Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite estava congelante, mas o frio não era nada comparado ao gelo que eu carregava no peito.
Eu tinha acabado de esbarrar nela. Elise. A garota que eu passei a vida inteira observando de longe, a futura Luna que a matilha inteira, e o destino, pareciam concordar que pertencia ao meu irmão perfeito. Eu sabia o quão próximos Harry e ela eram; havia uma lealdade e uma amizade sincera entre os dois que me fazia me sentir ainda mais como um intruso no meu próprio mundo. Quando ela sorriu para mim no corredor do jardim, o peso da minha existência como o bastardo da matilha pareceu desaparecer por um segundo. — Eu te vejo amanhã na cerimônia? — ela havia perguntado, com aqueles olhos enormes e cheios de uma esperança que eu não tinha o direito de alimentar. — Amanhã é a consagração do meu irmão e da futura Luna — eu respondi, forçando minha voz a soar dura. — Meu lugar é nas sombras da floresta, Elise. Você sabe disso. Deixar Elise parada ali foi a coisa mais difícil que fiz durante toda a semana. Caminhei a passos pesados em direção à fronteira do território. A neve esmagava sob minhas botas de couro. Enquanto o resto da alcateia se preparava para celebrar o grande herdeiro amanhã, o bastardo fazia a ronda noturna. Esse era o meu papel. O soldado descartável. O erro do Alpha. Parei no topo de um rochedo que dava vista para o vale escuro e levantei o rosto para o céu. A lua cheia brilhava como uma moeda de prata intacta. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, agitado pela proximidade da meia-noite, mas eu o empurrei para o fundo da minha consciência. “Tire isso de mim,” implorei em uma prece silenciosa, os punhos cerrados ao lado do corpo. “Eu não quero essa vida. Não quero esse sangue. Me deixe ser humano. Se você existe, me deixe ir embora daqui e viver em paz.” Eu tinha um plano. Assim que a transição de Harry se concretizasse, eu cruzaria as fronteiras e nunca mais voltaria. Deixaria as humilhações, os olhares de pena e o desprezo do meu pai para trás. Só precisava manter meu lado lobo sob controle até lá. Então, o relógio distante da praça central começou a bater. Meia-noite. No exato momento em que o som ecoou pela floresta, o mundo parou de girar. Meu peito se partiu ao meio. Não foi uma dor física, mas uma explosão de energia que me atirou de joelhos na neve. Meu lobo uivou dentro de mim, assumindo o controle com uma força que eu nunca havia experimentado, rasgando o silêncio da minha mente. Um cheiro invadiu meus sentidos. Jasmim e chuva de inverno. O cheiro mais perfeito e inebriante do mundo. “Minha.” A voz do meu lobo rugiu, ensurdecedora e possessiva. “Nossa companheira.” Eu não pensei. Não racionalizei. A força do vínculo, o lendário e implacável laço de almas, puxou meu corpo como uma gravidade absoluta. Corri pela floresta, ignorando os galhos que rasgavam meu rosto e minha jaqueta. Eu precisava encontrá-la. Meus pés pararam bruscamente diante de uma porta de madeira familiar. O chalé do pai de Elise, o Beta. O cheiro de jasmim estava em toda parte. Meu coração martelava contra as costelas, ameaçando quebrar meus ossos. Levantei a mão trêmula, mas antes que eu pudesse bater, a porta se abriu de supetão. Elise estava ali. Seus olhos brilhavam com lágrimas, o rosto corado, os lábios entreabertos em um sorriso radiante que eu jamais esqueceria. Ela sabia. O vínculo cantava entre nós dois, uma corda dourada e flamejante conectando nossas almas. — Henry... — ela sussurrou, a voz trêmula, carregada de uma emoção profunda. Ela deu um passo hesitante em minha direção. “Minha parceira. Elise é a minha.” O terror me atingiu como um soco violento. O ar fugiu dos meus pulmões. O destino estava me pregando a pior e mais cruel das peças. A garota que sempre observei em silêncio era minha predestinada. Mas aceitar aquele laço significava ficar. Significava continuar sendo a escória da matilha, assistir ao meu irmão liderar ao lado dela enquanto eu ficava nas sombras. Pior: significava arrastá-la para a minha desgraça, roubar dela o título e a vida de glória que ela nasceu para ter. Ela merecia a estabilidade que tinha com Harry, não o caos da minha vida. Eu não podia aceitar isso. Eu precisava ser livre. Eu precisava deixá-la livre de mim. Dei um passo apressado para trás, fugindo do calor que emanava do corpo dela. O sorriso de Elise vacilou, a confusão nublando seus olhos azuis. — Henry? O que... o que foi? — O medo começou a colorir a voz dela. Eu engoli em seco, travando uma guerra sangrenta contra o meu lobo, que uivava e implorava para que eu caísse de joelhos e a tomasse nos braços. Fechei as mãos em punhos até as unhas cravarem na carne. — Eu, Henry, filho bastardo do Alpha da Matilha Vento do Norte — minha voz saiu áspera, cortando o silêncio da noite como uma lâmina —, rejeito você, Elise, como minha companheira predestinada. As palavras esfolaram minha própria garganta. O brilho nos olhos de Elise desapareceu instantaneamente, substituído por um terror puro, cego e absoluto. A corda dourada e invisível entre nós estalou de forma violenta, chicoteando o ar. Ela soltou um grito agonizante, um som cru que iria assombrar meus pesadelos para o resto da eternidade, e despencou de joelhos na varanda, agarrando o próprio peito enquanto lutava para respirar. Meu lobo soltou um uivo de luto dentro de mim, rasgando minhas defesas, e antes que eu pudesse dar um passo na direção dela para ampará-la, o gosto metálico e quente de sangue inundou a minha boca.






