A casa parecia diferente sem pessoas circulando. Não vazia, apenas atenta. Ana percebeu isso logo ao acordar, antes mesmo de abrir os olhos. O silêncio não vinha da ausência absoluta de som, mas da falta de interferência. Nenhuma porta abrindo, nenhuma conversa baixa ao fundo, nenhum ruído cotidiano que amortecesse a própria presença. Ela se sentou na cama e respirou fundo. Vestiu-se devagar, escolhendo peças simples, práticas. Nada que chamasse atenção. Nada que pudesse ser lido como descuido ou intenção. Prendeu o cabelo, calçou sapatos baixos e organizou a bolsa com o mesmo cuidado que organizava pensamentos quando precisava manter o controle. Desceu as escadas em silêncio. Natan já estava acordado. Ele estava na cozinha, de costas, café servido, celular em mãos. A postura era a mesma de sempre: ereta, contida, funcional. Não havia sinal visível da noite anterior fora de um cansaço discreto no modo como sustentava os ombros. Ana parou a alguns passos de distância.
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