Encontrar-se frente a frente com Rafe era como se pôr diante de um penhasco e contemplá-lo, um misto de ligeira apreensão e fascínio tornava o seu estômago vítima de altas doses de suco gástrico. A vontade de pular para ver se de fato morreria se misturava à falta de ar diante da beleza do perigo.
Atração. Era isso que ela sentia toda vez que se obrigava a encará-lo, a falar com ele, trocar poucas palavras e muitas farpas. Certa vez, cogitara que fosse alérgica a Rafe, àquele tipo de alergia que atraía as pessoas ao agente alergênico, como o hipotenso ao analgésico ou o asmático ao gato. Talvez o seu caso fosse ainda pior, e ela fosse aquele tipo de mulher que pensava apenas com o corpo quando se deparava com um homem que emanava macheza pelos poros e exibindo, quase que como tática de sedução, um rosto tranquilo, detalhado pelo nariz reto e grande, o lábio superior cheio, os olhos azuis claríssimos, a pele nívea de quem vivia trabalhando no escritório e o cabelo curto, castanho claro, sempre bem cortado, embora, como Sophia já o vira em uma ou outra ocasião, algumas mechas rebeldes às vezes caíssem irregulares na sua testa. Pilar e Rafe foram tão próximos que, durante o tempo em que ela trabalhou para os Sommers, Sophia odiou o ricaço metido entre ambas, ou, na maior parte das vezes, ele não se enfiava entre elas e sim sequestrava sua mãe para passeios de barco pela ilha de Manhattan, levava-a a restaurantes e cumpria a programação completa de um devotado filho para com a sua mãe. Pilar verdadeiramente o amava. E Sophia não suportava ter que dividir sua atenção e companhia com alguém que tinha tanto, tudo, e sempre queria mais, tomar, inclusive, a mãe dos outros. Então ele parou de escrever algo em um papel, era canhoto, o ogro engravatado ― e esse detalhe também a irritava, posto que ela considerava um charme ver as pessoas escrevendo com a mão esquerda. Rafe olhou para a porta aberta e, em seguida, desviou os olhos para ela. ― Não culpe a coitada da sua secretária, eu disse a ela que entre nós não há formalidades. ― Ironizou, sentando-se na cadeira diante da escrivaninha, sem esperar qualquer indicação dele. Emendou rapidamente, a fim de justificar sua presença naquela sala, e o pior, com ele: ― Judith pediu para que eu o auxiliasse como sua assistente até conseguir uma secretária...digamos, lobotomizada, sabe. Parece que as profissionais sensatas acabam se demitindo depois de algumas semanas com você. Ela encostou-se relaxadamente contra a cadeira estofada e observou a reação do homem à sua frente. Nenhuma. Sério, o olhar perscrutador que parecia vasculhar o seu rosto em busca da origem daquela ironia toda jogada à sua mesa antes das cinco da tarde. A voz saiu serena quando ele falou: ― Como vai, Sophia? Faz muito tempo que não nos vemos. Era uma mera constatação, mas ela sentiu como se tivesse sido acusada. Defendeu-se: ― Estudo e trabalho. Além disso, você não visita a sua família. Se visse mais os seus pais também me encontraria. Ele quase sorriu, desistiu no último segundo para também se recostar contra o encosto alto da poltrona, juntar as mãos e se pôr numa postura de avaliação do material humano que via. ― É claro que você está sempre por lá, ao redor, por assim dizer. Já não era a primeira vez que ele insinuava que ela fosse uma interesseira ordinária. ― Dou atenção aos seus pais, não tenho culpa se eles gostam da ideia de terem uma filha, ainda que seja de criação. Fale com sua mãe sobre isso, se acredita que estou por lá para roubar os Sommers. ― ela se encurvou para frente como se lhe fosse contar um segredo e desferiu com acidez: ― Por que não pede para os seguranças me revistarem toda vez que saio da mansão, hein? Definitivamente ele sorriu. Ela notou as covinhas nos cantos das bochechas e teve vontade de lhe acertar um murro na cara. ― Acalme-se, o seu nome já está no testamento dos meus pais. Tentei impedi-los de cometer essa asneira, mas Jason e Kevin se juntaram a eles para me pressionar. ― Não quero nada da sua família. ― Afirmou, entredentes. ― Só o que já tem, não é? ― Qual é o seu problema, Rafe? O que importa para você se os seus pais me ajudam? Está ficando menos rico com isso, é? Ou é só avareza mesmo? ― Sempre fui a favor da caridade e, inclusive, ajudo alguns orfanatos. Acontece apenas que sei muito bem quais são os seus planos, latina. Era por isso que o detestava. Por ele ser... ele. ― Claro que sabe, vou me formar e me tornar roteirista. E então pagarei aos seus pais cada centavo que gastaram com a minha formação profissional e minhas outras despesas, e você não precisará mais ver a minha cara, irei para Los Angeles. Ele pôs o dedo indicador sobre os lábios, refletindo sobre o que ela acabava de dizer, mas, na verdade, como ela notou a seguir, era mera encenação: ― Por que não estuda em Los Angeles? É o Jason que segura você