Giulia Moretti
Eu aceitei aquela entrevista porque precisava do dinheiro.
Não porque queria.
Enquanto o carro avançava lentamente pelos portões de ferro negro, tive a estranha sensação de estar cruzando uma fronteira invisível. Não era apenas uma casa. Era um limite. Um lugar onde regras diferentes existiam — e onde eu não as conhecia.
A mansão Mancini se erguia à minha frente como um território conquistado. Jardins impecáveis, simétricos demais para serem acolhedores. Estátuas de pedra pareciam observar cada movimento meu, imóveis e vigilantes. Os seguranças espalhados pelo caminho eram discretos, mas atentos demais para serem apenas funcionários comuns.
Apertei a alça da bolsa contra o corpo.
Dentro dela estavam meus documentos, minhas referências… e a foto da minha mãe. Maria Moretti. O sorriso fraco, os olhos cansados demais para alguém que sempre foi forte. Cardíaca desde jovem. Agora, com os rins comprometidos, dependente de hemodiálise enquanto aguardava, com pouca esperança, um transplante. O plano de saúde estava por um fio.
Era por ela.
Sempre foi por ela.
O motorista abriu a porta sem dizer uma palavra. Agradeci com um aceno breve, tentando manter a postura apesar das mãos frias. O ar parecia mais denso ali dentro, como se a própria casa respirasse autoridade.
Fui conduzida por uma mulher elegante, de postura impecável e passos silenciosos. O som dos meus sapatos ecoava pelo chão de mármore claro, denunciando cada avanço meu. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhuma cor que convidasse ao conforto.
— O senhor Mancini já vai recebê-la — informou ela, com um leve aceno de cabeça.
Senhor Mancini.
Não perguntei nada. Aquele não era o tipo de lugar onde perguntas vinham antes de permissão.
A sala de estar era ampla, dominada por janelas altas e cortinas pesadas. A decoração era sóbria, masculina, fria. Tudo exalava controle. Respirei fundo, tentando acalmar o coração que insistia em acelerar.
Foi então que ele entrou.
Matteo Mancini não precisou dizer uma palavra para dominar o ambiente.
Ele simplesmente existia.
Alto, ombros largos, terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo. O cabelo negro estava penteado para trás, revelando um rosto marcado por linhas firmes. Mas eram os olhos que prendiam — escuros, avaliadores, frios. Ele não me olhava como alguém curioso. Olhava como quem mede riscos.
Senti um arrepio que percorreu minha espinha, inesperado e desconfortável.
— Giulia Moretti — disse ele, sem perguntar. — Sente-se.
Obedeci, mas não me senti diminuída. Apenas observada. Exposta.
Ele se acomodou à minha frente, cruzando os dedos sobre a mesa baixa. Um relógio caro brilhava discretamente em seu pulso. Tudo nele falava de poder silencioso.
— Você veio indicada — começou. — Não costumo contratar estranhos.
— Também não costumo aceitar qualquer proposta — respondi, antes que o receio me calasse.
Os olhos dele se estreitaram por um instante quase imperceptível.
Ótimo, Giulia. Começou bem.
— Mesmo assim, está aqui — retrucou.
— Porque preciso trabalhar. E porque sou boa no que faço.
O silêncio se instalou pesado entre nós.
Ele me analisou como se estivesse tentando enxergar além do que eu mostrava. Já havia enfrentado entrevistas difíceis, mas aquilo não era sobre currículo. Era sobre resistência.
— Sete crianças — disse, por fim. — Você leu o anúncio.
— Li.
— Não perguntou idades. Nem o motivo de tantas babás terem desistido antes?
— Porque crianças não são o problema — respondi. — Adultos costumam ser.
O maxilar dele se contraiu levemente.
— Está me chamando de problema, signorina Moretti?
Levantei o queixo.
— Estou dizendo que crianças refletem o ambiente em que vivem. Se existe caos, não é culpa delas.
Ele se levantou com calma calculada. Apenas aquele movimento fez a sala parecer menor. Caminhou até a janela, como se buscasse paciência no jardim perfeitamente alinhado.
— Minhas regras são simples — disse, de costas para mim. — Disciplina. Horários. Obediência.
— E afeto? — perguntei, antes de conseguir me conter.
Ele se virou de forma abrupta.
— Afeto não está no contrato.
— Talvez seja por isso que nenhuma ficou — retruquei, sentindo o coração acelerar.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Pensei que ele encerraria a entrevista ali mesmo. Em vez disso, Matteo Mancini sorriu.
Não foi um sorriso gentil.
Foi um aviso.
— Você não é submissa — constatou.
— Não, senhor.
— Não tem medo de perder o emprego antes mesmo de começar?
— Tenho medo de muitas coisas — respondi. — Mas não de dizer a verdade.
Ele voltou a se sentar, agora mais próximo.
— Por que quer esse trabalho, Giulia Moretti?
A pergunta não soou profissional. Soou pessoal.
E eu soube que aquela era a parte mais perigosa da entrevista.