Mundo de ficçãoIniciar sessãoVocê chegou tarde. Não pela hora que o relógio marcava, mas pela forma como abriu a porta do escritório: sem pressa, sem barulho, sem olhar para mim. Eu já estava ali havia tempo suficiente para decorar os veios da madeira escura, para contar as piscadas da lâmpada do abajur, para me acostumar com a forma como o cheiro de couro das poltronas se misturava ao perfume seco dos seus papéis. A casa toda parecia suspensa na expectativa de uma conversa simples que, eu sabia, não seria simples. Respirei fundo, ajeitei o robe de seda por cima do vestido que não tirei depois do jantar e me obriguei a não recuar quando seus olhos verdes, quase sem luz, tocaram os meus por um segundo e seguiram adiante como se nada houvesse ali para ver.
— Precisamos conversar — falei, e a minha voz soou menos firme do que eu queria.
Você passou por mim, deixou o paletó sobre o encosto da poltrona e arregaçou os punhos da camisa branca como quem se prepara para lidar com algo técnico, mensurável, jamais com o que vive do lado de dentro. Sentou-se. A cadeira rangeu um pouco. A caneta, entre os dedos, executava seu ritual: bater duas vezes no tampo, girar, encostar a ponta ao papel. Eu conhecia seus pequenos vícios com a precisão de quem decora uma oração. A caneta parou. A cabeça inclinou um milímetro. Só então você me deu a permissão silenciosa para seguir.
— Sobre nós — recomecei, aproximando uma cadeira para a borda da mesa. — Sobre o que vem depois. Sobre o que nunca falamos sem que algo interrompa.
Meu coração batia alto demais. A sensação de que eu invadia um território onde não tinha crachá, senha ou autorização me atravessava inteira. Ainda assim, continuei. O abajur projetava o recorte do seu perfil na parede: o nariz reto, o maxilar duro, a sombra da barba tardia que você sempre aparava antes que ousasse existir. Havia elegância até na sua recusa em me olhar.
— Pensei que poderíamos considerar… — a palavra ficou um instante presa à língua — filhos.
O silêncio não caiu. Ele se ampliou. O som da chuva lá fora, que eu não tinha notado, começou a existir, como se o mundo tivesse aumentado o volume só para que eu percebesse onde estava me metendo. Você apoiou a caneta, entrelaçou os dedos, recostou-se na cadeira. Seus olhos, finalmente em mim, não traziam surpresa, curiosidade ou qualquer traço de ternura. Eram vitrines fechadas.
— Não fale de coisas que não vão acontecer — disse.
Não houve pausa, nem explicação, nem a gentileza de um eufemismo. A frase atravessou o espaço e acertou o lugar exato entre as costelas onde a esperança ainda se mantinha de pé, teimosa, infantil. Para recuperar o ar, precisei fixar o olhar no press-paper de vidro que descansava ao lado da sua mão. Um pequeno globo cristalino com uma borboleta cravada no meio. Você odiava enfeites. Alguém o deu; você não se desfez. Eu me vi naquele objeto: transparente e presa.
— Por quê? — minha voz saiu menor do que eu pretendia. — Porque não cabem nos seus horários? Porque não ficam bem nas suas reuniões? Porque um berço no quarto de hóspedes invadiria mais a sua ordem do que eu?
Você fechou a expressão e os tendões do seu pescoço desenharam linhas tensas sob a pele.
— Porque não é parte do meu plano — respondeu, com calma. — Nem do que espero para a minha vida. Nem do que estou disposto a oferecer.
— A mim?
— A ninguém.
Curioso como uma negativa pode parecer uma verdade nobre dependendo do tom. A sua, porém, vinha sem nobreza. Era apenas uma porta que se fecha por dentro, com chave dupla, e não devolve a cortesia de uma explicação. Eu poderia pedir mais, argumentar como quem estende as mãos para segurar alguma sobra, lembrar os anos gastos tentando caber num molde que nunca foi feito para mim. Em vez disso, senti a espessura do silêncio crescer novamente, mais densa, mais fria, como se o ar ali tivesse sido tirado e só restasse a obrigação de continuar respirando.
Você fez menção de retomar a caneta; eu ergui a mão, pedindo um instante. A cadeira sob mim rangeu leve.
