A sala do tribunal estava tão silenciosa que o som das páginas sendo viradas parecia um trovão.
Todos os olhos estavam voltados para um único homem.
Adrian Volkov.
Sentado na cadeira do juiz, ele parecia mais uma estátua esculpida em pedra do que um ser humano. Alto, largo de ombros, vestindo uma toga negra impecável, ele observava o homem diante dele com um olhar que não demonstrava qualquer emoção.
O réu suava.
Suas mãos tremiam sobre a mesa.
— Meritíssimo… eu posso explicar — ele murmurou.
Adrian não respondeu imediatamente.
Ele apenas inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando cada palavra, cada gesto, cada respiração do homem à sua frente.
Durante anos, Adrian aprendeu a reconhecer mentiras.
E aquele homem estava mentindo.
— O tribunal já ouviu sua explicação três vezes — disse Adrian finalmente, com uma voz baixa e firme.
A voz de alguém que não precisava levantar o tom para ser obedecido.
— E todas elas foram diferentes.
Algumas pessoas na plateia trocaram olhares nervosos.
Adrian abriu lentamente o processo diante de si.
Papelada.
Provas.
Depoimentos.
Tudo estava ali.
Mas ele já sabia o resultado antes mesmo de começar a ler.
Porque Adrian Volkov tinha uma regra simples.
Justiça não era sobre sentimentos.
Era sobre consequências.
Ele levantou o olhar novamente para o homem.
— Fraude financeira. Lavagem de dinheiro. Desvio de fundos públicos.
O réu começou a balançar a cabeça desesperadamente.
— Eu não fiz isso…
Adrian pegou o pequeno martelo de madeira.
— Este tribunal considera o réu…
Ele fez uma pausa curta.
E então disse as palavras que destruiriam a vida daquele homem.
— Culpado.
O martelo bateu na madeira.
O som ecoou pela sala como um disparo.
Alguns segundos depois, guardas já estavam levando o homem para fora.
O réu gritava.
Implorava.
Mas Adrian já havia desviado o olhar.
Para ele, aquele caso já estava encerrado.
Como centenas de outros.
Quarenta minutos depois, Adrian saiu pela porta lateral do tribunal.
A noite de Nova York estava fria.
O vento soprava entre os prédios altos da cidade enquanto carros passavam pelas avenidas iluminadas.
Seu motorista já o esperava.
Assim como os dois seguranças.
Nos últimos meses, aquilo tinha se tornado rotina.
Adrian tinha inimigos.
Muitos.
Alguns criminosos poderosos não gostavam da forma como ele conduzia seus julgamentos.
Três tentativas de assassinato em menos de um ano eram prova disso.
Mas Adrian não parecia preocupado.
Ele entrou no carro preto e fechou a porta.
A cidade começou a passar pela janela enquanto o veículo avançava pelas ruas.
Adrian afrouxou levemente a gravata.
Seus olhos escuros observavam as luzes da cidade.
Nova York nunca dormia.
Mas Adrian também não.
Ser um dos juízes mais respeitados — e temidos — do país tinha um preço.
Solidão.
Ele se acostumou com isso há muito tempo.
Relacionamentos nunca duravam.
Amigos eram poucos.
Confiança era rara.
A última mulher que tentou se aproximar dele havia feito algo simples.
Traição.
Depois disso, Adrian decidiu algo que nunca mais mudou.
Ele não precisava de ninguém.
Uma hora depois, o carro atravessou os portões de ferro de uma enorme propriedade nos arredores da cidade.
A mansão era silenciosa.
Grande.
Luxuosa.
E completamente vazia.
Adrian saiu do carro e caminhou em direção à porta principal.
Mas algo chamou sua atenção.
Luzes acesas.
Na cozinha.
Ele franziu levemente a testa.
A maioria dos funcionários já deveria ter ido embora.
Adrian entrou na casa.
O silêncio da mansão era profundo.
Mas havia um cheiro delicioso no ar.
Algo estava sendo cozinhado.
Ele seguiu o aroma até a cozinha.
E quando abriu a porta…
parou.
Porque havia alguém ali.
Uma mulher.
De costas para ele.
Ela mexia algo em uma panela no fogão.
Cabelos cacheados escuros caíam sobre suas costas.
Ela vestia uma camisa branca larga e um short simples.
Parecia completamente concentrada no que fazia.
Adrian cruzou os braços.
Observando.
Ela ainda não havia percebido que ele estava ali.
Então ele falou.
— Interessante.
A mulher se assustou.
Virou rapidamente.
E seus olhos encontraram os dele.
Aurora Santos.
A nova funcionária da casa.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Aurora estava surpresa.
Mas não parecia assustada.
O que já era incomum.
A maioria das pessoas ficava nervosa perto de Adrian Volkov.
Mas ela apenas ergueu uma sobrancelha.
— O senhor tem o hábito de aparecer sem fazer barulho?
Adrian inclinou a cabeça.
Observando cada detalhe dela.
— O hábito é meu.
Ele olhou para a panela no fogão.
— Mas a cozinha é minha.
Aurora cruzou os braços.
— Eu sei.
— Então por que está cozinhando nela?
Ela deu de ombros.
— Porque eu estava com fome.
Silêncio.
Adrian não conseguiu evitar.
Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios.
Algo raro.
Muito raro.
— Funcionários normalmente não cozinham na casa do patrão às onze da noite.
Aurora provou o molho da panela.
— Patrões normalmente não chegam em casa às onze da noite.
A resposta pairou no ar.
Adrian aproximou-se alguns passos.
Agora eles estavam muito mais perto.
Aurora podia sentir a presença dele.
Forte.
Dominante.
Como se o ar ao redor tivesse ficado mais pesado.
Ele olhou para a panela novamente.
— O que está fazendo?
— Massa com molho fresco.
— Você cozinha bem?
Aurora deu um pequeno sorriso.
— Eu estudo gastronomia.
Adrian ergueu uma sobrancelha.
— Então por que está trabalhando como empregada?
Por um segundo, o sorriso dela enfraqueceu.
Mas ela respondeu mesmo assim.
— Porque sonhos não pagam aluguel.
O silêncio tomou conta da cozinha.
Adrian observou o rosto dela.
Algo naquela resposta o fez pensar.
Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa…
a campainha da mansão tocou.
Os dois olharam na direção da porta.
Aurora franziu a testa.
— Essa hora?
Mas Adrian não respondeu.
Seu olhar havia mudado completamente.
Frio.
Calculista.
Perigoso.
Porque ninguém deveria estar ali.
E algo dentro dele dizia…
que aquela noite ainda estava longe de terminar.
E que a vida de Aurora Santos…
acabava de entrar em um jogo muito mais perigoso do que ela imaginava.