Capítulo 5- Louise

Acordo com o som insistente do celular vibrando na mesa de cabeceira, cortando o silêncio do quarto. Ainda grogue, com os olhos pesados e a mente tentando entender onde estou, estico a mão às cegas e agarro o aparelho. Quando consigo focar a tela, o nome “Pai” brilha em letras grandes, e um nó imediato se forma no meu estômago.

Respiro fundo, encho os pulmões de ar como quem vai mergulhar fundo na água, e atendo.

— Alô? — minha voz sai rouca, carregada de sono e cansaço.

— Louise, onde você está? — a voz dele é dura, cortante, sem nenhum traço de afeto.

— Estou bem, pai. Não se preocupe — tento soar calma, mas minhas próprias mãos já estão suando.

— Não me venha com isso! Você tem ideia do que fez? Fugir do próprio noivo como uma criança mimada? — ele explode do outro lado da linha.

— Pai, eu não podia… Não quero me casar com um estranho e viver infeliz para sempre! — rebato, finalmente deixando a verdade sair.

— Não é questão de querer, Louise! — ele rosna, como um animal acuado. — Você nos envergonhou diante dos Wills. O filho deles saiu sem nem nos dar chance de pedir desculpas. Você acha que o nome da nossa família é brinquedo?

Consigo imaginar perfeitamente o maxilar dele travado, a veia saltando no pescoço, do outro lado da linha. Ele está furioso, e eu sei bem o que isso significa.

— Você volta para casa agora, nesse exato momento, ou não respondo por mim — ameaça.

— Eu não vou voltar, pai. — Minha voz treme, apesar de todo o meu esforço para mantê-la firme.

— Então, você não tem mais lugar nesta família. Está me ouvindo bem? Está deserdada.

Eu acredito nele. Sem dúvida alguma. Como sempre diz: a dignidade de um homem está na palavra. E a palavra dele é lei.

— Se é isso que você quer, tudo bem, papai — respondo, e minha voz quase não sai.

O silêncio que se segue dura apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade, um vazio gelado que me consumiu por inteiro.

— Louise, não seja estúpida. Se eu cortar seus cartões, você volta correndo. Nós dois sabemos muito bem disso — sua voz muda, fica cínica, cheia de arrogância. Ele acha que me conhece.

Ele sabe que minha família é dona das maiores redes de hotéis do país. Sabe que eu poderia viver sem trabalhar pelo resto da vida, cercada de luxo. Mas o que ele não sabe é que, há mais de um ano, trabalho em segredo como produtora musical. É um campo instável, sim, que exige muito suor, mas me proporciona uma satisfação que dinheiro nenhum compra. Algo que só a faculdade de música conseguiu me dar nos últimos anos.

E também tenho uma reserva financeira, pequena talvez, mas conquistada com o meu próprio esforço, suor e noites mal dormidas. O suficiente para respirar longe deles. O suficiente para ser livre.

— Não me importo.

— Você sabe o que está em jogo.

— Dinheiro. Sempre é dinheiro — cuspo as palavras, amarga.

— É ele que paga seus luxos, não é mesmo? — ele debocha. — E lembre-se bem: você faz vinte e cinco anos em exatamente um mês. O testamento da sua avó é claro, sem casamento, sem herança. Quero ver como vai continuar se bancando sozinha, porque eu me recuso a ajudá-la depois da vergonha que você está me fazendo passar.

Ele não está errado infelizmente.

Minha avó realmente deixou essa cláusula absurda, cruel até. Meus primos receberam tudo sem restrições, de mão beijada. Para mim, ela reservou metade de um império… claro, com uma série de imposições ridículas. Casar é uma delas.

Mas sinceramente? Estou cansada disso. Cansada de ser uma peça de xadrez.

Sem hesitar por mais um segundo, aperto o botão vermelho de encerrar a chamada e jogo o celular na cama.

A raiva corre nas minhas veias como lava, quente e destrutiva. Respiro fundo várias vezes para não gritar, para não quebrar nada no quarto, para não deixar o desespero tomar conta. Me jogo de volta na cama e encaro o teto branco, como se isso fosse ajudar a amenizar o ódio e a tristeza que estão me corroendo.

Preciso sair daqui. Agora.

Visto a primeira roupa que encontro na mala, uma calça jeans confortável e uma blusa de alcinha. Escovo os dentes rapidamente, passo um protetor solar e saio para a rua, batendo a porta com força atrás de mim.

O ar fresco da manhã romana me envolve assim que ponho os pés para fora, trazendo o cheiro de pão fresco, café e flores. É como um bálsamo. Caminho sem rumo pelas ruas de paralelepípedos, deixando meus pés me guiarem, andando até que as pernas comecem a arder.

O cheiro forte e gostoso de café recém-passado me guia até uma pequena padaria de esquina, daquelas típicas, com balcões cheios de guloseimas. Entro na fila, que é grande, mas não estou com pressa mesmo. Tenho todo o tempo do mundo agora.

Na minha vez, peço um supplì. Segundo o cardápio, é uma especialidade da casa: um bolinho de arroz frito, crocante por fora e recheado de queijo derretido. Impossível essa combinação dar errado.

Quando dou a primeira mordida, o sabor quente, salgado e reconfortante começa a suavizar a raiva que ainda sinto latejando no peito. O sol já está mais alto, aquecendo a cidade e iluminando cada detalhe das construções antigas.

O cheiro forte e gostoso de café recém-passado me guia até uma pequena padaria de esquina, daquelas típicas, com balcões cheios de guloseimas. Entro na fila, que é grande, mas não estou com pressa mesmo. Tenho todo o tempo do mundo agora.