— Você fala como se eu estivesse pedindo para mudar o eixo da terra — sussurrei. — Como se conversar sobre futuro fosse uma afronta. Eu precisei de coragem para entrar aqui, Gabriel.
Sua boca se moveu num quase-sorriso que não alcançou os olhos.
— Coragem é um recurso que eu guardo para outras frentes, Isabella. No meu trabalho, quando um projeto pode ruir em um dia. Quando uma assinatura define os próximos anos de centenas de pessoas. Eu não desperdiço coragem em possibilidades sentimentais.
A escolha das palavras raspou em mim por dentro. Possibilidades sentimentais. Eu quis rir, não ri. A raiva veio, singela, discreta, uma chama fina queimando atrás do esterno. Tentei me lembrar de mim antes de você: os cabelos castanhos-escuros soltos, a pele sem esse cansaço que a luz amarela do abajur denunciava sem piedade, os olhos cor de mel que já foram vivos. A memória não me consolou. Quis dizer que eu não era uma possibilidade, mas um fato. Quis dizer que fatos também ruem. Fiquei quieta. A gente aprende que silêncio é, às vezes, o último lugar onde ainda pode restar dignidade.
Você voltou à caneta. Risca, gira, assina, muda a página. E foi nesse gesto, num deslize sem culpa, que a borda de uma pasta escura apareceu no canto do tampo. Não estava alinhada. Não estava empilhada com as outras. Parecia ter sido puxada e devolvida às pressas, um pouco para fora, como quem interrompe algo e finge que não. O couro era de um preto profundo e velho; as quinas, levemente gastas, denunciavam uso. Eu conheço a sua mesa. Conheço o isto-e-aquilo milimetricamente alocados como peças de um xadrez obsessivo. Aquela pasta não pertencia ao cenário.
Desviei o olhar, como se o simples ato de mirar aquilo pudesse acender um alarme. O coração perdeu o compasso correto. Senti a pele dos braços se arrepiar sob a seda. Deixei os dedos repousarem no braço da cadeira para conter a vontade involuntária de tocar o que não foi oferecido. As pálpebras pesaram, e por um segundo o quarto inteiro se contraiu ao redor daquele retângulo de couro, como se tudo o mais tivesse sido montado para distrair o foco do único objeto que realmente importava.
— Acabou? — você perguntou, sem gentileza nem hostilidade, apenas com a urgência burocrática de quem precisa liberar a sala para a próxima reunião imaginária.
— Não sei — respondi, e nem eu mesma entendi se me referia à conversa, a nós, ao dia ou a uma versão minha que, talvez, estivesse se despedindo. — Eu esperava qualquer coisa sua, menos a facilidade com que você diz que nada do que eu sonho cabe nesta casa.
— O que você chama de sonhos — você folheou, sem olhar — eu chamo de variáveis fora de controle.
A frase me atravessou de novo, mas a dor não veio no mesmo lugar. Eram pontos diferentes subitamente mapeados por uma caneta invisível sobre o meu corpo. Levantei devagar, senti o mármore frio sob os pés, caminhei até a janela para fingir que o interesse estava na chuva, nos filetes escuros escorrendo pelo vidro, nas luzes distantes da cidade. O reflexo devolveu a imagem do escritório ao contrário, e a pasta, mesmo assim, ainda aparecia — uma mancha retangular nas costas borradas do seu reflexo.
— Você já decidiu tudo — falei, sem teatro. — Só esqueceu de me avisar.
— Eu avisei no dia em que nos casamos — veio a resposta seca. — Você é quem sempre escutou o que preferia.
A memória daquele dia se abriu sozinha. A igreja, a música, o perfume das flores. Eu me vi sorrindo para você com o mundo inteiro dentro do peito, certa de que a palavra compromisso significava no seu dicionário aquilo que significava no meu. Talvez você tenha mesmo avisado. Talvez minha tradução fosse outra. Talvez eu tenha sido fluente em mentiras úteis para sobreviver.
Aproximei-me da mesa para pegar o meu silêncio de volta e sair. Você inclinou o tronco, ocupou mais espaço, como faz sempre que precisa demarcar território. A pasta escura ficou meio palmo mais exposta com o movimento. Não precisei me curvar; bastou existir perto. Um pedaço de papel branco atravessava a boca do couro, pouco, quase nada, mas o suficiente para que eu reconhecesse, numa fração de segundo, o desenho das letras no cabeçalho. O brasão discreto de um cartório. Uma sigla que eu conhecia porque adultos civilizados drapeiam papéis importantes com carimbos importantes. E mais abaixo, apenas o princípio do meu nome. O M seguido do O, do N, do T, do E. Eu sempre gostei do desenho de Monteiro sobre o papel. Ali, o traço pareceu ofender alguma coisa antiga.
