Meu estômago ronca quando desço as escadas na hora marcada. O som é baixo, mas dentro desse silêncio absoluto parece um trovão. Cada passo ecoa na minha consciência, e por um instante sinto que estou marchando rumo a algo que não escolhi. Há uma solenidade mórbida no ar, como se a casa inteira me observasse em silêncio, ciente do que me aguarda.
A lembrança da conversa com Felicia ainda lateja dentro de mim como uma ferida mal cicatrizada. “Seu marido permitiu que você saísse do quarto.” Essas palavras voltam em ecos cruéis.
Permissão.
Como se eu fosse uma posse, uma peça pertencente a ele, sem direito à própria vontade. Fico com raiva dele, dela, e de mim mesma por aceitar calada.
A visita de quinze minutos ao meu pai não cumpre o que me prometeu. Não foi consolo, foi tortura. Ele vem, fala pouco, observa muito. Há culpa nos olhos dele, mas também uma rendição silenciosa. O homem que um dia me inspirou coragem agora é apenas mais um prisioneiro dentro desta casa com a diferença de