Ana demorou alguns segundos diante da porta entreaberta antes de entrar. O quarto de Kali estava em penumbra, iluminado apenas pela luz fraca do corredor. O silêncio era profundo, interrompido apenas pela respiração leve da criança. Ela avançou com passos cuidadosos, atentos demais para alguém acostumada a se mover ali. Foi então que viu. Natan estava na cama de apoio, de lado, o braço dobrado de modo a proteger Kali, que dormia aninhada perto do peito dele. O tablet repousava apagado sobre a mesa lateral. Tudo indicava que ele não havia planejado ficar ali a noite inteira, apenas ficara. Ana parou. Havia algo inesperadamente sereno na cena. O corpo dele, geralmente tão rígido, parecia relaxado de um jeito raro. As feições, livres do controle habitual, deixavam à mostra uma beleza menos dura, mais humana. O cabelo desalinhado, a barba por fazer, a expressão tranquila de quem cedeu ao cansaço. Ela não se aproximou de imediato. Ficou ali, observando, como se temesse quebrar algo
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