Mundo de ficçãoIniciar sessão
༒ 𝐏𝐑𝐎́𝐋𝐎𝐆𝐎 ༒
O som dos aparelhos mantendo minha avó viva ecoava como um zumbido constante dentro da minha cabeça. Lá fora, a chuva castigava a cidade como se até o céu soubesse que tudo estava desmoronando. Dessa vez, os médicos foram claros: ela precisava de um tratamento melhor. Mais caro. Mais urgente. E automaticamente pensei nele. Paolo Russo. O homem mais frio que já conheci. Cruel. Intimidador. Perigoso. A arma presa à sua cintura deixava claro que ele não era um homem comum. Casar com ele por contrato era algo que eu jamais aceitaria… se não estivesse desesperada. Mas o que eu podia fazer? Nada. Aproximei-me da cama e beijei as mãos geladas da minha avó, segurando o choro preso na garganta. — Por favor… fica viva até eu voltar. Então saí do hospital e peguei um táxi em direção ao encontro que mudaria minha vida para sempre. Encontrei Paolo dentro de um restaurante luxuoso completamente fechado apenas para nós dois. É claro que um homem como ele compraria o lugar inteiro se quisesse privacidade. Homens armados estavam espalhados por todos os cantos. Observando. Ameaçando. Esperando. Paolo permanecia sentado à mesa principal, usando um terno preto impecável. A expressão fria em seu rosto fazia o ambiente inteiro parecer ainda mais sufocante. Assim que me aproximei, ele empurrou alguns papéis na minha direção. — Assina. Olhei para o contrato sobre a mesa. Depois para os inúmeros homens armados espalhados pelo restaurante. E então para o rosto do mafioso sentado à minha frente. Por um instante, tive vontade de fugir. Desistir daquela loucura. Mas então lembrei da minha avó. Das dívidas. Do medo de perdê-la. Respirei pesadamente. E assinei. ... ♛ 𝐒𝐄𝐗𝐓𝐀—𝐅𝐄𝐈𝐑𝐀 ♛ Toda manhã tenho a mesma rotina. Primeiro passo no hospital para ver minha avó e, em seguida, vou para o trabalho. Saio bem cedo para não me atrasar em nenhum dos horários. Minha avó está doente e entrou em coma há alguns meses. Precisei colocá-la em um hospital particular e, com o meu trabalho de cuidadora, tento manter o tratamento dela em dia. Mas ultimamente está complicado. O médico disse que ela está piorando e o tratamento que consegui parcelar em um tipo de carnê não está sendo suficiente. Tem dias que essa merda fica martelando na minha cabeça sem parar. Chego ao trabalho depois de duas horas dentro de um ônibus, tudo para economizar no táxi. Finalmente entro no lar para idosos. Eu não ganho bem, mas gosto de cuidar de cada um deles, mesmo não sendo uma enfermeira profissional. Assim que chego, troco de roupa e visto meu uniforme branco e sem graça. Depois, como de costume, lavo as mãos e caminho pelos corredores em direção aos quartos, apenas para verificar se todos estão bem. Na sala principal, alguns idosos jogam cartas. Outros tomam suco enquanto assistem televisão. E alguns conversam no gramado enorme do local. E então vejo ele. ༒ Giácomo Russo ༒ Eu não sei muito sobre sua vida. Ele está aqui há dois meses e, desde então, nunca recebeu visitas. Apenas presentes caros que sempre manda devolver. Onde ele usaria coisas luxuosas daquele jeito? Automaticamente olho para o relógio e percebo que está na hora do seu remédio da manhã. Ele tem problemas no coração. Pego uma bandeja, água e os comprimidos antes de caminhar até ele. Giácomo está sentado em sua cadeira de rodas, olhando fixamente para frente, observando outros idosos conversando entre si. Ele nunca se mistura com ninguém. Exceto comigo. Assim que me aproximo, ele sorri, mostrando a dentadura. — Você chegou, Nati. Esse é o apelido que ele me deu. Geralmente meus amigos me chamam de Natinha. Giácomo não fala muito sobre o próprio passado, mas já comentou algumas vezes sobre um neto que nunca faz questão de visitá-lo desde a morte do pai. Segundo ele, tudo o que o rapaz possui hoje foi conquistado graças a ele. E, sinceramente? Toda vez que escuto isso, sinto a raiva crescer dentro de mim. Porque eu jamais abandonaria alguém da minha família daquela forma. Ele começa a reclamar das dores nas pernas e eu massageio lentamente a região, tentando aliviar um pouco seu desconforto. Também costumo conversar com ele sobre minha vida. Sobre a minha avó. Sobre o cansaço. Sobre as contas. Porque, de algum jeito… Giácomo acabou se tornando alguém importante para mim. Depois de passar um tempo com Giácomo, fui ajudar algumas colegas de trabalho. Especialmente uma delas me odeia. — Como sempre, você está com o mais lucrativo. Sônia diz com um sorriso falso no rosto enquanto segura um copo de suco. A outra colega ao lado dela ri baixo, mas Camila, a única ali com quem realmente me dou bem, logo reclama. — Não começa, Sônia. — Estou dizendo alguma mentira? Reviro os olhos internamente. Sônia sempre faz questão de lembrar que Giácomo é o idoso mais rico daquele lugar. Parece até que acredita que eu me aproximei dele por interesse. Como se eu fosse esse tipo de pessoa. Eu jamais faria isso. Por um segundo, tive vontade de meter a mão na cara dela. Mas, infelizmente, meu salário dependia daquele emprego. Então apenas bebi um pouco de água enquanto Camila me puxava discretamente para outro lado. — Não liga pra ela — sussurrou. Assenti em silêncio. Não demorou muito para terminarmos algumas tarefas e, de repente, uma gritaria ecoar pelo local. Meu coração disparou. Corri para fora junto com as outras