Capítulo 3

Carolina

Meu coração martela contra as costelas com tanta força que parece prestes a rasgar o peito e escapar. O ar no quarto está denso, carregado de um perfume antigo e doce que ainda paira no ar como uma presença viva. Nunca estive numa situação assim. Nunca senti uma vergonha tão avassaladora, tão sufocante, que me faz querer desaparecer no chão de madeira encerada.

Ergo os olhos devagar, como quem se prepara para o golpe, e encontro o olhar dele: duro como granito, faiscando de uma raiva contida que queima. As sobrancelhas grossas estão franzidas, a mandíbula travada, e o corpo alto e largo parece ocupar todo o espaço da porta.

— Me desculpa — minha voz sai fraca, um fio quase inaudível, tremendo no silêncio. — Eu... eu não devia ter entrado aqui. Sinto muito. Eu... eu vou comprar outro igual.

Por um instante longo, ele me encara sem dizer nada. O silêncio é pior que qualquer grito: pesado, opressivo, como se o ar tivesse se solidificado ao nosso redor. Então, a raiva em seu rosto se transforma em algo mais cortante — desprezo puro, gelado.

— Ah, é? Vai comprar outro? — A voz dele sai baixa, mas afiada como lâmina. — Acha mesmo que consegue encontrar outro idêntico?

Engulo em seco, a garganta seca como lixa.

— O senhor pode... descontar do meu salário, então.

Ele baixa os olhos para o porta-retratos quebrado que ainda seguro nas mãos trêmulas. Por uma fração de segundo, vejo algo cruzar seu rosto: uma dor crua, rasgada, profunda, que faz os cantos de sua boca tremerem levemente. Uma tristeza tão real que, por um momento, apaga a fúria e quase me faz esquecer do erro que cometi.

— Colocar alguém no lugar da Rosário foi a pior ideia que tive — murmura ele, mais para si mesmo do que para mim, a voz rouca. — Aqui não existe mais gente competente. Só curiosos e bisbilhoteiros.

Um arrepio gelado desce pela minha espinha, eriçando os pelos da nuca. Sinto o peso do avental recém-passado colado ao corpo, as mãos ainda úmidas do pano de limpeza.

— Isso não vai acontecer de novo, eu juro... Eu só queria limpar. Eu... achei que Rosário tivesse esquecido de me mostrar esse quarto. Eu não sabia...

Ele me examina de cima a baixo com um olhar lento, carregado de desprezo, como se eu fosse um problema encarnado ali, no meio do quarto sagrado. Os olhos escuros deslizam pelo meu coque frouxo, pelo uniforme simples, pelas mãos que ainda apertam o vidro trincado.

— E não vai acontecer mesmo — diz ele, frio como o vento de outono. — Porque você nunca mais vai colocar os pés aqui.

Meus olhos se arregalam, o chão parece sumir debaixo dos meus sapatos gastos. O coração, que já batia descompassado, agora martela nos ouvidos.

— Por favor... — suplico, a voz falhando. — Foi um acidente. Eu sinto muito. Eu... preciso desse trabalho.

Ele fecha os olhos por um segundo, respira fundo, o peito largo subindo e descendo como se lutasse contra si mesmo. Quando os abre novamente, estão mais escuros, mais duros, como duas pedras negras.

— Saia daqui.

Fico paralisada, os pés colados ao tapete puído. Meu corpo se recusa a obedecer, agarrado à última esperança de consertar tudo.

— Além de enxerida, é surda? — ele explode, a voz trovejando pelas paredes, ecoando no quarto como um tapa no ar.

Eu tremo inteira. O grito me atravessa, cortante.

— Saia! Agora!

O pavor me desperta como um choque. Minhas pernas finalmente respondem. Levanto-me tão depressa que o balde de limpeza tomba, espalhando água pelo chão, e saio do quarto quase correndo, o rosto ardendo em chamas, a garganta fechada, um nó amargo subindo até os olhos. Desço a escada sem olhar para trás, os passos ecoando no silêncio da casa grande e vazia. O coração aos pulos, o gosto metálico da humilhação na boca. Sinto como se tivesse destruído tudo. Tudo. No meu primeiro dia.

E a única certeza que carrego agora, pesada como chumbo, é que esse recomeço talvez tenha terminado antes mesmo de começar.

