Anny
Descobri que, na gravidez, até um pacote de biscoito pode virar ameaça. Era fim de noite, a enfermeira tinha acabado de sair, e eu sentia aquela fome chata que não é de refeição, é de beliscar alguma coisa. Lembrei de um pacote de biscoito que ela tinha guardado no armário mais alto, “para não enjoar de tudo à vista”, segundo ela.
Levantei devagar da cama. O corpo já estava pesado, mas eu odiava pedir ajuda para tudo.
— “É só pegar e voltar.” — pensei.
Abri o armário de baixo, depois o do meio. O pacote estava lá em cima, bem no fundo. Fiquei na ponta dos pés, estiquei o braço. A ponta dos dedos encostou no plástico, mas não foi o suficiente.
Olhei ao redor.
A cadeira ficava a poucos passos de distância. Arrastei para perto, subindo com cuidado. Um pé, depois o outro. Segurei na lateral do armário para ganhar equilíbrio.
— Só mais um pouquinho.
Estiquei o corpo, sentindo a camisola puxar um pouco sobre a barriga. Quase alcancei. Nesse “quase”, o mundo resolveu lembrar que eu nã