Mundo de ficçãoIniciar sessão
Acordei antes do sol nascer, como sempre. O silêncio do quarto era tão pesado quanto as paredes frias da mansão que me aprisionava. Ao meu lado, Gabriel permanecia imóvel, o corpo alto e másculo estendido sobre os lençóis brancos de linho, como uma estátua esculpida em mármore. A respiração dele era tranquila, ritmada, mas eu nunca a senti acolhedora. Era como se até dormir fosse para ele um ato de controle.
O maxilar definido, sempre tenso, não se suavizava nem em sonhos. Os cabelos pretos, curtos e disciplinados, emolduravam o rosto que tantas mulheres provavelmente chamariam de perfeito. E, de fato, Gabriel Vasconcellos era belo. Belo e intocável. Aqueles olhos verdes, quando abertos, tinham a frieza do gelo que nunca derrete, e foi essa frieza que moldou o meu casamento.
Virei o rosto, tentando afastar o nó que se formava na garganta. Passei os pés descalços pelo chão frio de mármore e me levantei. Puxei o robe de seda carmim sobre os ombros e me encarei no espelho da penteadeira. O reflexo me mostrou uma mulher que eu mal reconhecia.
Meus cabelos castanhos-escuros caíam em ondas até o meio das costas, mas já não tinham o mesmo brilho de antes. Minha pele clara, marcada pelas noites em claro, parecia quase translúcida à luz fraca que escapava pelas cortinas. Os olhos cor de mel, que já foram cheios de vida, agora carregavam a sombra de quem aprendeu a engolir lágrimas em silêncio. Eu era bonita, sim, mas não para ele. Não mais.
Naquela noite, uma festa de negócios nos aguardava. Vesti um vestido vermelho — ousado o suficiente para me fazer sentir viva, discreto o bastante para não ser acusada de provocar escândalos. Caminhei ao lado de Gabriel até o salão iluminado, mas foi como se tivéssemos chegado separados.
Ele usava um terno negro impecável, gravata ajustada, sapatos que refletiam a luz do lustre. Estava perfeito, como sempre, carregando em cada gesto a postura de um homem que sabia comandar o mundo. Todos os olhares se voltavam para ele, todos queriam cumprimentá-lo, ser vistos com ele. E eu… eu estava ali apenas como um detalhe borrado no fundo da cena.
Cumprimentos, risos, taças de champanhe tilintando. Eu observava enquanto Gabriel se inclinava para falar com investidores, trocava apertos de mão, encantava os convidados com sua eloquência. E, em momento algum, ele me puxou para perto. Em momento algum, pronunciou meu nome. Não disse “essa é minha esposa”. Não disse “essa é Isabella”.
Eu era uma sombra ao seu lado. Invisível.
Engoli a amargura em silêncio, tentando me convencer de que era apenas a pressa, apenas distração. Mas não era. Não podia ser. O jeito como ele evitava me reconhecer em público não era descuido. Era deliberado. Uma escolha calculada, assim como todas as escolhas que Gabriel Vasconcellos fazia.
E então, no meio daquele salão dourado, entre risos que não eram meus e olhares que nunca me pertenciam, uma certeza amarga se instalou no meu peito. Não era só frieza. Não era apenas orgulho.
Era segredo.
E, por um instante, eu tive a sensação de que meu casamento nunca tinha sido real — eu era apenas uma peça em algo muito maior que ele escondia de mim.







