Ana manteve o olhar em Kali enquanto lhe dava a última colherada do café. O mingau já não estava tão quente, e a criança aceitava a comida com aquela seriedade concentrada que sempre a fazia sorrir, mesmo quando não estava exatamente de bom humor. Era um gesto comum, repetido todos os dias, e, ainda assim, naquela manhã, havia algo fora do lugar.
Ela sentia.
Não precisava olhar para saber que Natan estava por perto.
A presença dele tinha esse efeito estranho: não ocupava espaço com barulho, mas com atenção. Próximo o bastante para ser percebido. Distante o suficiente para parecer casual.
Ana continuou sem levantar os olhos.
Fingir normalidade parecia, naquele momento, o caminho mais seguro.
Falou baixo com Kali, limpou-lhe a boca com o pano, ajeitou o babador com um cuidado quase excessivo. Os movimentos vinham automáticos, precisos, como se o corpo soubesse exatamente o que fazer quando a mente preferia não acompanhar.
— Pronta, pequena? — murmurou.
Levantou-se sentin