Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite parecia interminável. O escritório ainda tinha o cheiro da pasta de couro que ele havia arrancado das minhas mãos, e cada segundo depois daquele choque parecia mais pesado do que o anterior. Eu deveria ter ido embora, me trancado no quarto e fingido que nada aconteceu, como sempre fiz. Mas havia algo dentro de mim, uma chama acesa pelo medo e pela indignação, que não me deixava recuar.
Voltei para a sala. Gabriel ainda estava ali, sentado na poltrona de couro, a pasta agora guardada em alguma gaveta trancada, mas a expressão continuava a mesma: fria, distante, impenetrável. Ele não me olhou quando entrei. Continuou folheando alguns papéis como se o mundo ao redor não importasse.
— Preciso de uma resposta — falei, a voz firme apesar da garganta apertada. — Você pretende se divorciar de mim?
Ele ergueu os olhos lentamente, verdes e duros como vidro. Um silêncio cortante se instalou entre nós, e naquele instante percebi que a resposta já estava escrita na expressão dele, mas eu precisava ouvir. Precisava que ele dissesse em voz alta para não restar espaço para ilusões.
— Fale, Gabriel. — Dei um passo à frente, sentindo o coração bater forte contra as costelas. — Preciso que seja claro.
Ele pousou os papéis sobre a mesa, descruzou os braços e me encarou de um jeito que fez meu estômago se contrair.
— Você nunca deveria ter sido minha esposa.
As palavras saíram cruas, sem hesitação, e cortaram o ar entre nós como lâminas invisíveis. Por um segundo, pensei que não tivesse ouvido direito. Mas o silêncio dele, sólido como uma sentença, confirmou cada letra.
— Como… como pode dizer isso? — minha voz saiu baixa, trêmula.
Ele se levantou devagar. O movimento foi calculado, imponente, e a diferença da nossa altura pareceu se multiplicar. De perto, o rosto dele era ainda mais cruel: o maxilar marcado, os olhos faiscando com uma frieza que me fez estremecer.
— O que tivemos nunca foi o que você imaginou, Isabella. — O tom dele era quase clínico, como se falasse de negócios. — Você foi uma escolha conveniente. Um acordo que serviu a um propósito. Nada além disso.
— Conveniente? — soltei um riso amargo, as lágrimas já turvando minha visão. — Eu abandonei a minha vida para estar ao seu lado. Abri mão de sonhos, de amizades, da minha liberdade. E você chama isso de conveniência?
— Você não entende. — Ele passou a mão pelos cabelos negros, como se buscasse paciência. — No meu mundo, nada é feito por emoção. Tudo é estratégia.
— Então eu fui apenas uma estratégia? — perguntei, sentindo o peito arder.
— Foi o que você sempre foi.
A dor se espalhou pelo meu corpo como fogo. Cada lembrança — o altar, as noites em silêncio, as esperanças de um futuro que nunca veio — se transformou em cinzas diante das palavras dele.
— Gabriel, olhe para mim. — Minha voz falhou, mas não recuei. — Diga que em nenhum momento você sentiu nada. Nem uma vez sequer.
Ele me encarou, e naquele olhar eu procurei qualquer sinal de humanidade, de arrependimento, de amor escondido. Mas tudo o que encontrei foi uma muralha.
— Sentir é um luxo que não posso me permitir.
Essas palavras me atingiram mais do que a própria confissão. O homem que dividia a cama comigo todas as noites nunca me pertenceu. Nunca houve espaço para mim na vida dele.
O silêncio que se seguiu foi insuportável. O ar parecia preso dentro dos meus pulmões, e por mais que eu respirasse, não era suficiente. Olhei ao redor, buscando apoio em qualquer coisa na estante repleta de livros, no quadro caro pendurado na parede, até mesmo no abajur que ainda projetava sombras sobre a mesa. Mas nada me sustentava.
— Então por que me manter aqui? — perguntei, a voz embargada. — Por que me prender a você se já decidiu que eu nunca deveria ter sido sua esposa?
Ele desviou o olhar por um instante, o que foi raro, mas não demorou a recuperar a firmeza.
— Porque ainda serve a um propósito.
Foi a gota final. Senti meu corpo vacilar, as pernas ameaçando ceder. Apoiei a mão na beira da mesa para não cair. O chão sob meus pés parecia instável, como se pudesse se abrir a qualquer momento.
As lágrimas escorriam em silêncio, e eu não me importei em escondê-las. A cada palavra dele, o castelo de areia que eu insisti em manter de pé desmoronava. Eu já não sabia se chorava pela perda do que nunca tivemos ou pela coragem tardia de finalmente enxergar.
Ele permaneceu imóvel, como se nada daquilo tivesse importância. E foi nesse contraste, a minha dor exposta contra a indiferença dele que percebi que o chão, de fato, havia desabado sob meus pés.







