Rafe tamborilou os dedos despreocupadamente no cedro lustroso do móvel para vinte lugares onde estavam os principais executivos da Sommers Stores Incorported.
Ouviu com atenção a exposição de cada um, inclusive dos dois principais diretores, que o seguiam logo abaixo na hierarquia, seus irmãos, Kevin, de 30 anos, e Jason de 28. O primeiro era diretor de operações, enquanto o outro trabalhava como diretor internacional para a América Latina. Os irmãos Sommers, herdeiros de um império de lojas de varejo multinacional. Morgan Dexter expunha os benefícios da incorporação de uma loja de departamentos, em Seattle, à rede varejista dos Sommers. Quem visse Rafe, sentado à cabeceira da longa mesa de reunião, mexendo no celular, acreditaria que estivesse atento ao que lia, mas os seus ouvidos captavam a conversa, aos sussurros, entre os seus irmãos. ― De quantas horas precisaremos para convencer o nosso presidente a manter os funcionários da loja de Seattle? ― Falou Jason, com bom humor. ― Talvez uma encarnação inteira. ― Rebateu o irmão do meio, cuja personalidade espirituosa às vezes batia de frente com a autoridade do mais velho. ― Vocês dois querem trocar de cadeira comigo? ― Rafe foi mordaz, olhando de um para outro ― É prática comum da Sommers Stores incorporar o mínimo possível de funcionários de outra administração. Portanto, abriremos novas vagas de emprego para a filial de Seattle. ― Podemos absorvê-los sem problema, já que iremos instalar uma de nossas lojas. Não vejo sentido abrir novas contratações. ― Rebateu Jason. ― Quem tem de ver sentido sou eu. Não alimentarei cobra criada de antigas chefias. Quero gente nova, sangue novo. Mais alguma coisa? ― Vendo o irmão balançar a cabeça, com ar de derrota, completou com ironia: ― Pensei que íamos debater por horas. Jason fez que não com a cabeça, trocando um rápido olhar com Kevin, que lhe retribuiu com um sorrisinho sarcástico, dando a entender que se divertia com a repentina covardia do irmão caçula. Ninguém batia de frente com Rafe. Após a reunião, Rafe foi seguido por Jason no corredor a caminho da sala da presidência. E ter alguém caminhando atrás dele era algo que realmente o incomodava, talvez um dia fizesse terapia para entender essas suas manias de neurótico, por agora, apenas parou e se virou para dar atenção a um olhar brilhante e a um sorriso cheio de energia, que não desapareceu depois de Jason falar: ― Mary Taylor voltou de Paris. Isso lhe diz alguma coisa? ― Que ela prefere Nova York. ― Ignorou de propósito o verdadeiro motivo daquela informação. Rafe e Jason foram amantes da socialite de trinta anos. O termo amante era forte demais, pois parecia até que tiveram um caso. O que aconteceu de fato não passou de uma ou duas trepadas. ― Bem, se está cansado da Mary, saiba que Hana Kato se interessou pela nossa, digamos, dinâmica de revezamento. Quer nos ver enquanto o marido está no Japão. Rafe não deixou de notar o tom maldoso da última frase. ― Mulheres casadas e entediadas é o que não falta na alta sociedade. Jason suspirou num misto de prazer jocoso com o típico enfado dos homens atraentes ostensivamente cobiçados por milhares de mulheres. ― Acerto a noite com as duas? Rafe ponderou se a jovem esposa do CEO da Mitsubishi sabia como era o lance sexual com os irmãos Sommers. ― Vê se deixa bem claro à novata que não participamos de ménages, ok? Saliente que conosco elas participam de uma espécie de “rodízio dos Sommers”. ― Pois é, Hana estava empolgada com a ideia de ir para cama com os dois ao mesmo tempo. É uma safada. Mas aceitou de bom grado o revezamento. O que ela quer mesmo é fazer parte da nossa lista. ― Quem sou eu para julgar a profundidade da alma humana, não é mesmo? ― Escarneceu para, em seguida, dar