Narrado por Don Marcello Deluca
O funeral de um filho não deveria existir.
Há uma ordem silenciosa no mundo, uma mentira confortável que contamos a nós mesmos para continuar vivendo: os pais partem antes, os filhos seguem. Quando essa ordem se rompe, algo fundamental quebra junto. Não apenas no coração. No tempo. No sentido. No próprio eixo da realidade.
Eu estava de pé diante do caixão de Lisa, e tudo em mim gritava que aquilo era um erro grotesco. Que alguém havia confundido os nomes. Que aquela madeira não deveria conter minha filha. Que o corpo pequeno, frágil demais, não pertencia à morte.
Mas pertencia.
A casa da nonna estava lotada. Gente demais. Silêncio demais. O tipo de silêncio que pesa, que cai sobre os ombros como uma sentença. Homens que já me temeram, mulheres que já me bajularam, famílias que já me deveram favores. Todos ali, vestidos de preto, cabeças baixas, olhos desviados.
Nenhum deles podia fazer nada por mim.
O caixão estava aberto.
Eu olhei para Lisa e, por um i