Paraty, Rio de Janeiro. Dez anos depois. O som das ondas batendo suavemente no cais de pedra da cidade velha era o único metrônomo de que eu precisava agora. O ar aqui era diferente — denso, com cheiro de mar e de flores de primavera que teimavam em nascer entre as frestas das calçadas coloniais. Eu caminhava devagar, sentindo o peso familiar e reconfortante da sacola de lona no meu ombro. Dentro dela, não havia mais documentos secretos ou microfilmes. Apenas pão fresco, algumas frutas e um caderno de partituras novo.Eu já não usava mais o cardigã cinza. No seu lugar, um vestido de algodão leve, de um azul que lembrava o mar calmo. Minha postura não era mais a de quem pedia desculpas por existir; eu ocupava o meu espaço com uma calma que levei uma década para construir. Para os moradores da vila, eu era apenas a "professora Clara", a mulher reservada que dava aulas de piano para as crianças da comunidade e que vivia em um sítio escondido entre as montanhas e o oceano.Subi a tril
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