Capítulo 7

Otávio

Acordo com uma dor latejante na cabeça, daquelas que parecem vir de dentro dos ossos e se espalham como fogo lento. A luz que entra pela fresta estreita da cortina pesada só piora tudo, perfurando os olhos como agulhas. Cubro o rosto com o braço por um instante, o tecido da camisa amarrotada roçando na pele quente, e suspiro fundo, já sabendo o motivo — a garrafa de uísque que esvaziei sozinho na noite anterior, o copo vazio ainda sobre a mesinha de cabeceira.

Essa última semana tem sido assim, bebendo até apagar, o álcool descendo quente pela garganta como um remédio amargo. Como se pudesse anestesiar o buraco que essa época do ano sempre escava dentro de mim. Três anos. Três malditos anos sem a Letícia. E ainda parece que foi ontem — o telefone tocando no meio da madrugada, a voz do delegado tremendo do outro lado, o mundo desabando em câmera lenta.

O celular vibra na mesa de cabeceira, insistente. Estico o braço com dificuldade, os músculos doendo como se eu tivesse apanhado a noite toda. A tela acende e vejo cinco chamadas perdidas da minha mãe e duas da Clarinha. Mensagens piscando: “Filho, atende”. “Otávio, pelo amor de Deus”.

— Saco — resmungo, jogando o aparelho de volta no lugar com certa força, o som seco contra a madeira.

Me levanto cambaleando, o quarto girando levemente, tentando lembrar como cheguei à cama. Pelo menos não caí da escada de novo. Um milagre pequeno.

Olho o relógio antigo na parede. Tenho uma reunião no sindicato em menos de uma hora. Ótimo. Justo hoje.

Vou até o banheiro, lavo o rosto com água gelada que arde na pele, escovo os dentes às pressas sentindo o gosto metálico na boca seca e enfio a primeira camisa que encontro pendurada atrás da porta — branca, simples, ainda com o cheiro fraco de amaciante. A cabeça ainda pulsando, a boca seca como papel.

— Rosário! — Desço a escada chamando, a voz rouca ecoando pela casa vazia. — Prepara um café preto, sem açúcar, forte!

Nada.

— Rosário! — chamo mais alto, irritado com o silêncio que parece zombar de mim.

Nada ainda.

Bufando, sigo até a cozinha, os passos pesados no assoalho, e é ali que levo um susto ao bater de frente com Carolina no corredor estreito. O cheiro leve de sabonete e algo floral vem dela, misturado ao ar fresco da manhã.

— Caramba! — Recuo meio instintivamente, o coração dando um salto. — Olhe por onde anda, menina!

Ela me encara com o cenho franzido, os olhos castanhos firmes, e responde, rápida e sem hesitar:

— O senhor também devia olhar por onde anda.

Fico paralisado por meio segundo, surpreso com a resposta afiada. Ela não levanta a voz, não é desrespeitosa, mas também não baixa a cabeça como da outra vez. Isso... me desarma um pouco. Só um pouco. A garota tem fibra.

— Cadê a Rosário? — pergunto, irritado, esfregando a testa latejante com os dedos.

Ela pisca, como se achasse que eu estivesse brincando, e então responde com um tom lento, quase explicando para uma criança:

— Ué... ela já saiu, né? Foi tirar as férias dela. O senhor esqueceu?

Droga. Esqueci mesmo. A semana inteira tinha sido um borrão.

Passo a mão pelo cabelo desgrenhado, frustrado, sentindo os fios oleosos entre os dedos.

— Precisa de alguma coisa? — ela pergunta, mais calma agora, a voz equilibrada.

— Consegue fazer um café preto? — Minha cabeça lateja como um tambor. — Forte, sem açúcar? Rápido?

Ela ergue uma sobrancelha fina e cruza os braços sobre o uniforme simples, o tecido branco contrastando com a pele morena clara.

— Vou fingir que o senhor não perguntou isso.

Fecho a cara, o maxilar travando. O que ela acha que está fazendo?

Assim que se dá conta do que disse, muda a postura imediatamente, os ombros relaxando um pouco.

— Eu vou fazer, sim. Rapidinho. — Ela se vira e caminha até a cozinha com passos leves, enquanto fico parado por um segundo no corredor, bufando baixo.

