Mundo de ficçãoIniciar sessãomesa estava perfeitamente arrumada, como sempre. Taças de cristal alinhadas, talheres de prata que refletiam a luz amarelada do lustre, guardanapos dobrados como se fossem pequenas esculturas. Tudo era pensado para impressionar, mas nada transmitia calor. Era só cenário, uma vitrine da vida que eu levava.
Sentei-me no meu lugar, na lateral, e observei Gabriel acomodar-se à cabeceira. Ele nunca aceitava sentar-se ao meu lado, como se até a posição dos lugares tivesse de manter a distância que nos separava. O paletó escuro moldava seus ombros largos, e o primeiro botão da camisa branca estava aberto, revelando parte da clavícula. O cabelo preto, curto e alinhado, parecia desafiar a noite a bagunçá-lo. Ele estava sempre perfeito, sempre no controle, até mesmo quando o silêncio nos devorava.
Peguei os talheres com cuidado e cortei a carne no prato. O cheiro do vinho tinto recém-servido subia da taça, mas era como se nada tivesse sabor. Olhei para ele, esperando que ao menos me notasse. Seus olhos verdes, intensos como pedras preciosas, não se levantaram do prato. Era como se eu fosse invisível até mesmo em nossa própria casa.
— O jantar está bom — arrisquei, a voz baixa demais, quase engolida pelo som das chamas na lareira.
Ele ergueu a cabeça por um breve instante, apenas para acenar em concordância, antes de retornar a atenção à comida.
Mordi o lábio inferior, reprimindo a vontade de perguntar por que ainda estávamos casados se eu parecia tão dispensável. Engoli a pergunta junto com o pedaço de carne e tentei de novo.
— Poderíamos viajar no próximo mês. Talvez um fim de semana no litoral. Seria bom respirar um pouco fora daqui.
Gabriel pousou os talheres no prato, o movimento preciso, calculado. Endireitou-se na cadeira e me encarou, e por um momento a força daquele olhar quase me fez esquecer a frieza que vinha junto.
— Eu não tenho tempo para isso, Isabella. Distrações não fazem parte da minha vida.
A frase foi tão cortante que precisei abaixar os olhos para que ele não percebesse como me atingiu. Brinquei com o guardanapo entre os dedos, sentindo a seda escorregar pela pele, tentando disfarçar o aperto no peito. O jantar seguiu em silêncio, um silêncio que gritava mais alto que qualquer discussão.
Então o celular vibrou sobre a mesa. O som metálico contra o tampo de madeira quebrou o ar pesado da sala. Gabriel o pegou sem hesitar, leu a tela e levantou-se sem ao menos pedir licença.
— Preciso atender.
Fiquei sozinha à mesa, encarando a taça de vinho. O reflexo distorcido da minha imagem me encarava de volta, e a sensação era de que eu já estava acostumada a ser deixada para trás. Mas, naquela noite, algo em mim se recusou a aceitar a indiferença.
Levantei devagar, os saltos do sapato ecoando pelo chão de mármore enquanto seguia o som distante da voz dele. Os corredores da mansão eram longos demais, frios demais, e o coração batia forte no meu peito. A porta do escritório estava entreaberta, e me aproximei devagar, prendendo a respiração.
A voz dele era diferente. Mais suave. Mais íntima. Não era o tom de negócios que ele usava comigo ou com os sócios. Havia algo ali que não era meu, e talvez nunca tivesse sido.
Foi quando ouvi claramente o nome. Um nome de mulher.
O sangue gelou em minhas veias, e de repente tudo pareceu se encaixar. O silêncio, o desprezo, o olhar que nunca me pertencia. Eu não era apenas invisível. Eu estava sendo apagada, substituída sem nem perceber.