Na minha vez, peço um supplì. Segundo o cardápio, é uma especialidade da casa: um bolinho de arroz frito, crocante por fora e recheado de queijo derretido. Impossível essa combinação dar errado.

Quando dou a primeira mordida, o sabor quente, salgado e reconfortante começa a suavizar a raiva que ainda sinto latejando no peito. O sol já está mais alto, aquecendo a cidade e iluminando cada detalhe das construções antigas. Tudo é lindo por aqui.

Um grupo de turistas está reunido ali perto, ouvindo um guia baixinho, de óculos grossos e voz animada. Curiosa, me aproximo devagar e acabo seguindo o grupo, andando sem pressa, até que chegamos à Fontana di Trevi.

A história que ele narra com tanta ênfase é interessante, cheia de fatos históricos, mas o lugar em si é simplesmente fascinante. Tão grande, tão detalhado, que parece ter vida própria.

A fonte é composta por várias esculturas mitológicas. No centro, encontra-se a estátua de Netuno, de pé em uma carruagem em forma de concha gigante, puxada por dois cavalos-marinhos. Um conjunto de figuras femininas, sereias e deusas, o rodeia, junto a colunas altas detalhadas. É arte pura.

A água da fonte reflete o céu acima, com tons de azul e verde esmeralda, brilhando sob o sol. Algumas pessoas lançam moedas na água conforme o guia continua a falar com entusiasmo.

— Uma moeda garante que você volta a Roma — diz ele.— Duas, e você encontra o amor verdadeiro.

Levanto a sobrancelha, divertida com o romantismo da coisa.

Amor? Não é algo que esteja nos meus planos, muito menos algo que eu esteja procurando.

Não acredito nessas coisas… mas pensando bem, não tenho nada a perder. É só uma brincadeira.

Pego duas moedinhas de euro da minha bolsa e me aproximo da borda da fonte. Fecho os olhos por um segundo, faço um desejo mudo de liberdade e felicidade, e lanço as moedas na água, ouvindo o ploc seco quando tocam a superfície.

— A terceira traz um casamento feliz.

A voz masculina, grossa e familiar, soa bem atrás de mim, tão perto que sinto o calor do corpo dele. Meu coração dá um salto tão forte que quase salta pela boca.

Me viro de uma vez.

Christopher.

— O quê? — sussurro, ainda tentando organizar os pensamentos.

O fato de ele mencionar casamento logo agora me perturba profundamente, como se ele tivesse uma linha direta com os meus pensamentos, como se soubesse do acordo, do noivo, de tudo. Mas ele só sorri, os olhos brilhando de diversão e de um brilho intenso que me desmonta.

— Jogue a terceira moeda para ter um casamento feliz — repete, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Eu não vou me casar — nego imediatamente, cruzando os braços, num ato defensivo.

Christopher arqueia uma sobrancelha, como se ele soubesse de algo que eu ainda não sabia.

— Você não vai ser solteira para o resto da vida, Louise.

A verdade cruel é que eu vou casar sim — infelizmente, daqui a algumas semanas. Com um desconhecido.

Ele tira três moedas brilhantes do bolso da calça, sem pressa, e as j**a uma a uma na água.

— Viu? Não é algo difícil, Louise.

Algo no jeito que ele fala meu nome, na forma como a língua rola suave pelas sílabas, causa um curto-circuito em minha cabeça, uma confusão gostosa que me deixa tonta.

Suspiro, derrotada pelo meu próprio coração que insiste em acelerar… e pego mais uma moeda. Jogo.

— Satisfeito?

— Muito — ele sorri de novo, e dessa vez o sorriso é largo, chegando aos olhos.

Ele se acomoda ao meu lado, e o perfume amadeirado dele se espalha pelo ar, envolvendo todo o meu redor. Ele tem um cheiro diferente, inconfundível. Reconheço a fragrância, mas nele, o aroma é viciante, único. Dá vontade de ficar horas ali ao lado dele só para continuar sentindo o cheiro.

Fico em silêncio, observando a água mexer. Não deveria falar com estranhos. Ainda assim, já vi esse homem mais vezes em poucas horas do que vi o meu próprio noivo em toda a minha vida. A ironia é cruel.

— Vai fazer algo hoje à noite? — ele pergunta de repente, quebrando o clima.

— Se eu disser que não, vai me convidar para um encontro? — provoco, antes que eu possa me controlar.

Ele sorri. Covinhas aparecendo nas bochechas.

Ai céus, se ele continuar sorrindo assim para mim, vou acabar dizendo sim para qualquer coisa que ele quiser. Até para o impossível.

— É isso que você quer? — sua voz desce um tom, fica mais baixa, mais íntima.

Minha garganta seca de repente.

— Bom… nesse caso, estou ocupada — minto, maltratando a própria língua.

— É só um passeio, para ver a noite de Roma. E você pode chamar seus amigos. Prometo que não é um encontro — ele levanta as mãos em rendição.

— Mesmo porque, uma mulher bonita como você certamente não está solteira.

Uau. Ele acabou de me elogiar. E funcionou. Meu peito se enche de um calor gostoso.

— Talvez eu considere...

— Não se preocupe, Scartt — ele usa meu sobrenome agora, e isso me faz arrepiar toda. — Eu sei ser um cavalheiro. Às oito estarei esperando por você no saguão do hotel.

Ele pisca um olhar, num gesto rápido e cheio de charme, e se vira, indo embora antes mesmo que eu possa dizer sim ou não.

Fico ali parada, sozinha em frente àquela imensidão de pedra e água, tentando entender em que mundo louco eu vim parar e por que diabos meu coração continua batendo tão acelerado, como se tivesse encontrado algo que estava procurando há séculos.

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