Há coisas que me acalmam porque pertencem a um lugar íntimo da rotina como dirigir, para mim, é uma delas. Hoje, recusei a oferta do meu motorista de assumir o volante não por desdém, mas por necessidade de silêncio próprio. Ele sentou-se no banco ao meu lado, silencioso como sempre, imóvel como uma sombra que antecipa qualquer movimento.
A presença dele era mais do que a de um condutor, Francisco não é apenas o homem que guia o carro, é o homem que me conduziu de volta à vida quando tudo prometia ruir. A memória daquele dia ainda tem a intensidade de um ferimento recente: a explosão, os escombros, o desespero que me arrastava como maré. Foi ele quem correu para dentro do prédio enquanto eu, meio inconsciente, tentava rastejar para fora. Se o destino tivesse sido um pouco menos benigno, talvez eu não tivesse mais esta noite para recordar.
— Eu vou acompanhá-lo, senhor ele anuncia, desabotoando o cinto com a mesma naturalidade com que executa ordens que considera vitais. Não há quest