Mundo ficciónIniciar sesiónCarolina
Depois que voltamos da cidade, ajudei Rosário a guardar tudo o que compramos: organizamos a dispensa com latas enfileiradas, o freezer com carnes e vegetais, lavamos as frutas uma por uma até brilharem, limpamos as embalagens com pano úmido. Tudo nos trinques, como ela gosta. E como se o dia não tivesse sido longo o suficiente, ainda fomos finalizar a limpeza da casa inteira. Rosário é detalhista até o último fio de cabelo. Cada canto da sala, cada fresta das janelas de madeira, cada puxador de armário tinha um jeito certo de ser limpo. Ela ia explicando enquanto fazia, a voz calma e paciente, me mostrando como o patrão gosta das coisas: nada fora do lugar, pano bem torcido para não deixar poças, móveis de madeira só com o produto específico que não risca. E o escritório dele? Nem passamos perto. Otávio se enfiou lá assim que voltamos e não saiu mais. A impressão é de que aquela porta fechada divide dois mundos — o nosso, cheio de vozes, risadas abafadas e movimento, e o dele, completamente isolado, silencioso como um túmulo. Agora, com o sol já se pondo num laranja dourado que pinta as paredes da cozinha, tiro o avental e ajeito meu vestido simples, alisando o tecido amarrotado pelas horas de trabalho. Estou exausta: as pernas doem de tanto andar, os braços reclamam do esforço, mas ao mesmo tempo sinto um orgulho silencioso, quente no peito. Eu consegui. Não estraguei tudo. Pelo menos, não mais. — Tá muito cansada, menina? — pergunta Rosário, me observando com aquele olhar sábio de quem já sabe a resposta. — Que nada — minto, tentando disfarçar com um sorriso cansado. — Pois nem todo dia é puxado igual hoje — ela ri, colocando as mãos na cintura larga. — Mas quando for, respira fundo e pensa que depois melhora. Sorrio de volta, dessa vez mais verdadeiro, mais leve. — Pode deixar. Ela se aproxima, o olhar ficando mais sério, quase solene. — E só lembre, Carolina... não entre mais no quarto da dona Letícia, viu? Deixa aquilo quietinho, e tudo fica certo. — Tudo bem — digo, com um sorriso leve, sincero. — Vou ficar bem longe dali. Rosário suspira, ajeita o lenço colorido no pescoço e, de repente, seu olhar suaviza, como se uma sombra de tristeza tivesse passado. — E se, por acaso, o Otávio te ofendeu hoje mais cedo... me desculpa por ele, tá? Ele... ele ainda não aceitou a morte da Letícia. E parece que não vai aceitar tão cedo. Eu hesito. A curiosidade me puxa pelos pensamentos, sutil como um fio invisível, e antes que eu perceba, já estou perguntando: — Faz muito tempo? — E logo emendo, envergonhada: — Desculpa, fui intrometida... — Que nada — ela diz, balançando a mão no ar. — Fez três anos... hoje, na verdade. Meu peito aperta de repente, um calafrio de arrependimento puro me percorrendo a espinha. Justo hoje. Eu havia tocado na ferida aberta no dia exato. — Foi um acidente. No meio de uma chuva braba, daquelas que caem de repente e transformam a estrada em rio. Capotamento. Dizem que ela morreu na hora, que nem sentiu nada... Mas Otávio... aquele menino sofreu muito. Ele amava demais a Letícia. Estavam juntos há anos, desde o comecinho da faculdade. Tinham planos, sonhos, a vida inteira pela frente. — Ela suspira fundo, sentindo a dor alheia como se fosse sua. — É muito triste. Só espero que um dia ele consiga seguir em frente, sabe? Assinto em silêncio, o peso daquelas palavras assentando no meu peito. Penso no quarto cheio de lembranças intocadas, no jeito como ele me olhou, como se o mundo tivesse desabado de novo só porque alguém ousou invadir o espaço da saudade dele. Talvez seja isso. Talvez, por trás de toda aquela grosseria e mau humor, exista só um homem que teve o coração esmagado, e nunca mais conseguiu juntar os pedaços. A buzina lá fora me tira do devaneio, um som familiar e acolhedor. É meu avô. Reconheço o ronco da caminhonete velha dele como um chamado para respirar de novo. — É meu avô — digo, pegando minha bolsa pequena. — Até amanhã, Rosário! — Vai com Deus, menina. Amanhã a gente termina de organizar a área de fora! — Combinado! Corro até o portão, o coração batendo acelerado, mas dessa vez não é ansiedade — é alívio puro. Alívio por ter sobrevivido ao primeiro dia. Por ter consertado o erro. *** No caminho de volta para a fazenda, sentada ao lado do meu avô na caminhonete que balança suavemente na estrada de terra, vou contando para ele como foi meu primeiro dia de trabalho. Claro, omito a parte em que quase