Ainda que não fossem íntimos, Sophia conhecia Rafe havia pelo menos uma década e compareceu à cerimônia do segundo casamento dele, que, assim como o primeiro, durou menos de um ano.
Os pais de Rafe culpavam o filho pelo fracasso dos casamentos. Jason apostava na vida de workaholic do irmão, ao passo que Kevin acreditava que ele tentava, a cada nova relação, jogar uma pá de terra sobre alguma ferida do passado ou algo parecido. Pois, nas duas vezes em que se casara, escolhera o mesmo tipo de mulher, modelos da Victoria Secret. Belas e cosmopolitas, que conheciam o mundo e com o estilo de vida que ele próprio tinha. Contudo, assim que o fogo do desejo se apagava, ele voltava a mergulhar no trabalho, e elas, por sua vez, faziam o mesmo, viajando para os desfiles. Judith era implacável nas críticas ao primogênito, acusando-o de não se comprometer de verdade com as mulheres com quem se casava, que ele não levava a sério a instituição do casamento e, que do jeito que a coisa ia, a instabilidade dos seus relacionamentos afetaria a imagem de Rafe como presidente da empresa da família. Uma das arrumadeiras da mansão comentou com Sophia sobre o casal Sommers apostar em Jason como futuro presidente, que bastaria que ele se casasse e, claro, que o casamento durasse mais tempo que os do irmão. Sophia ficou encafifada por Kevin não ser indicado ao cargo. Até que Dona Consuelo, uma das cozinheiras, a chamou num canto e deu a sua opinião: ― O Kevin é gay, e o Sr. Sommers é um republicano de merda. Sophia teve uma crise de riso. ― Não é, não. ― Só porque ele não se assumiu, não significa que não seja. ― O Kevin é bastante discreto quanto à sua vida afetiva. ― Rebateu Sophia. ― Mas tudo bem ser gay. A questão é que ele não pode ser gay nesta família. Ele jamais será o presidente da empresa. ― Ela estalou a língua no céu da boca, balançando a cabeça com pesar. Dona Consuelo não era a primeira a questionar a sexualidade de Kevin Sommers. Fato era que ele exalava uma espécie de magnetismo principesco. Elegante, esguio e cortês. Lindo de morrer, o corpo atlético e o gosto refinado para a moda. Agora, Sophia arrumava sua mesa na primeira tarde de trabalho. Tinha um vasinho com um lindo bonsai. Sorriu ao ver a delicadeza do gesto de Judith e continuou sorrindo ao ler o bilhete que o acompanhava: Querida Sophia, Muito obrigada por se disponibilizar a auxiliar o nosso Rafe. Por favor, tenha paciência com ele. Afinal, nós sabemos que ele mais late do que morde. Beijos, Judith Estava tudo tão calmo naquele andar, um silêncio quebrado apenas pelo barulho suave da neve batendo contra as vidraças, que ela se sentiu tentada a levar a sério o seu trabalho temporário como secretária do senhor olhos de lince. Ligou o laptop e, casualmente, o telefone tocou. Era a secretária que estava lá no dia anterior: ― Boa tarde, Srta. Otero, o Sr. Sommers pediu que lhe repassasse toda a rotina do escritório e a agenda do dia. ― Ela parou de falar, e Sophia escutou o som típico de um sistema operacional em ação; em seguida, a secretária que trabalhava no andar abaixo da presidência continuou: ― Acabei de lhe enviar um e-mail. Sophia olhou aturdida para a tela do laptop. ― Qual é o login e a senha? A máquina aqui se recusa a trabalhar. ― Brincou. A outra, pelo visto, não tinha humor para brincadeiras no escritório. ― São os mesmos usados para abrir o seu e-mail profissional, Srta. Otero. ― Mas eu nem sabia que tinha um e-mail na Sommers Stores... ― Balbuciou, mais perdida que