aqui? Sentiu as bochechas queimarem de vergonha. Por que se sentia assim, afinal? Ela e Jason sempre foram unidos, saíam juntos, se implicavam, não havia maldade nisso. Todavia, o ogro engravatado tinha de ver sujeira em relacionamentos saudáveis. Estampou essa irritação no rosto, uma vez que viu quando ele alçou uma sobrancelha num misto de interrogação e curiosidade: ― É segredo, Sophia? ― Debochou, com um sorrisinho satânico. Ela engoliu em seco. ― Acha que quero dar o golpe do baú no Jason? Logo o Jason? ― Tentou rir, mas estava tão nervosa, que só conseguiu entortar o rosto numa careta de dor. ― E por que não? Ele é a sua chance de se tornar milionária e produzir os seus documentariozinhos de esquerda. É fácil mostrar a sordidez humana quando se é bancada pela classe social opressora, não é mesmo, minha Sophia? ― Ironizou, encarando-a diretamente: ― O Jason é um ingênuo que ainda não percebeu que já foi fisgado, falta apenas o último golpe, Srta. Otero, que é se declarar para ele com esse seu rostinho de menina desamparada no corpo de vadia gostosa. Ele falou com tanta calma que ela demorou a perceber que acabava de se referir a ela de modo vulgar. Não precisava aceitar ser insultada por ele. Era verdade que ainda precisava ser bancada pelos Sommers, mas não por Rafe, nunca por Rafe! ― Não posso ajudar a sua mãe. ― Baixou a cabeça e fitou as próprias mãos: ― Terá de arranjar outra pessoa para ser a sua secretária temporária. O fato de eu ter origem humilde não significa que nasci para ser tapete de ricaço e, como tenho sangue quente e latino, graças a Deus, temo perder as estribeiras e arrancar os seus olhos, Sr. Sommers. Levantou-se, agarrada na bolsa e, agora, parecia que era ela quem temia ser assaltada por ele. ― Muito lindo esse discurso de humildade, mas acontece que a minha mãe é tão controladora quanto eu, e se ela suspeitar que a maltratei de alguma forma, vai me encher a paciência até me fazer pedir desculpas a você, de joelhos e, é claro, na frente dela e com os meus irmãos como testemunhas. ― ele se levantou de onde estava e acrescentou sem se mover: ― Também não estou à vontade com sua presença no meu escritório, mas até o final da semana tudo estará resolvido e o RH me passará algumas candidatas à seleção. Devo acrescentar que será devidamente remunerada enquanto trabalhar para mim, bem mais do que ganha naquela espelunca limpando mesas. ― É um trabalho honesto. Ele sorriu com evidente prazer: ― Hmm, pelo visto você é aquele tipo de pessoa mais comum, que associa ganhar pouco com honestidade. ― Em seguida, pôs as mãos nos bolsos da calça social ― O seu expediente se dará apenas à tarde, quero que tenha tempo para o seu curso e o tal documentário inútil que está fazendo. Como ele sabia sobre o documentário? Judith, claro. ― Estou de férias, posso trabalhar o dia inteiro. ― Então se dedique apenas ao documentário e ao escritório. Não quero que continue na espelunca à noite. Às vezes, fico até tarde e posso precisar dos seus préstimos. A última parte foi dita com o acompanhamento de um leve sorriso, que, impressão sua ou não, era um sorriso totalmente sacana. Não, Rafe não era sacana; era um arrogante cretino, mas não sacana do tipo que falava sacanagens. Isso não, claro que não, ele era sério até demais. ― Está corada de novo, Sophia? Dou-lhe uma Maserati por seus pensamentos. Era, sim, um sorriso sacana! ― Esse seu arzinho de libertino, Rafe, pode tirando da cara. Eu não vou fazer sexo com você depois do expediente ― Exclamou, irritada até a raiz dos cabelos. Ele nem se abalou. ― E durante? ― Hã? Inacreditável! Rafe Sommers se atirando pra cima dela? Da latina, como ele se referia quase com repulsa?, pensou, abismada. ― Tenho planos pra você. ― Não, não quero ouvir mais nada. ― É algo do seu interesse, Sophia. Ele circundou a mesa e parou diante dela. Havia uma nota de divertimento no olhar e um pouquinho de maldade também. ― O dia que eu fizer sexo com você me mato em seguida. ― disse ela, como se tal sentença o impedisse de falar o que ele se determinou a dizer. Rafe avaliou por um momento o que ouviu. ― Não é assim que as mulheres do Jason reagem? ― Foi sarcástico e, sem esperar por uma resposta, acresceu com arrogância: ― As minhas normalmente continuam amando a vida, amando tudo e amando todos. O Jason destrói as suas mulheres, enquanto eu as entrego a uma vida de prazeres. Ela não conseguia se soltar do olhar azul, sair do oceano que a tragava para si, havia mergulhado fundo sem ao menos notar. ― É, Rafe, ― Por fim, articulou as palavras a meio caminho da porta quando se voltou e declarou: ― é verdade o que dizem: o diabo possui inúmeros disfarces. Mas, com certeza, um pior que o outro. Ele balançou a cabeça em negativo, esboçando um ar divertido, sem, no entanto, voltar a sorrir. ― O diabo quer vê-la aqui, amanhã, a uma da tarde, sem atraso.