A primeira coisa que Ana sentiu foi o silêncio.
Não o silêncio absoluto, esse não existe, mas aquele silêncio denso, pesado, que vibra no ar como se algo tivesse acabado de acontecer… e ainda estivesse ali. O quarto estava mergulhado numa penumbra suave, cortada apenas pela claridade que entrava pelas frestas da cortina.
Ela piscou devagar.
O lençol estava diferente. O cheiro também.
Foi então que o coração acelerou.
Ana se sentou de súbito, o corpo reclamando num desconforto surdo, suportável, mas presente. Havia um peso diferente em seus músculos, uma sensibilidade que não reconhecia, uma consciência nova de cada movimento. O lençol escorregou um pouco, e foi nesse gesto simples que a memória se acendeu inteira.
O quarto não era o dela.
O colchão era maior. A cabeceira mais larga. O relógio sobre o criado-mudo não era seu.
Era o quarto de Natan.
O ar pareceu faltar.
Antes que pudesse organizar qualquer pensamento, um som seco ecoou no corredor, uma batida de port