surdo em bingo. A secretária executiva de Jason pigarreou e declarou tentando ocultar o tom de pesar da voz: ― Infelizmente terá de ver isso com o Sr. Sommers. Ele altera as senhas das suas secretárias toda semana. Droga!, pensou, estava indo tudo tão bem. Ela, quietinha na sua sala, e ele... Bem, ele acabava de sair do elevador panorâmico e se encaminhava em direção à própria sala. Porém, foi obrigado a passar pela sala da secretária e vê-la detrás da escrivaninha acariciando um bonsai. Sophia preferia grudar os olhos na planta a ter de encará-lo. Ele não era o seu chefe! Estava lhe fazendo um favor, ora bolas! Um maldito favor. Rafe exalava o cheiro cítrico da colônia pós-barba. Ela arrumou a mecha de cabelo preta e longa detrás da orelha e se concentrou em imaginar quem se responsabilizaria pela poda do bonsai. Ela não fazia a menor ideia de como lidar com aquela bendita planta. Pelo menos não com os olhos sérios, talvez mal-humorados, de Rafe sobre si. Encarou-o diretamente, colando um sorriso no rosto maquiado e com direito a cílios postiços. O diabo estava todo de preto, dos pés ao pescoço, o que incluía naturalmente a gola alta do sobretudo de lã que descia a dois ou três dedos abaixo dos joelhos. Usava luvas de couro da mesma cor, e, nos cabelos úmidos, alguns flocos de neve brilhavam antes de derreter. A pele clara ressaltava o azul dos olhos grandes, os cílios longos também pareciam úmidos, ligeiramente encurvados para cima. Face escanhoada, lábios duros e olhar frio. ― Alguém veio vê-la. ― disse ele, como um robozinho falaria com um ser humano. Deu-lhe as costas e entrou na sua sala. No minuto seguinte, Jason e a sua beleza demoníaca aportaram diante de seus olhos. ― E aí, gata, essa é a legítima cilada de férias, não? ― Ele não a deixou responder, circundou a mesa e a puxou para si, abraçando-a com força até tirá-la do chão. ― O que você está fazendo aqui, no andar do Todo-Poderoso? ― Perguntou ela, sorrindo, apertando-se a ele, os braços enrodilhados em seu pescoço, aceitando o beijo pouco abaixo da orelha. Era impossível não se sentir querida e acarinhada quando estava com Jason. Ele era o típico camarada de bem com a vida, sempre com um sorriso nos lábios e um olhar cheio de sarcasmo. Quem queria uma paixão de arrancar o tampão da cabeça, alucinar e bagunçar totalmente a sua vida devia meter-se com Jason Sommers. Ele era direto, carismático e vivia até as últimas consequências cada caso de amor que irrompia em sua vida, como aqueles vulcões que destruíam cidades. A força da natureza, esse era Jason. Amava até o seu limite, até o céu para, em seguida, mergulhar para o fundo do mar, sozinho e saciado. E a mulher em questão que se danasse, já não o interessava mais. Um dos defeitos em comum dos três irmãos Sommers: a passionalidade efêmera. Apaixonavam-se e se desapaixonavam como se tivessem um botão no cérebro, bastava apertá-lo para o desejo desaparecer e, no lugar dele, a fria indiferença. ― Eu precisava vê-la vestida de secretária do alto escalão, minha artista preferida. ― Jason brincou, rindo muito, ainda abraçado nela. Ele não parecia com vontade de soltá-la, o braço ao redor de seus ombros a trouxe para perto do rosto viril. O calor que se desprendia da pele dele ultrapassava a textura delicada da camisa branca de botões, que cobria parcialmente o terno cinza. ― Ah, só vim para dar uma ajudinha ao Rafe, tenho certeza de que ele logo encontrará uma profissional de verdade para o cargo. ― Claro que sim, é só ele