Primeiro Rosário com a língua afiada, agora essa menina querendo seguir pelo mesmo caminho. Só me faltava mais essa.

Sento-me no sofá da sala, o couro frio contra as costas, e tento me concentrar nas mensagens que preciso mandar. Tem uma reunião com o sindicato da cooperativa semana que vem, e ainda preciso alinhar a entrega dos insumos da próxima safra. O fornecedor anda atrasando tudo, como sempre. Digito com pressa no celular, tentando manter o foco, mas a dor de cabeça martela atrás dos olhos como um martelo invisível.

Depois de alguns minutos, ouço passos leves se aproximando pelo corredor. É Carolina. Ela para na porta da sala com as mãos unidas à frente, meio sem jeito, o avental impecável.

— Senhor... eu deixei a mesa do café da manhã pronta, tá?

Levanto os olhos do celular e a encaro. O cabelo preso em rabo de cavalo, algumas mechas soltas na testa.

— Não precisava disso. Pedi só o café — falo mais seco do que o necessário, a voz saindo rouca.

Ela não se abala, só dá um sorriso pequeno, ainda que contido, os lábios cheios curvando levemente.

— O café está lá, prontinho também.

Me levanto devagar, os músculos protestando, e sigo até a sala de jantar. A mesa está posta com um cuidado que eu não esperava: toalha branca limpa e passada, pires e xícaras arrumados com precisão, pão fatiado em fatias uniformes, frutas lavadas e brilhantes numa travessa, manteiga na molheira pequena de vidro. Um exagero. Rosário que deve ter falado para que ela fizesse assim.

Pego a garrafa térmica e sirvo uma xícara cheia de café preto. Levo à boca, tomo de uma vez, sentindo o amargor forte se espalhar pela língua, quente e revigorante. Forte. Quente. Perfeito.

Quando olho de novo, os olhos dela estão sobre mim, observando com atenção quase curiosa. Me dá vontade de gritar, de mandá-la sair daqui e me deixar em paz, mas me contenho, engolindo o impulso.

Sirvo outra xícara e, quando ergo a cabeça, vejo que ela ainda está ali, surpresa com meu gesto.

— Algum problema? — pergunto, direto, sem rodeios, a voz grave.

— Não. — Ela dá um passo sutil para trás e balança a cabeça. — Só percebi que o senhor realmente gosta de café forte e sem açúcar.

— Adoçar café é crime — respondo, com a voz grave, e tomo mais um gole, o líquido queimando a garganta de leve.

Ela dá de ombros, sem tirar os olhos de mim. E tem algo no olhar dela... algo que não sei nomear. Não é deboche e nem medo, mas um tipo de presença calma, atenta. Um olhar que me alcança, que parece ver além da superfície, e isso me incomoda profundamente, como uma coceira que não consigo alcançar.

Desvio o olhar para a mesa e noto que ela arrumou com capricho, não posso negar. Mas só de olhar para a comida — o pão dourado, as frutas frescas — me dá uma ânsia leve, o estômago revirando. A voz da minha mãe ecoa dentro de mim como um eco velho e incômodo: “Você vai acabar doente com essa bebedeira, Otávio. O álcool não vai sumir com a dor, siga em frente, filho.”

Carolina pigarreia baixo, um som suave que corta o silêncio.

— O senhor vai almoçar aqui hoje? E tem alguma coisa específica que queira que eu faça na organização da casa?

Eu penso que a única coisa que quero é que ela vá embora, que essa casa volte a ser o que sempre foi depois da Letícia — silenciosa, previsível, só minha.

— Não sei se vou almoçar — respondo, sem olhar para ela, os olhos fixos na xícara. — Mas pode fazer algo... caso eu apareça.

Ela assente, com aquele jeito obediente que não sei se é real ou parte do disfarce de quem tenta agradar, já que ela tem uma língua bastante afiada quando quer.

— Quero ver se aquela comida da semana passada foi você que fez — solto de repente, antes de perceber o que estou dizendo, a voz saindo mais suave do que pretendia.

No mesmo instante, me pego questionando por que estou tendo essa conversa. Por que estou prolongando isso.

Coloco a xícara na mesa com força demais, e o som ecoa na madeira polida como um ponto final. Saio sem dizer mais nada e sem olhar para trás, os passos pesados levando-me para fora da sala, o gosto amargo do café ainda na boca.

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