Capítulo 4

Carolina

Ouvir dele que eu não seria mandada embora deveria ter sido um alívio puro, libertador. E, por um breve instante, foi exatamente isso: meu peito se soltou um pouco, como se uma corda apertada ao redor das costelas tivesse afrouxado, e o nó na garganta se dissolveu em parte, deixando espaço para o ar voltar a circular. Eu não sabia como teria coragem de encarar meus avós à noite, com a voz embargada, e confessar que havia sido demitida no primeiro dia — a neta que eles tanto apostavam, voltando de mãos vazias.

Mas graças a Rosário, eu ainda tinha uma chance. Soltei um suspiro longo, trêmulo, de puro alívio. Ele já estava saindo da cozinha, os passos pesados ecoando no piso de cerâmica, quando, num impulso que nem eu mesma entendi, fui atrás dele.

— Obrigada — disse, apressada, a voz saindo mais fina e aguda do que eu gostaria, quase um fio de voz. — Obrigada por me deixar ficar. Eu juro que não vai se arrepender.

Ele parou no meio do corredor, virou-se devagar, como se cada movimento custasse esforço, e me olhou de cima a baixo. Seus olhos escuros, frios como vidro polido, me atravessaram como se minhas palavras fossem um incômodo menor, uma mosca zumbindo no ar. Como se eu fosse o incômodo.

— Fale menos e trabalhe mais — respondeu ele, o tom carregado de desprezo, seco como poeira no vento.

Baixei a cabeça imediatamente, sentindo o rosto esquentar, um rubor que subia do pescoço até as orelhas. O chão debaixo dos meus sapatos parecia ondular.

— Desculpa, senhor — murmurei, mais por orgulho ferido do que por verdadeira convicção. Grosso. Não tem um pingo de educação, pensei, o ressentimento ardendo baixo no peito.

Rosário surgiu logo em seguida, saindo da despensa com os olhos quase revirando para ele, os braços cruzados sobre o peito largo.

— Parece um cavalo bravo — resmungou ela, balançando a cabeça. — Ô, Otávio, já que você tá aqui mesmo, vai me levar ao centro. Preciso ir ao mercado, porque a dispensa tá quase fazendo eco de tão vazia.

Ele bufou alto, um som impaciente que encheu o ar, mas não disse nada. Apenas virou-se e seguiu em direção à porta da frente, os ombros rígidos, como quem quer acabar logo com aquela obrigação indesejada.

Rosário se virou para mim e soltou um suspiro profundo, daqueles que parecem carregar o peso do mundo inteiro nos ombros. Seu rosto, marcado pelas linhas de quem já viveu muito, suavizou um pouco ao me olhar.

— Vem, Carolina, vamos começar o almoço. Depois eu te mostro o resto da cozinha e a gente termina a faxina.

Assenti, engolindo a raiva, a vergonha e a ansiedade que ainda latejavam no peito. Eu não podia estragar isso de novo. Nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.

***

Estou sentada no banco de trás da caminhonete RAM 3500, uma daquelas enormes, de luxo, com bancos de couro macio e escuro que cheiram a novo e a riqueza discreta. O ar-condicionado gelado sopra forte demais, arrepiando a pele dos meus braços, e o cheiro de couro misturado ao perfume amadeirado e masculino do patrão me deixa meio zonza, como se o ar estivesse carregado de algo proibido. A caminhonete avança pelas ruas tranquilas da cidadezinha, o motor ronronando baixo, em direção ao único supermercado decente que tem por aqui. Existem outras mercearias, sim, mas são pequenas, apertadas e com preços que fazem o bolso doer. Rosário havia me dito que só ali dava para comprar de tudo sem gastar um rim.

Fico olhando pela janela, o vidro frio contra a testa, enquanto a paisagem passa devagar: árvores frondosas balançando ao vento leve, casas baixas de tijolos aparentes, gente sentada nas calçadas com copos de café na mão, conversando como se o tempo não corresse. É o tipo de vida que parece mais simples, mais leve, mas que ainda me faz sentir como uma peça solta nesse tabuleiro — uma forasteira do Rio, com sotaque diferente e olhos curiosos demais.

