A Inocente
O som distante de caixas de papelão sendo arrastadas no corredor do quarto andar era o único ruído que quebrava o silêncio daquela noite abafada.
Eu não deveria estar olhando. Não era do meu feitio ser o vizinho intrometido, o cara que espia pela fresta da cortina. Mas, a partir do momento em que pus os olhos na nova moradora do apartamento da frente, qualquer traço do meu autocontrole simplesmente ruiu.
Ela parecia jovem demais. Doce demais. Uma tentação perigosa enrolada em um pvestido leve de algodão que colava em suas curvas a cada movimento. Havia uma inocência quase acidental na forma como ela prendia o cabelo escuro no alto da cabeça, deixando a nuca exposta, enquanto tentava equilibrar mais uma caixa pesada.
Eu tinha trinta e oito anos. Um homem feito, moldado pelo cinismo, com a vida perfeitamente sob controle e um império para gerenciar. Ela? Não devia ter mais do que vinte e poucos. Dez anos — ou talvez mais — nos separavam. Uma eternidade. Um abismo moral que eu deveria respeitar.
Mas quando ela parou na porta do próprio apartamento, encarando a chave que insistia em emperrar, e soltou um suspiro frustrado, algo dentro de mim rugiu.
O calor da noite não era nada comparado ao fogo repentino que se acendeu no meu peito. Fiquei observando a respiração dela descompassar, o subir e descer ritmado do seu peito sob o tecido fino. Minhas mãos coçaram para ir até lá. Para puxar aquela chave dos seus dedos delicados, encostar meu corpo quente atrás do dela e murmurar contra a sua orelha o quanto ela estava vulnerável ali fora.
Ela olhou para os lados, como se sentisse o peso do meu olhar sobre a pele. Por um segundo aterrorizante — e absurdamente fascinante —, nossos olhos quase se cruzaram