ele ainda estava vivo? Só de lembrar do sangue no chão, senti um arrepio percorrer meu corpo. Tentei convencer Camila a colocar Giácomo no telefone só por alguns minutos. Queria ouvir a voz dele. Mas ela disse que estava ocupada demais trabalhando e que não conseguiria naquele momento. Desliguei logo depois. E então, sem querer… O rosto de Paolo Russo surgiu na minha mente. Lindo. Misterioso. Cruel. Abri os olhos imediatamente, como se pudesse expulsar aquela imagem da minha cabeça. Meu Deus. Posso estar carente. Confusa. Desesperada. Mas definitivamente jamais me envolveria com um homem como ele. Fiquei me perguntando se um homem como Paolo Russo seria capaz de amar alguém algum dia. Giácomo reclamava tanto da ausência dele que era difícil acreditar que aquele homem sentisse qualquer tipo de afeto por alguém no mundo. E depois da cena daquela noite… Do sangue. Da frieza absurda com que tratou toda a situação. Eu simplesmente não conseguia imaginar outra coisa. Paolo parecia vazio. Como se nada realmente o atingisse. Fechei os olhos novamente, tentando afastar aqueles pensamentos da minha mente. E, sem perceber, acabei pegando no sono no banco do ônibus. O cansaço finalmente venceu. Afinal, eu só tinha cochilado alguns minutos no hospital. Passei a noite inteira com medo de dormir profundamente e abrir os olhos tarde demais. Com medo de perder minha avó enquanto eu descansava. Como se, de alguma forma, permanecer acordada pudesse mantê-la viva por mais tempo. Abri os olhos assustada quando o ônibus freou bruscamente. Olhei pela janela e percebi que faltava pouco para chegar em casa. Respirei fundo tentando organizar meus pensamentos. Eu precisava comer alguma coisa rapidamente, pegar a maleta com o dinheiro e voltar para o hospital. Não podia perder mais tempo. Minha avó não tinha mais tempo. Assim que o ônibus parou no meu ponto, desci e comecei a caminhar apressada pelas ruas. Mas, quando virei na esquina da minha casa, estranhei imediatamente. Havia pessoas espalhadas na frente do local. Meu coração disparou. Me aproximei rapidamente tentando entender o que estava acontecendo. Meu Deus… Será que tinha acontecido alguma coisa com minha avó? Será que estavam tentando me encontrar? Mas então meus olhos recaíram sobre a porta destruída. E sobre as janelas quebradas. Meu corpo inteiro gelou. — Não… Corri imediatamente para dentro da casa. Tudo estava revirado. Os móveis fora do lugar. Objetos espalhados pelo chão. Gavetas abertas. Os vizinhos começaram a falar ao mesmo tempo, dizendo que dois vândalos tinham passado pela rua roubando algumas casas da região. Mas eu mal conseguia ouvir. Corri direto até a cozinha. Até o lugar onde escondi a maleta. Afastei a caixa desesperadamente. E senti o chão sumir debaixo dos meus pés. Ela não estava mais lá. — NÃO! Gritei em completo desespero enquanto começava a procurar enlouquecidamente pelo resto da cozinha. Porque eu sabia que aquele dinheiro era a salvação da minha avózinha. Minhas mãos começaram a tremer enquanto eu revirava a cozinha inteira desesperadamente. — Não… não… não… Abri armários. Joguei objetos no chão. Procurei em todos os cantos possíveis, mesmo sabendo que era inútil. A maleta tinha sumido. E junto dela… a chance de salvar minha avó também. Senti o desespero subir pela minha garganta de forma sufocante. As lágrimas começaram a cair antes mesmo que eu percebesse. Meu Deus. O que eu faria agora? Como eu olharia para minha avó sabendo que perdi justamente a única coisa capaz de mantê-la viva? Acabei caindo de joelhos no chão bagunçado da cozinha enquanto tentava puxar ar para os pulmões. Mas parecia impossível respirar. Porque, naquele momento… Tudo que eu conseguia pensar era que eu estava perdendo ela.