Hoje mais cedo, ajudei Rosário no almoço com as mãos trêmulas de medo de errar. Fizemos estrogonofe de frango cremoso, arroz branco soltinho e batata frita dourada em tempo recorde. Eu mal respirava, cortando, mexendo, temperando com o coração na boca, mas no fim deu tudo certo. Pelo menos, pareceu agradar. Otávio até elogiou a comida com um grunhido curto, e eu congelei por dentro quando Rosário comentou, toda orgulhosa, que eu havia temperado. Ele não disse mais nada sobre isso — e, pelo que entendi, quando ele estiver em casa, serei eu quem vai cozinhar. Não quero nem pensar no dia em que Rosário não estiver por perto para me guiar. Ainda bem que ela vai ficar essa semana toda, como um escudo contra o silêncio gelado dele.

Suspiro e encosto a testa no vidro frio, observando a rua que se desenrola. Rosário está no banco da frente, falando sem parar sobre comida, o tempo, a igreja, a voz animada enchendo o espaço. E Otávio? Bufando a cada novo assunto. Toda vez que ela engata numa história nova, ele solta um bufo mais alto, como se respirar fosse um ofício cansativo. Fico me perguntando como alguém pode ser tão mal-humorado assim. Sério. O que ele tem de bonito — aqueles ombros largos, o maxilar marcado, os olhos escuros que parecem guardar segredos — tem de chato.

Reviro os olhos discretamente, e no mesmo instante percebo o olhar dele me alcançando pelo retrovisor. Sinto o rosto corar instantaneamente, um calor que sobe rápido, e desvio o olhar para a janela, fingindo que nada aconteceu. Que vergonha.

— E você vai me ajudar nas compras, viu? — diz Rosário, virando-se um pouco no banco, o sorriso largo e maternal. — Tem que se enturmar, menina! Quem sabe até arruma um amigo por aqui?

Dou um sorriso sem ânimo, forçado. Desde que cheguei, o máximo que os jovens da cidade fazem é me lançar olhares curiosos, como se eu fosse um ET recém-pousado. Um rapaz até puxou conversa no mercadinho outro dia, mas o interesse dele estava longe de ser amizade... e bem mais perto de algo que me deixou desconfortável. Nunca imaginei que o povo do interior pudesse ser tão “pra frente”.

Às vezes, eu só queria uma amiga da minha idade. Alguém para se maquiar juntas no banheiro, sair para dançar, falar besteira até rir até doer a barriga. Eu amo ficar na fazenda com meus avós, amo de verdade, mas tem dias em que a vontade de sair, ir a uma festa, ver gente nova, dançar até o sol raiar... é grande. Coisas que no Rio eu nunca tive: nem tempo, nem dinheiro, muito menos companhia.

— Ah, Carolina! — Rosário me chama de novo, os olhos brilhando de empolgação. — Final do mês que vem vai ter a ExpoÁguaDoce! Festa do peão, menina. A maior festança da região!

Me endireito no banco, interessada de verdade pela primeira vez.

— Vai lotar de gente! Vem povo de tudo quanto é canto! Vai ter rodeio, parque de diversões, cantor sertanejo famoso... e rapaz bonito, viu? Um monte!

Dou uma risada baixa, mais pelo jeito animado e contagiante dela do que pela menção aos “rapazes bonitos”.

— Cê tem que ir! — insiste Rosário, batendo palmas leves. — Tá nova, tá bonita! Tem que aproveitar! Vai que consegue um namorado de outra cidade?

Antes que eu possa responder qualquer coisa, Otávio corta seco:

— Rosário, pare de ser alcoviteira. Anda logo. Desce. — Ele estaciona com um tranco brusco bem em frente ao mercado, o motor ainda roncando.

— Estraga-prazer — resmunga Rosário enquanto tira o cinto e desce, batendo a porta com força, certa de que está com a razão.

— Que homem chato — murmuro baixinho, revirando os olhos de novo.

— Falou alguma coisa, menina? — pergunta ele, com aquela voz seca e fria como gelo, virando o rosto levemente na minha direção pelo retrovisor.

Sinto o rosto arder na hora, como se tivesse sido pega no flagra.

— N-não, senhor — respondo rápido, descendo da caminhonete como quem foge do fogo, o coração acelerado.

Corro até alcançar Rosário, que já está pegando o carrinho de compras com a maior naturalidade do mundo, empurrando-o pelos corredores iluminados. Bufo por dentro. Porque se até no mercado ele consegue ser insuportável, imagina o resto do mês.

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