Giulia Moretti
Respirei fundo antes de responder.
Aquela pergunta não era apenas curiosidade. Era um teste. Matteo Mancini não queria saber por que eu precisava do trabalho — queria saber até onde eu iria por ele.
Abri a bolsa com cuidado e retirei a fotografia já um pouco gasta. Coloquei-a sobre a mesa entre nós, como se fosse um escudo e, ao mesmo tempo, uma confissão.
— Minha mãe está doente — expliquei. — O tratamento é caro. Eu preciso mantê-la viva.
Ele não tocou na foto de imediato. Observou em silêncio, como se estivesse avaliando mais do que a imagem. Quando finalmente baixou o olhar, algo diferente atravessou seu semblante. Não era compaixão. Era reconhecimento.
— Qual a condição dela? — perguntou, sem suavizar a voz.
— Coração fraco — respondi. — E agora os rins. Ela faz hemodiálise enquanto espera por um transplante. O plano de saúde está por um fio.
Ele assentiu lentamente, absorvendo a informação.
— E você acredita que este emprego é sua única saída.
— Acredito que é uma oportunidade — corrigi. — E que posso fazer a diferença para seus filhos.
Os olhos dele voltaram para mim. Avaliadores. Penetrantes.
— Você faria qualquer coisa por ela? — perguntou.
— Qualquer coisa honesta — respondi. — Sem me perder no processo.
Um leve silêncio se instalou. Matteo se recostou no sofá, cruzando os braços. A postura relaxada não enganava. Ele continuava no controle.
— Você não faz ideia de quem eu sou — disse.
— Sei que o senhor é um homem influente — respondi. — E que carrega responsabilidades grandes demais para serem leves.
Um canto da boca dele se curvou, quase imperceptível.
— Influente é uma palavra educada.
— Então vou chamá-lo de exigente — repliquei.
Ele me encarou por longos segundos. Eu sustentei. Não por coragem. Por necessidade.
— Sete filhos — ele retomou. — Quatro adolescentes. Três pequenos. Cada um com uma personalidade difícil de lidar.
— Crianças difíceis costumam ser crianças feridas — observei.
— Elas não precisam de terapia — respondeu, seco. — Precisam de ordem.
— Ordem sem vínculo não dura — rebati. — E vínculo não se impõe.
Ele se inclinou para frente novamente.
— Está dizendo que sabe mais do que eu sobre meus próprios filhos?
— Estou dizendo que ninguém nasce sabendo ser pai — respondi. — Assim como ninguém nasce pronto para cuidar do que dói nos outros.
O silêncio voltou a se expandir, pesado. Matteo se levantou mais uma vez e caminhou lentamente pela sala. Cada passo parecia calculado.
— Regime interno — disse. — Você ficará nesta casa. Terá horários rígidos. Não fará perguntas sobre minha vida. Não se envolverá em assuntos que não lhe dizem respeito.
— E se algo disser respeito às crianças? — perguntei.
Ele parou diante de mim.
— Nesse caso, você fala comigo. Apenas comigo.
Assenti.
— Segurança constante — continuou. — Você será acompanhada. Sempre.
— Isso é proteção ou vigilância? — questionei.
— Ambas — respondeu, sem hesitar.
O coração bateu mais forte, mas mantive o rosto neutro.
— Não sairá sem autorização — acrescentou. — Nem criará vínculos que ultrapassem o necessário.
— Isso é impossível — disse. — Crianças não funcionam sob limites emocionais artificiais.
— Eu funciono — ele rebateu.
Sustentei o olhar.
— Talvez seja por isso que precise de alguém que funcione diferente.
Por um instante, achei que ele encerraria tudo ali. Em vez disso, Matteo Mancini soltou uma breve risada sem humor.
— Você fala demais para alguém que precisa tanto deste trabalho.
— Falo o suficiente para ser honesta — respondi. — Se isso me custar a vaga, aceito.
Ele me observou como se estivesse decidindo algo maior do que uma simples contratação.
— Você começa amanhã — disse, por fim.
Demorei um segundo para entender.
— Como é?
— Amanhã — repetiu. — Um período de experiência. Uma falha, e você sai.
— Entendido — respondi, sentindo o alívio misturado ao medo.
Ele se aproximou até ficar perto demais. O perfume amadeirado dele invadiu meus sentidos. Autoridade pura.
— Saiba de uma coisa, Giulia Moretti — disse, em tom baixo. — Quem entra nesta casa… não sai ileso.
Engoli em seco, mas não desviei o olhar.
— Eu não vim para sair ilesa — respondi. — Vim para fazer o que é certo.
Ele me observou por mais alguns segundos, então se afastou.
— Veremos — murmurou.
Matteo Mancini saiu da sala sem olhar para trás.
Fiquei ali, sozinha, com o coração acelerado e a certeza incômoda de que aquela entrevista não tinha sido apenas o começo de um emprego.
Tinha sido o primeiro passo rumo a algo muito maior.
E muito mais perigoso.