Capítulo 5- Louise

Acordo com o som insistente do celular. Ainda grogue, estico a mão até a mesa de cabeceira e vejo o nome do meu pai aceso na tela. Respiro fundo antes de atender.

— Alô? — minha voz sai rouca

— Louise, onde você está?

— Estou bem, pai. Não se preocupe.

— Não me venha com isso! Você tem ideia do que fez? Fugir do próprio noivo como uma criança mimada?

— Pai, eu não podia… Não quero me casar com um estranho e viver infeliz.

— Não é questão de querer, Louise! — ele rosna. — Você nos envergonhou diante dos Wills. O filho deles saiu sem nem nos dar chance de pedir desculpas.

Consigo imaginar o maxilar dele travado do outro lado da linha.

— Você volta para casa agora ou não respondo por mim.

— Eu não vou voltar, pai. — Minha voz treme, apesar do esforço de manter a calma.

— Então, você não tem mais lugar nesta família. Está me ouvindo?

Eu acredito nele. Como sempre diz: a dignidade de um homem está na palavra.

— Se é isso que você quer, tudo bem papai.

O silêncio dura apenas alguns segundo, mas pareceu uma eternidade.

— Louise, não seja estúpida. Se eu cortar seus cartões, você volta correndo. Nós dois sabemos muito bem disso.

Eu sei que minha família é dona das maiores redes de hotéis do país. E eu poderia viver sem trabalhar pelo resto da vida. Mas eles não sabem que, há mais de um ano, trabalho como produtora musical, um campo que, apesar de não ser o mais seguro, me proporciona uma satisfação que só a faculdade de música me deu nos últimos anos.

Também tenho uma reserva financeira, a qual consegui com meus esforços. O suficiente para respirar longe deles.

— Não me importo.

— Você sabe o que está em jogo.

— Dinheiro. Sempre dinheiro.

— É ele que paga seus luxos.Não é mesmo? E lembre-se, você faz vinte e cinco anos em um mês. O testamento é claro, sem casamento, sem herança. Quero ver como vai continuar se bancando, porque eu me recuso a ajudá-la depois da vergonha que você está me fazendo passar.

Ele não está errado.

Minha avó realmente deixou essa cláusula absurda. Meus primos receberam tudo sem restrições. Para mim, metade de tudo… claro, com imposições. Casar é uma delas

Sinceramente, estou cansada disso. Sem hesitar, desligo o telefone.

A raiva corre nas minhas veias. Respiro fundo para não gritar, não quebrar nada. Me jogo na cama e encaro o teto, como se isso fosse ajudar a amenizar a raiva.

Preciso sair.

Visto a primeira roupa da mala, escovo os dentes e saio para a rua.

O ar fresco da manhã romana me envolve. Caminho sem rumo pelas ruas de paralelepípedos até as pernas arderem. O cheiro de café me guia até uma padaria de esquina. Entro na longa fila. Não estou com pressa mesmo.

Na minha vez peço um supplì. Segundo o panfleto, é uma especialidade da casa - um bolinho de arroz frito recheado de queijo derretido. Impossível essa combinação dar errado.

O sabor quente e reconfortante começa a suavizar a raiva que ainda sinto.

O sol já está mais alto, aquecendo a cidade e iluminando cada detalhe das construções antigas.

Sento num banco e sorrio sozinha. Já viajei para tantos lugares… e nunca pensei em conhecer Roma.

Esse foi um grande erro meu.

Um grupo de pessoas está reunido, ouvindo um guia baixinho de óculos grossos. Eu me aproximo, e acabo seguindo o grupo até Fontana di Trevi. A história que ele narra com tanta ênfase é interessante. Mas o lugar é simplesmente fascinante.

A fonte é composta por várias esculturas de figuras mitológicas. No centro, encontra-se a estátua de Netuno, de pé em uma carruagem em forma de concha, puxada por dois cavalos-marinhos. Um conjunto de figuras femininas a rodeia, junto a algumas colunas.

A água da fonte reflete o céu acima, com tons de azul e verde. Algumas pessoas lançam moedas na água conforme o guia continua a falar com entusiasmo.

— Uma moeda garante que você volta a Roma — diz ele. — Duas, e você encontra o amor.

Levanto a sobrancelha, divertida.

Amor?

Não acredito nessas coisas… mas não tenho nada a perder.

Peguei duas moedas da minha bolsa e me aproximei da fonte. Fechei os olhos e, com um desejo mudo, lancei as moedas na água.

— A terceira traz um casamento feliz.

A voz masculina atrás de mim acelera meu coração.

Me viro. Cristian.

— O quê?

O fato de ele mencionar casamento me perturbou, como se soubesse que eu iria me casar Ele sorri, os olhos brilhando.

— Jogue a terceira moeda para ter um casamento feliz.

— Eu não vou me casar.

Cristian arqueou uma sobrancelha, com um sorriso que misturava diversão e certeza.

— Você não vai ser solteira para o resto da vida, Louise.

A verdade é que eu vou casar sim — infelizmente, daqui a algumas semanas.

Ele tira três moedas do bolso e j**a na fonte.

— Viu? Não é difícil.

Algo no jeito que ele fala meu nome causa um curto-circuito em minha cabeça.

Suspiro… e lanço a terceira moeda.

— Satisfeito?

— Muito.

Ele se acomoda ao meu lado, o perfume amadeirado se espalhando ao meu redor. Ele tem um cheiro diferente. Reconheço a fragrância — muitos homens usam —, mas, nele, o aroma é viciante. Dá vontade de ficar horas ao lado dele só para continuar sentindo a essência.

Fico em silêncio. Não deveria falar com estranhos. Ainda assim, já vi esse homem mais vezes em horas do que vi meu noivo.

— Vai fazer algo hoje à noite?

— Se eu disser que não, vai me convidar para um encontro?

Ele sorri. Covinha. Tempo parado.

Ai céus, se ele continuar sorrindo assim para mim, vou acabar dizendo sim para qualquer coisa que ele quiser.

— É isso que você quer?

Minha garganta seca.

— Bom… nesse caso, estou ocupada.

— É só um passeio, e você pode chamar seus amigos. Prometo que não é um encontro. Mesmo porque, uma mulher bonita como você certamente não está solteira.

Uau, ele acabou de me elogiar.

— Talvez eu considere.

— Não se preocupe, Scartt, eu sei ser um cavalheiro. Às oito estarei esperando por você.

Ele pisca e vai embora, sem me dar chance de responder.

Fico ali, tentando entender por que meu coração continua acelerado.

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