funcionárias e senti meu corpo gelar ao ver Giácomo se debatendo dentro do lago. — Meu Deus! O que aconteceu aqui? Sem pensar duas vezes, corri e pulei na água. O choque gelado atravessou meu corpo imediatamente, mas ignorei. Segurei Giácomo com dificuldade e consegui puxá-lo para perto da margem. Graças a Deus ele não havia desmaiado, apenas começou a tossir toda a água para fora. Entrei em completo desespero. — Respira… respira, por favor… Minhas mãos tremiam enquanto tentava ajudá-lo. Depois do susto, levei-o até o quarto, ajudei a trocar suas roupas molhadas e o deixei descansando. Mas o fato dele ter tentado se levantar sozinho para caminhar até o lago destruiu completamente minha estabilidade emocional. E pior… Aparentemente a culpa estava caindo sobre mim. E eu nem conseguia negar totalmente. Porque uma parte minha também se culpava. Se eu tivesse permanecido ao lado dele… A diretora foi curta e grossa quando me chamou em sua sala. — Você foi irresponsável. Engoli seco. — Um homem como o senhor Russo precisa dos melhores cuidados possíveis. Aparentemente ela estava mais preocupada com o dinheiro dele do que com sua saúde. Respirei fundo, tentando me controlar. — Eu sinto muito. Não vai acontecer de novo, diretora. Eu precisava manter aquele emprego. Ela me observou em silêncio por alguns segundos antes de cruzar os braços. — Porque se perder esse trabalho… você perde tudo, não é? Ela mencionou minha avó logo em seguida, fingindo empatia. Como se realmente se importasse. Apertei o tecido do meu uniforme com força. Essa vaca realmente achava que estava sendo bondosa comigo? — Se acontecesse alguma coisa com ele, você não teria que lidar apenas com uma demissão. Sua vida inteira estaria fodida. Engoli seco antes de responder. — Eu sempre deixei ele tomando um pouco de ar fresco… isso nunca aconteceu. Ela soltou uma risada sarcástica. Por um instante achei que receberia apenas uma advertência e voltaria ao trabalho normalmente. Mas o pior veio logo depois. — Está despedida. Meu coração praticamente parou. — O quê…? — Eu não quero você aqui de novo. Senti o desespero me consumir imediatamente. Não. Eu não podia perder aquele emprego. Não podia. — Por favor… eu preciso desse trabalho. Tentei insistir, mas ela apenas reforçou tudo com palavras ainda mais cruéis, como se estivesse aproveitando cada segundo da minha humilhação. Minha cabeça começou a girar. Como eu cuidaria da minha avó agora? Como pagaria o hospital? Eu nem teria tempo suficiente para encontrar outro emprego antes das próximas cobranças chegarem. Que merda. Saí da sala dela quase sem conseguir respirar direito. Meu peito doía. Eu precisava me acalmar. Precisava pensar. Depois de recuperar minimamente o controle, fui até o vestiário, tirei meu uniforme e tentei passar no quarto de Giácomo. Queria pelo menos me despedir. Mas não deixaram. Disseram que ele precisava descansar e que eu não tinha mais autorização para entrar ali. Aquilo acabou comigo. Sem paciência para enfrentar duas horas dentro de um ônibus lotado, chamei um táxi mesmo sabendo que estava gastando um dinheiro que não podia. Durante o caminho inteiro até o hospital, chorei em silêncio olhando a cidade pela janela. Assim que entrei no quarto da minha avó, senti meu corpo desabar de vez. Sentei ao lado dela e segurei sua mão fria entre as minhas. — Eu perdi o emprego… Minha voz saiu falha. Ela não podia me ouvir. Mesmo assim, continuei falando. Contei tudo. Sobre o acidente. Sobre a diretora. Sobre o medo absurdo que estava sentindo. Porque, naquele momento… minha avó era a única pessoa que eu tinha. Passei a tarde inteira ao lado dela até o céu escurecer completamente. Depois disso, voltei para casa. Minha casa velha parecia ainda mais vazia sem a presença da minha avó. Silenciosa. Fria. Sufocante. Tomei um banho demorado e lavei o cabelo várias vezes, como se pudesse arrancar de mim aquela sensação horrível de fracasso. Quando finalmente desliguei o chuveiro, ouvi a campainha tocar. Fechei os olhos com irritação. Eu estava completamente nua… e agora precisava atender a droga da porta. Justo hoje. Justo no único dia em que eu não queria ver absolutamente ninguém. Mesmo assim, vesti um roupão rapidamente, sequei o cabelo com uma toalha e fui atender a porta. Assim que abri, encontrei um homem usando óculos e um terno preto impecável parado diante da minha casa. Ele estava acompanhado de outros dois homens. Meu coração acelerou imediatamente. Primeiro encarei seu rosto. Perfeito demais. Frio demais. Depois meus olhos desceram lentamente até a arma presa junto ao seu corpo. Respirei fundo. — Quem são vocês? Perguntei tentando esconder o medo na minha voz. O homem me encarou por alguns segundos antes de responder com uma voz grave e controlada. — Paolo Russo. Vim falar com você sobre o meu avô. Meu estômago afundou na mesma hora. Então aquele era o neto de Giácomo. O homem que ele mencionava tantas vezes. E olhando para ele agora… eu entendia perfeitamente porque todos pareciam temê-lo. Havia algo sombrio em sua presença. Algo perigoso. Meu olhar voltou involuntariamente para a arma. Meu Deus. Ele soube do que aconteceu no lago. E, sinceramente? Só existia uma certeza passando pela minha cabeça naquele momento: Se Paolo Russo me culpasse pelo que aconteceu com Giácomo… eu provavelmente morreria aqui mesmo. MERDA!






