Mundo de ficçãoIniciar sessãoO prédio da Vasconcellos Group tinha o ar de uma fortaleza de vidro. Elevadores espelhados, recepção revestida de mármore e funcionários que andavam apressados como se carregassem o mundo dentro das pastas. Eu não gostava de ir até lá, mas naquela manhã não tive escolha. Gabriel havia esquecido alguns documentos em casa e pediu que eu os entregasse em mãos. Ou melhor, ele não pediu. Ordenou, como fazia com tudo.
Entrei no saguão vestindo um vestido azul simples, os cabelos soltos caindo sobre os ombros, tentando parecer confiante em um ambiente que nunca me pertenceu. O olhar dos funcionários me atravessava como lâminas afiadas. Alguns sorriam educados, outros apenas desviavam rápido, como se eu fosse invisível ou, pior, um erro. Eu já conhecia aquele julgamento silencioso. Era como se todos soubessem que eu não passava de uma sombra na vida de Gabriel.
O elevador me levou até o último andar. As portas se abriram revelando o andar executivo, silencioso demais para a quantidade de pessoas que circulava ali. E foi então que eu a vi: Patrícia.
A secretária de Gabriel. Loira platinada, cabelos lisos e impecáveis, salto alto que batia firme contra o piso, e um sorriso que não se apagava nem quando não havia motivo para sorrir. O tipo de mulher que exalava confiança e sedução em cada movimento. Ela me encarou com aquele mesmo sorriso, mas havia algo escondido nele, algo que queimava.
— Senhora Vasconcellos… — disse, com um tom doce demais para ser sincero. — Que surpresa vê-la por aqui.
A forma como ela pronunciou meu sobrenome me incomodou. Era como se dissesse que eu o carregava por empréstimo, como se fosse apenas questão de tempo até que me fosse retirado. Entreguei os documentos sem responder ao comentário, tentando manter a compostura.
Ela recebeu o envelope, os dedos bem-manicurados roçando de propósito nos meus. Afastou-se com um sorriso enviesado e bateu de leve na porta do escritório de Gabriel, entrando sem pedir permissão. Fiquei parada no corredor, ouvindo a voz dela do outro lado da porta, clara demais, doce demais. A risada baixa que ecoou em seguida não deixou dúvidas.
Respirei fundo, lutando contra o impulso de arrombar a porta e exigir respostas. Em vez disso, sentei em uma das cadeiras de couro próximas, esperando. As pessoas que passavam me olhavam com curiosidade mal disfarçada. Algumas cochichavam.
Foi então que ouvi. Duas funcionárias, paradas no canto do corredor, conversavam baixo, mas não baixo o bastante.
— Coitada… nem sei por que ainda insiste em aparecer.
O sangue subiu à minha cabeça, e por um instante tive a sensação de que o chão desapareceria sob meus pés. Apertei o tecido do vestido entre as mãos, tentando não deixar que a raiva transbordasse. Era assim que eles me viam. Era assim que o mundo me via: como um peso, um acessório descartável.
A porta do escritório se abriu e Patrícia saiu, segurando os documentos como se fossem troféus. Ao passar por mim, inclinou-se ligeiramente e sussurrou, sem perder o sorriso.
— Não se preocupe, senhora Vasconcellos. Eu cuido muito bem dele.
Aquela frase ficou martelando dentro de mim, mais forte que todos os cochichos. Era um aviso, uma provocação, talvez até uma promessa. E, pela primeira vez, percebi que a dor que eu carregava não era só consequência da frieza de Gabriel. Havia mãos alimentando essa distância, sorrisos venenosos prontos para tomar o que ainda restava do que eu chamava de meu.
Senti o coração bater rápido, a respiração curta, e a certeza de que, naquela empresa de vidro e aço, eu era apenas uma intrusa. Uma intrusa que todos esperavam ver cair.
E enquanto me levantava para ir embora, um arrepio percorreu minha pele. Talvez eles não estivessem apenas sussurrando boatos. Talvez houvesse verdades escondidas demais atrás daquelas portas.