Você levantou o olhar, não para mim, mas para medir se eu havia lido. Não li. Não precisava. Às vezes, um contorno diz mais do que o conteúdo. Senti a primeira lágrima escapar antes que eu pudesse impedir. Não foi um soluço. Não teve barulho. O caminho dela foi silencioso, quase educado, contornando a curva do rosto até sumir no canto da boca. Se eu não me mexesse, você talvez nem percebesse. Mas a pele quente sob a rua fria do reflexo fez lembrar que o corpo sempre denuncia o que a boca tenta salvar.
— Está tarde — você disse, e de novo a caneta começou a riscar como se assinaturas pudessem costurar o que sua frase cortava sem anestesia. — Amanhã acordo às seis.
Concordei com a cabeça. Eu também acordaria às seis. Eu sempre acordei antes. As palavras engolidas formaram um nó na garganta, daqueles que não somem com água, música ou distração. Dei um passo para trás, outro, e pensei que qualquer coisa dita naquele instante soaria como implorar por migalhas. Nunca pedi. Não seria hoje.
A maçaneta era fria. Antes de girá-la, ainda consegui ver, no limite da minha visão, o brilho lânguido do press-paper de borboleta ao lado da pasta escura, tão perto que pareciam parte do mesmo conjunto. E não pude deixar de pensar que, se eu soprasse com força suficiente, talvez o globo caísse, rachasse, e a borboleta, por uma ideia bonita e impossível, voasse. O pensamento me arrancou um quase riso; ele morreu nos lábios. Abri a porta e saí para o corredor baixo de luz, onde a casa voltava a ser casa e não arena. A madeira sob os meus pés devolvia um som macio. O ar ali fora parecia menos denso, mas não mais leve.
No caminho para o quarto, prendi o cabelo num coque alto, como se a ordem do cabelo pudesse invocar alguma ordem dentro. Encontrei meu reflexo no espelho do hall e me vi inteira: vestido sob o robe, pele clara, olhos mel umedecidos sem drama, a espinha ereta por teimosia. A lágrima seguinte não pediu licença; desceu com a mesma educação da primeira. Limpei com as costas dos dedos e segui, lenta, porque o corpo aprende a andar devagar quando carrega coisas que não devem cair.
Apaguei as luzes da suíte. A chuva continuava. Deitei no meu lado da cama, o espaço ao lado intacto, lençóis frios, a marca do seu corpo ainda ausente. O teto, no escuro, parecia mais alto. O silêncio fez o trabalho que sabe: ampliou o som do meu coração, o ruído fino da água, a memória recente do couro gasto sob o abajur. Sem nomes, sem confirmações, sem provas. Bastou a borda de um papel, o desenho de um cabeçalho, o princípio do meu sobrenome para que a peça que faltava começasse a se encaixar sozinha, em silêncio, como tudo o que é realmente importante na sua vida parece se encaixar longe de mim.
A mão direita, no travesseiro, encontrou a aliança. Girei o aro uma vez, duas, três. O metal frio escorregando pela pele quente sempre me trazia de volta para o corpo. Hoje, não trouxe. Fechei os olhos e pensei que a coragem, aquela que você guarda para outras frentes, talvez me coubesse toda. Não para brigar, não para gritar, mas para olhar direito para aquilo que eu vinha evitando ver. Às vezes, o que quebra a gente não é a queda. É a pequena fissura que a gente finge que não viu quando ainda dava tempo de consertar.
A casa respirou comigo. A chuva começou a rarear. Virei de lado. O lençol resfriado roçou a pele nua da coxa e um arrepio atravessou a coluna. No escritório, uma pasta mal recolocada esperava a manhã. Eu não precisava tocá-la para saber que, quando a luz entrasse pelas frestas, o couro pareceria ainda mais antigo, os carimbos mais nítidos, o meu nome mais inteiro. E o mundo, do lado de dentro, um pouco menos disposto a continuar fingindo que não percebe.







