Mundo ficciónIniciar sesiónCarolina
Já faz uma semana desde o meu primeiro dia naquela casa imensa, de paredes altas e janelas que parecem engolir a luz do sol. E, surpreendentemente, foi uma semana boa. Bem melhor do que eu esperava depois de quase ter sido demitida antes mesmo do almoço. Rosário foi paciente como uma mãe, dedicada como se a casa fosse dela própria, e me ensinou tudo com calma e precisão: desde como dobrar as camisas sociais do patrão — colarinho primeiro, mangas depois, sem uma única ruga — até o jeito certo de trocar os lençóis de linho fino, esticando-os até ficarem impecáveis, e limpar o chão de madeira sem deixar marcas ou riscos que pudessem irritar o olhar exigente dele. Os três primeiros dias foram os mais puxados, daqueles que deixam o corpo dolorido e a mente exausta. Parecia que eu não dava conta nem de respirar direito: era um cômodo atrás do outro, pano úmido para cá, espanador de plumas para lá, pilhas de roupas para passar com o ferro quente, detalhes minuciosos para decorar na memória. Mas depois que tudo ficou em ordem, o ritmo suavizou. Agora é só manter. E eu tenho essa coisa dentro de mim — um prazer quieto em deixar tudo cheiroso, brilhante e arrumado —, então, no fundo, acaba sendo até prazeroso. O cheiro de lavanda no armário de roupas de cama, o brilho sutil nos móveis de madeira, o silêncio satisfeito da casa quando tudo está no lugar. Rosário deixou bem claro, com aquele tom firme e carinhoso que só ela tem, que eu não trabalho aos fins de semana e que, se algum dia o patrão resolvesse dar uma folga no meio da semana, era para eu aceitar calada, sorrir e agradecer, porque ele não faz esse tipo de coisa com frequência. “Ele é assim mesmo, menina. Não espere milagres”, disse ela, piscando um olho. Falando nele... Otávio. Otávio Albuquerque, sobrenome chique que soa como algo saído de uma novela antiga. Quase não o vi durante esses dias. Ele passou a maior parte da semana nas fazendas, voltava só no fim da tarde, com o rosto marcado pela poeira vermelha da terra e as botas pesadas deixando rastros no chão. Entrava direto no escritório, trancava a porta e só saía quando o cheiro forte de bebida impregnava o ar ao redor dele — uísque, eu acho, ou talvez cachaça envelhecida. Não sei ao certo. Só sei que o ar mudava quando ele passava: ficava mais denso, mais carregado, como se a casa inteira prendesse a respiração. Torço para que continue assim — ausente, longe, indiferente. É mais fácil para mim. Não preciso ficar me policiando a cada passo, nem pisando em ovos como se o chão fosse de vidro. Ele não andando de um lado para o outro pela casa enquanto eu trabalho é um favor enorme, um alívio que respiro fundo toda vez que a porta da frente se fecha atrás dele. Hoje, é o primeiro dia em que fico sozinha na casa. Rosário fez as malas ontem à noite, com aquele sorriso animado de quem merece cada segundo de descanso, e partiu para passar as férias com a família. Ela me desejou boa sorte, apertou minhas mãos nas dela calejadas e disse que confiava em mim. Fiquei um pouco apreensiva, sim — o coração apertado como uma mão fechada. Sozinha, tudo parece mais silencioso, e o silêncio às vezes pesa, ecoando nos corredores vazios como um lembrete de que agora sou eu quem cuida de tudo. Mas também é uma chance de mostrar que dou conta. Que eu posso. Pedalo pela estradinha de terra rumo ao centro da cidade, o sol ainda baixo no horizonte pintando o céu de tons suaves de rosa e ouro, o vento da manhã bagunçando meu cabelo preso em um rabo de cavalo alto. É a segunda vez que venho de bicicleta, e mesmo sendo um pouco cansativo — as pernas queimando levemente na subida —, estou gostando da experiência. O esforço faz meu corpo despertar, meu coração bater mais firme e ritmado. Sinto que, além de ajudar no meu condicionamento físico, ainda dou menos trabalho para o meu avô, e isso me deixa mais leve, mais independente. E o que eu mais gosto é de observar a paisagem enquanto pedalo: o verde que se estende pelas laterais da estrada como um tapete vivo, o canto alegre dos passarinhos escondidos nas árvores, as vacas pastando preguiçosas nos campos, as flores do campo crescendo selvagens e coloridas, sem ninguém mandar. É uma paz diferente de tudo que já vivi no Rio, onde o barulho nunca parava. Às vezes, acho que estou dentro de um cenário de filme antigo, desses que passam à tarde na televisão, com trilha sonora suave e tudo. Ainda falta um bom trecho até chegar à casa do patrão, mas sigo em frente, com as mãos bem firmes no guidão, o pensamento focado em fazer um ótimo trabalho. Hoje, mais do que nunca, preciso provar que valho a pena.






