Isadora
Minha cabeça ainda estava em cacos. A luz filtrada pelas cortinas da casa de hóspedes parecia uma agressão. Eu não saí da cama o dia todo. O cheiro da camiseta de Rafael e a certeza de que ele havia me despido e dado banho eram humilhações constantes que a amnésia não conseguia apagar totalmente.
Eu repassei cada fragmento de memória quebrado: o riso na boate, a náusea súbita, o corpo pesado. Eu estava acabada, e o pior de tudo, devia minha dignidade (ou o que restava dela) ao homem que eu mais precisava manter distante. Eu não me lembrava o que contei a ele.
Eu estava decidida a desaparecer quando a campainha tocou.
Droga. Quem mais viria me confrontar?
Abri a porta, e lá estava ele. Eduardo. Sempre radiante, sempre fácil de olhar, o oposto exato da tensão que me consumia.
— Bom dia, Isa! Ou melhor, boa noite — ele brincou. — Pensei que estivesse em coma. Posso entrar?
Eu o deixei entrar, resignada. Ele preencheu a sala com sua alegria discreta, o que era um alívio apó