Ele tirou os olhos do foco por um instante e os monitores pareciam multiplicar-se diante dele — uma constelação de números, gráficos e alertas que não cedia. Havia, naquele fluxo digital, algo de consolador, uma ordem que era sempre previsível: padrões que se repetiam, dinheiro que entrava e saía com a cadência exata de uma maré. Ali, naquele retângulo de vidro e metal, havia uma lógica que ele compreendia sem esforço, um terreno firme em que medir perdas e ganhos fazia sentido. O escritório era o único santuário que o pertencia desde a primeira herança; ali, entre relés e telas, ele encontrava o consolo de quem controla. Porém, nas últimas vinte e quatro horas, esse controle esvaíra como fumaça.Passara o dia inteiro enclausurado, as cortinas corridas, as luzes artificiais acesas para proteger os olhos daquela paisagem que lembrava fragilidade — a vida doméstica, a mulher que dormira no quarto ao lado, as interações que escapavam ao seu entendimento. Ana, diligente e paciente, oferec
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