fingir que não é ele. Jason e suas indiretas contra Rafe, pensou Sophia, como se ambos não fossem farinha do mesmo saco. ― Bom, é possível que um dos dois despenque do 30º andar, mas, de minha parte, tentarei ser paciente. ― Ela falou com charme. Ele apertou a sua bochecha com carinho, franzindo o nariz do jeito que o tornava ainda mais lindo na sua loirice debaixo dos cabelos claros cortados em mechas irregulares, encobrindo a nuca e emoldurando um rosto com barba por fazer, imensos olhos cor de âmbar e lábios preparados para serem beijados. ― Se ele passar dos limites, é só me telefonar que corro para salvá-la. Jason falou de um jeito tão sério, que ela teve vontade de rir. ― Não se preocupe, Batman, sei como me defender do senhor olhos de lince. ― Garantiu, dando dois tapinhas no ombro dele. ― Olhos de lince? ― O outro indagou, com um sorriso jocoso. Sophia corou. Não devia ter deixado escapar um dos apelidos que deu a Rafe. ― É que ele não deixa passar nada, é só uma brincadeira. ― Retrucou, sem jeito ― Às vezes o chamo também de boneco cu de neve. Acho que desde quando cheguei à mansão invento apelidos para o Rafe. ― Completou, satisfeita por ver que Jason não ficou ofendido pelo irmão. Ao contrário, se divertiu com a ideia. ― O boneco cu de neve é perfeito! Lembra muito quando ele convoca reuniões para dar bronca no Kevin e em mim. Frieza pura, o cara não se preocupa nem com os demais diretores, parece que adora uma plateia na hora do esporro. ― Ai, que saco, por que não é você o presidente da Sommers Stores? Ao que Jason prontamente respondeu: ― Tive sorte de nascer bem depois do Rafe. Tenho pena dele, o meu pai simplesmente jogou tudo nos ombros do coitado, sabendo que ele é controlador e viciado em trabalho. Imagina, garota linda, você comprar um bar para um irlandês alcoólatra. Bem, foi mais ou menos isso que o meu pai fez ao delegar a presidência a ele. ― Eu sei, tem razão. Esse é o legado de Judith e James, o que eles deixarão a vocês. E o Rafe está expandindo cada vez mais os negócios. Mas parece que ele não vê o quanto deixa os pais orgulhosos. Jason fez uma careta engraçada e disse: ― Tudo isso, digo, a responsabilidade e o excesso de trabalho fazem parte da natureza controladora dele. O meu irmão precisa de poder, se alimenta disso e fica de pau duro toda vez que recebe o balancete anual com os lucros da corporação. Os dois riram, a boa e velha camaradagem de sempre. Era fácil gostar de Jason. Era muito fácil. E de Kevin também. ― Que tal um jantarzinho mais tarde, hein? Antes que respondesse um sim, ouviu a voz severa de Rafe no interfone. ― Se a festinha já terminou por aí, favor começar a trabalhar, Srta. Otero. Ela e Jason se entreolharam antes de caírem na gargalhada. O Sommers mais novo apertou o interfone e respondeu de forma espirituosa: ― Desde quando a Sophia é a “Srta. Otero”, hein, Rafe? ― Vá procurar o que fazer, Jason. Tenho uma reunião logo mais e preciso da Sophia. ― Desferiu, com maus-modos. Jason não deixou barato. ― Você precisa da nossa Sophia? ― Piscou o olho para ela. Ambos se alfinetavam o tempo inteiro. ― Sophia, venha até a minha sala. ― Após breve pausa, completou significativamente: ― Depois de acompanhar o meu irmão até o elevador. Ela olhou para Jason com pesar. ― Hoje é o meu primeiro dia aqui, e ele vai me sobrecarregar de tarefas, então, se der, prefiro jantar com você outro dia. Pode ser? Ele beijou o dorso de sua mão numa reverência antiga. ― Claro que pode, minha lindinha. Você pode