Mundo de ficçãoIniciar sessãoA madrugada se estendia silenciosa, e eu já havia perdido a conta das horas em que rolei na cama, incapaz de dormir. O espaço ao meu lado estava vazio. O lugar de Gabriel permanecia frio, intacto, como se ele nem tivesse pensado em deitar naquela noite. O coração batia inquieto, como se me empurrasse para fora do quarto. E, no fundo, eu sabia exatamente o que me chamava: aquela pasta escura que vi sobre a mesa dele.
Levantei devagar, os pés tocando o frio do chão, e prendi o robe com força ao redor do corpo. Cada passo pelo corredor era um confronto com meu próprio medo. A mansão dormia, mas o silêncio parecia observar meus movimentos, como se me julgasse pela ousadia de atravessar o limite que Gabriel sempre mantinha entre nós.
A porta do escritório estava apenas encostada. Empurrei com cuidado, o rangido baixo soou mais alto do que deveria. Entrei. A cadeira estava vazia, mas ainda girava levemente, como se ele tivesse acabado de levantar. O abajur sobre a mesa espalhava uma luz amarelada pelo tampo de madeira polida. E lá estava: a pasta, mais visível do que antes.
Minha mão hesitou, mas não por muito tempo. Toquei o couro frio e puxei. O cheiro de papel me atingiu antes mesmo de abrir. Quando as páginas deslizaram para fora, senti meu coração cair.
As palavras me atacaram sem dó: dissolução, partilha, cláusulas, assinatura. Eram papéis de divórcio. Não rascunhos, não possibilidades. Documentos prontos, com meu nome completo no cabeçalho.
— Meu Deus… — murmurei, levando a mão à boca, tentando impedir que o som saísse.
Meus olhos correram pelas linhas. Lá estava a divisão de bens, friamente calculada. Uma cláusula de confidencialidade, para garantir que eu não expusesse nada sobre ele. Até prazos e termos para assinatura já estavam preparados. Tudo sem que eu tivesse sido consultada. Sem que eu sequer soubesse.
As lágrimas começaram a descer, quentes, manchando o papel. Passei os dedos para limpar, mas a tinta escorreu em pontos minúsculos. Era como se a minha dor estivesse impressa ali, misturada ao contrato que decretava o fim de tudo.
Foi então que a voz dele ecoou atrás de mim.
— O que pensa que está fazendo?
O choque percorreu meu corpo como um raio. Virei devagar e encontrei Gabriel parado na porta, imenso, com os olhos verdes faiscando de raiva. O paletó estava aberto, a gravata solta, mas nada nele parecia desleixado. Ele parecia um juiz prestes a dar uma sentença.
— Eu… — gaguejei, tentando encontrar palavras. — Eu vi… eu precisava entender…
Ele avançou em passos firmes, a cada movimento o chão de mármore parecia vibrar. Em segundos, estava diante de mim. Sua mão forte arrancou a pasta das minhas mãos. O couro bateu na mesa com um som seco.
— Quem lhe deu permissão para mexer nas minhas coisas? — a voz dele era baixa, mas carregada de uma fúria controlada.
— Suas coisas? — rebati, sentindo a voz falhar, mas incapaz de me calar. — É o nosso casamento. É a nossa vida. E você já decidiu acabar com tudo sem sequer olhar na minha cara?
Ele cerrou o maxilar, os músculos da face tensos.
— Não distorça, Isabella. São apenas medidas preventivas.
— Preventivas? — soltei uma risada amarga, que saiu mais como um soluço. — Papéis de divórcio não são preventivos. São finais. São o fim de tudo!
— Não fale como se entendesse do que se trata — retrucou, aproximando o rosto do meu. — Não é nada além de precaução jurídica.
— Precaução? — sussurrei, a voz embargada pelas lágrimas que já escorriam sem controle. — Precaução contra mim? Contra a mulher que jurou estar ao seu lado?
Por um instante, vi algo vacilar no olhar dele, como se minhas palavras o atingissem em algum ponto oculto. Mas foi rápido. A máscara voltou, ainda mais dura.
— Não dramatize. — Ele guardou a pasta numa gaveta e a trancou com chave. — Você não deveria estar aqui.
— Não dramatizar? — minhas mãos tremiam, mas eu não recuei. — Você me trata como se eu fosse uma sombra. Me esconde em festas, nunca pronuncia meu nome, não fala de filhos, não fala de futuro. E agora descubro que já tinha pronto o contrato que me apaga de vez da sua vida! Como não dramatizar, Gabriel? Como?
Ele fechou os olhos por um segundo, respirou fundo, e quando voltou a me encarar, sua expressão era glacial.
— Você não entende o que é necessário para proteger o que construí.
— E desde quando eu sou uma ameaça? — perguntei, a voz quebrada, mas firme. — Desde quando a mulher que dividiu sua cama precisa ser eliminada como se fosse um risco nos seus negócios?
O silêncio que veio depois foi pesado. Gabriel não respondeu de imediato. Apenas me observou, como se calculasse o quanto da minha dor poderia ser tolerada sem que afetasse sua própria ordem.
Dei um passo atrás, ofegante, sentindo o coração bater tão forte que doía.
— Você não precisava de uma esposa, Gabriel. Precisava de uma testemunha muda. E eu fui perfeita nesse papel, até hoje.
Ele não se moveu. Apenas deixou que minhas palavras pairassem no ar. Mas o brilho nos olhos dele, duro e sombrio, dizia mais do que qualquer resposta.
Naquele instante, percebi que o segredo não era apenas a existência daqueles documentos. O segredo era o homem diante de mim, alguém que eu talvez nunca tivesse conhecido de verdade.
E, mesmo com as lágrimas escorrendo, compreendi que, dali em diante, nada seria como antes.