fui mandada embora por entrar num lugar proibido e quebrar um porta-retratos importante. Ele não precisa saber disso, pelo menos não agora. Ele sorri enquanto dirige, as mãos calejadas firmes no volante, e o sorriso dele me aquece de um jeito que nenhuma lembrança do Rio de Janeiro foi capaz. Parece feliz por mim. Orgulhoso. E eu sinto que tudo valeu a pena, mesmo com o medo, mesmo com os erros. Eu amo esses momentos com ele. Meu avô é aquele tipo de pessoa que vive com calma, que fala pausado, cada palavra carregada de significado, quase dando a cada frase o peso de uma pequena lição de vida. Ele adora contar histórias da juventude, da época que trabalhava na lida com o gado, das confusões com os irmãos, e eu ouço tudo com o maior interesse do mundo, mesmo quando já escutei a mesma história três vezes. E o melhor é que ele também escuta — sempre escuta. Me dá espaço para falar como se tudo o que eu sinto fosse importante, valioso. Lembro do dia em que falei, meio envergonhada, que pensava em estudar gastronomia em Belo Horizonte. Achei que ele e minha avó fossem tentar tirar isso da minha cabeça, falar de dinheiro, distância, dificuldades. Mas não. Eles se entreolharam com olhos cheios d’água, brilhando de emoção, e disseram, quase ao mesmo tempo, que iam ficar muito orgulhosos de me ver formada. — Cê vai ser a primeira da família a pisar numa faculdade, minha filha — ele disse, com um sorriso tão largo que meu coração quis explodir de alegria. É ali, nessas lembranças simples e quentes, que eu sinto o amor deles me cercando de um jeito tão real que quase dói. Amor de verdade. Sem troca, sem condição. E eu me pergunto, mais uma vez, como minha mãe teve coragem de rejeitar isso. Como ela conseguiu virar as costas para tanto carinho. Quando a caminhonete para em frente à casa simples, meu avô desliga o motor com um gesto tranquilo, mas os olhos brilham de um jeito suspeito, maroto. — Espera aí, Carol, tem uma coisinha pra você na carroceria — ele diz, com um sorrisinho no canto da boca, o bigode grisalho tremendo de empolgação. — Vô, o senhor não precisava... — respondo, já curiosa, mas também meio envergonhada pelo gesto. — Só desce e olha — ele fala, saindo da caminhonete com passos animados, quase saltitantes para a idade dele. Desço atrás dele, o coração acelerado, me sentindo como uma criança prestes a abrir presente de aniversário. Ele vai até a traseira da caminhonete e começa a puxar uma lona azul, velha e desgastada. E então eu vejo. Uma bicicleta roxa. Grande, não daquelas modernas de ciclismo cheias de tecnologia e engrenagens complicadas, mas simples, delicada, linda. Tem um cestinho de vime na frente, com detalhes em branco, e os aros brilhando sob a luz dourada do fim de tarde, como se tivessem sido polidos especialmente para mim. — É simples — ele diz, meio encabulado, coçando a nuca. — Comprei naquela lojinha de móveis perto do posto de saúde. O moço disse que é boa, tem dezoito marchas. É pra você ir pro trabalho ou voltar, no dia que eu não puder te levar. Não consigo dizer nada por um segundo, só engulo em seco, sentindo um nó grosso na garganta. A emoção me pega de jeito, como uma onda quente subindo pelo peito. Não só pela bicicleta em si, mas pelo gesto. Pela preocupação silenciosa dele. Pela forma como ele pensa em tudo, até no dia em que não estiver por perto para me buscar. Eu sinto a gratidão subindo como uma maré, enchendo os olhos de lágrimas que ameaçam cair. — Eu amei, vô... De verdade. Foi um dos melhores presentes que já ganhei na vida. — Minha voz falha no final, embargada, e não consigo segurar. Eu o abraço com força, apertando o corpo magro e forte dele, tentando esconder as lágrimas que já escorrem pelo rosto. Na varanda, vejo minha avó aparecendo com o pano de prato nas mãos, como sempre, o avental florido amarrado na cintura. — Rosa! — meu avô grita, orgulhoso, rindo alto. — Ela gostou da bicicleta! Ela sorri de volta, largo e genuíno, e nesse momento, olhando para os dois ali — ele com as mãos sujas de terra, ela com o cheiro de comida caseira —, eu percebo uma verdade que talvez estivesse me escapando: eles estão me dando tudo que eu sempre quis. Amor. Apoio. Segurança. Um lugar onde eu posso respirar sem medo. E agora, eu sei que preciso retribuir. Vou dar o meu melhor nesse trabalho, provar que sou capaz. Vou juntar dinheiro para entrar na faculdade e me formar. E um dia, dar a eles tudo de bom que a vida puder oferecer.