tudo comigo. ― Completou, com um sorriso cúmplice. ― Ai, é uma safadeza você ser tão lindo e perfeito. ― Brincou, aceitando o flerte. ― Não esqueça que sou sua irmãzinha querida. Ele a olhou profundamente e um tanto sério, como se avaliasse o que ela havia dito. Ela estranhou aquele olhar e sorriu sem jeito. ― Há quanto tempo está na nossa família? ― O mesmo tempo que a shih tzu de sua mãe, dez anos, Jason. ― Bela comparação a sua! ― Exclamou ele, rindo de repente. ― Tenho outras comparações infelizes dessas, quer ouvir? ― Foi mordaz. Ele ergueu as mãos, rendendo-se aos argumentos dela: ― Não, obrigado. Olha para mim, não sou o Rafe, pode guardar suas armas, sou seu aliado, viu? ― O que tenho de fazer para que você trabalhe, Sophia? A voz grave surgiu detrás deles como um rosnado. Rafe acabava de pegá-los de mãos dadas, próximos demais, de um jeito um tanto suspeito. Ela se sentiu mal. Sabia o que ele pensava sobre as suas más intenções quanto a conquistar o Sommers mais novo. Afinal, para ele, Sophia era uma interesseira. E, merda, agora os pegava quase se beijando. Foi por instinto que se afastou de Jason, que a fitou intrigado e com um leve ar de escárnio no canto dos lábios. ― Eu já estava indo ao seu escritório. ― Justificou-se, alisando a saia colada às coxas. Bom, ela também podia limpar as mãos num avental imaginário ou puxar uma corda invisível ao redor do pescoço. Todos esses gestos revelariam o quanto a presença de Rafe a deixava nervosa. Mas, acima de tudo, em alerta máximo. Ela estava sempre pronta para se defender de Rafe. Jason se voltou para o irmão com um sorriso camarada. ― A culpa é toda minha, Sr. Sommers. Mas já estou me mandando, não esquenta, ok? Rafe lhes lançou um olhar glacial. ― Aqui não é motel. Sophia levou a mão ao peito, surpreendida pelo ataque e, muito mais, pela grosseria da sentença dita. Mas Jason estava por lá. ― Ei, o que você tem? Ele não parecia em nada zangado ou chateado. Pelo contrário, divertia-se com a cara de Rafe, que lançava labaredas de raiva pelos olhos. ― A sua visitinha social já acabou. ― Certo, relaxa, cara! Me dá só o tempo de alertar a Sophia sobre você que já caio fora daqui. ― Falou, num tom de divertimento. Ela olhou para Rafe, que a ignorou. Ele estava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça, sem terno, a gravata torta. Uma veia grossa pulsava no meio de sua testa. ― Já ouviu falar do rodízio dos Sommers? Jason perguntou com naturalidade, e ela não entendeu patavina. ― O quê? Vão abrir uma pizzaria? Rafe se aproximou, colocando-se entre eles, e determinou com seriedade: ― Sophia, você não veio para cá com a ideia de que ficará de pernas pro ar a tarde inteira, não? Será paga pelo seu trabalho, e o mínimo que exijo é um comportamento profissional. ― Voltando-se para o irmão, falou: ― Você está proibido de encher o saco da Sophia enquanto ela estiver trabalhando para mim. Se quer bancar o palhaço, peça demissão da Sommers Stores e entre para o Cirque du Soleil. Sophia e Jason se entreolharam, confusos, tentando interpretar o tom da voz e a intenção da frase dita. Rafe às vezes era uma esfinge que ninguém conseguia decifrar. ― Por acaso você tentou fazer uma piada, meu irmão? Rafe endureceu os maxilares, parecendo desconcertado, as bochechas coraram. Sophia jamais o tinha visto enrubescer, segurou-se para não rir. Visivelmente sem graça, ele declarou, olhando ao redor, menos para o rosto deles: ― Entenda como quiser, só dê o fora do meu andar e me deixa em paz.