as costas ao irmão. Mas foi impedido mais uma vez. ― E a Sophia, quando a colocaremos no nosso rodízio? A voz do irmão era até doce quando se referiu à filha da antiga governanta da família. Uma doçura que fez a sua coluna endurecer. A dinâmica sexual dos dois Sommers era bastante peculiar. Primeiro, Jason, que era menos agressivo, fodia com a mulher em questão, a da tal lista de contatos deles. Depois era a vez de Rafe. O encontro ocorria no hotel Hilton, uma suíte em frente à outra, duas ou três horas de sexo. Todas as possibilidades. O rodízio dos Sommers. Onde comia um; comia o outro. Rafe conhecia Sophia desde que a mãe da garota começou a trabalhar como governanta da casa. Na verdade, ela primeiro foi contratada como arrumadeira. Isso havia dez anos. Até que pouco antes de Pilar Otero morrer, ela pediu para que ele cuidasse de Sophia, ainda mais que ambas não eram norte-americanas, nasceram em Córdoba, na Argentina, e tinham imigrado para os Estados Unidos. Ele sempre se sentiu mais próximo de Pilar do que de Judith. Embora soubesse que essa aproximação irritava a adolescente Sophia. No entanto, irritava-o ainda mais saber que ela era apaixonada por Jason. ― Você sabe que Sophia jamais faria sexo comigo. ― Rafe afirmou numa voz neutra. Jason concordou com o irmão. ― Isso é realmente um obstáculo, porque, no mais, ela não parece ser cheia de pudores. ― Ela é virgem. ― Como sabe? ― Jason pareceu intrigado. Rafe sabia como se livrar de uma fria. ― Parece que ela desabafou com Kevin a respeito. ― Mentiu. Meu caro irmão, eu tenho pessoas que a vigiam há cinco anos, desde que decidi que cuidaria e protegeria Sophia, pensou sem, no entanto, nada dizer. E essa proteção exigia o gerenciamento de uma equipe de segurança que o mantinha informado sobre todos os passos da moça. Inclusive sobre sua tentativa frustrada de transar no carro com um colega de trabalho. Rafe mandou simularem um assalto, e um de seus homens aproveitou para encher de porrada a cara do traficantezinho com o qual ela se envolvera. Mas pelo menos ela não teve a sua primeira vez no banco de trás de um automóvel. O que, para Rafe, era considerado vulgar. Além disso, ele não deixaria que qualquer um se tornasse o primeiro homem dela. Porque a virgindade da Srta. Otero pertencia a quem fazia os depósitos regulares na sua conta bancária e, mais do que isso, pertencia ao homem que a desejava havia cinco malditos e longos anos. ― Por Deus, Rafe, não te deixa louco iniciar a vida sexual da nossa lindinha? Jason e a Sophia eram amigos próximos. E ela nem desconfiava que ele tencionava comê-la como o prato de entrada e depois passá-la ao irmão mais velho, como o prato principal; em seguida, retornar a ele como sobremesa. E, logo, tornar a ser servida, por horas. Por horas de orgasmos. ― Não. ― Não o cacete. ― Não, Jason, fora de cogitação. ― E por quê? A gente cuidaria para que tudo fosse gostoso e agradável para ela, jamais a machucaríamos e, eu tenho certeza de que ela se sentiria mais segura perdendo a virgindade conosco. ― Ela me odeia. ― Você não a trata bem, é por isso. Se fosse menos filho da puta ajudaria. Caramba, adoro a Sophia, ela é meiga, inteligente e muito divertida, e eu não gostaria de que ela fodesse com um filho da mãe qualquer. ― Filho da mãe como nós obviamente? Jason achou graça. ― Ok, somos cretinos, mas temos pedigree. Agora, imagina a nossa latina preferida sendo fodida por um bastardo qualquer. Ela é NOSSA, Rafe! NOSSA por direito, foi criada pelos Sommers, é nossa e ponto final! Rafe tinha nos olhos o brilho de uma faca e, debaixo da língua, o gosto do sangue. Ela não é NOSSA, Jason. Sophia é MINHA, pensou ele, decidido a pôr em prática o plano que precisou esperar cinco anos para executar.