O teto da biblioteca da Royal Academy era tão alto que as sombras pareciam morar lá em cima, observando quem se atrevia a quebrar o silêncio sagrado entre as estantes de mogno. O cheiro era uma mistura densa de poeira antiga, couro curtido e o aroma levemente metálico da tinta de séculos passados. Para a maioria dos estudantes, aquele era um lugar de estudo e prestígio. Para mim, naquela tarde, parecia um labirinto de segredos onde cada estalo da madeira era um aviso.Eu sentia o peso do caderno azul na minha bolsa, batendo contra o meu quadril a cada passo. Sophie me dissera para ir à seção de manuscritos, no subsolo, um lugar onde a luz do sol de Londres — quando existia — nunca chegava. Eu desci a escadaria em caracol, sentindo o ar ficar mais frio e úmido. Meus dedos estavam gelados, e eu os esfregava nervosamente no meu cardigã.Eu não conseguia tirar o rosto de Theo da cabeça. Aquela voz distorcida pelo rádio, vinda dos Alpes, tinha se tornado meu único oxigênio. Sol maior.
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