Acordei antes do sol nascer, como sempre. O silêncio do quarto era tão pesado quanto as paredes frias da mansão que me aprisionava. Ao meu lado, Gabriel permanecia imóvel, o corpo alto e másculo estendido sobre os lençóis brancos de linho, como uma estátua esculpida em mármore. A respiração dele era tranquila, ritmada, mas eu nunca a senti acolhedora. Era como se até dormir fosse para ele um ato de controle.O maxilar definido, sempre tenso, não se suavizava nem em sonhos. Os cabelos pretos, curtos e disciplinados, emolduravam o rosto que tantas mulheres provavelmente chamariam de perfeito. E, de fato, Gabriel Vasconcellos era belo. Belo e intocável. Aqueles olhos verdes, quando abertos, tinham a frieza do gelo que nunca derrete, e foi essa frieza que moldou o meu casamento.Virei o rosto, tentando afastar o nó que se formava na garganta. Passei os pés descalços pelo chão frio de mármore e me levantei. Puxei o robe de seda carmim sobre os ombros e me encarei no espelho da penteadeira.
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