Otávio

Vejo de relance a figura dela, pequena, apressada, quase tropeçando nos próprios pés, desaparecer pela porta da cozinha. O coque frouxo balança no alto da cabeça, os ombros estreitos curvados como se carregassem o peso de todo o mundo. Seus olhos castanhos, grandes e amendoados, ainda me perseguem por um segundo: assustados, sinceros, brilhando com lágrimas contidas.

E isso me irrita ainda mais. Por que reparei nos olhos dela? Por que, no meio de tanta raiva, aquele detalhe se cravou em mim como um espinho? Aperto os dentes, contrariado com meus próprios pensamentos traidores.

Seguro o porta-retratos quebrado com o cuidado de quem toca algo sagrado. O vidro trincado mal cobre o sorriso luminoso de Letícia, mas ela ainda parece viva ali, como se fosse piscar e rir para mim a qualquer instante. O perfume dela — leve, floral, o mesmo que ainda paira no quarto — sobe sutilmente da foto.

— Me desculpa, meu amor — murmuro, passando o polegar áspero pela borda da moldura, sentindo o corte fino do vidro na pele.

Óbvio que era uma péssima ideia desde o começo. Não devia ter dado ouvidos para Rosário. Eu tinha sido claro: me viro sozinho. Não preciso de ninguém circulando pela casa, mexendo nas coisas, invadindo o que restou de nós.

Coloco o retrato de volta sobre a cômoda com toda a delicadeza que me resta, os dedos ainda trêmulos. Viro-me e encaro o balde tombado, o pano jogado no canto, os produtos de limpeza alinhados como invasores. Tudo ali, profanando o espaço.

— Se eu não tivesse chegado a tempo — digo em voz alta, precisando ouvir minha própria indignação ecoar —, a infeliz teria limpado tudo.

Engulo em seco, o peito apertado. O que eu faria se ela tivesse passado pano nas roupas penduradas no closet? Se tivesse tirado o perfume do ar, mudado a posição dos livros na estante, jogado fora aquele lenço de cetim que ainda guarda o cheiro dela, mesmo depois de tanto tempo?

Não. Eu não quero que ninguém toque aqui. Aquilo é dela. Da nossa história. Do que restou.

Nunca mais consegui dormir neste quarto depois que ela se foi. Só entro quando a saudade aperta demais, quando o silêncio da casa grande se torna insuportável. Fico em pé no meio do cômodo, respirando fundo, absorvendo cada detalhe: a cortina de renda que ela escolheu, os livros de poesia na estante, as joias esquecidas na caixa de veludo. Tudo ainda é ela. Ainda é nós.

E se eu mexer em qualquer coisa, se alguém tocar... talvez eu perca o pouco que ainda me resta. E isso, eu não posso permitir.

Não tenho tempo nem de respirar fundo quando Rosário irrompe no quarto como um vendaval. A porta se escancara com força, o som do salto baixo batendo no assoalho ecoando como um trovão.

— Otávio, meu fio! — ela solta meu nome como um estalo, mãos na cintura larga, olhos faiscando de fúria e preocupação. — O que é que você fez, homem de Deus? A menina tá lá na cozinha chorando feito criança, dizendo que foi mandada embora!

Fecho os olhos por um segundo. Eu já esperava por isso. Sabia que ela viria correndo.

— Ela entrou aqui, Rosário. No quarto da Letícia. Mexeu onde não devia.

— E quem você acha que esqueceu de avisar pra ela não entrar aqui, hein? — Rosário rebate, sem pestanejar, o sotaque forte carregado de culpa. — Fui eu, Otávio! Eu! A culpa foi minha! Eu devia ter falado, mas confiei que ela ia limpar só os quartos que eu mostrei... e esqueci dessa porta. Esqueci! — Ela respira fundo, o peito arfando, os olhos brilhando com raiva e arrependimento. — A menina não é bisbilhoteira, não. Ela só estava tentando fazer o trabalho dela, ora.

— Eu não preciso de ninguém. Nem dela. Nem de você. Me viro sozinho. — Minha voz sai firme, dura como pedra que não quer ser movida.

Rosário arregala os olhos e solta uma risada sem humor, curta e seca.

— Ah, precisa sim. Não vem com essa de durão que a gente se conhece faz tempo demais. E outra coisa: não vou acabar com a minha coluna nessa casa de novo, não! — Ela aponta o dedo no ar, o esmalte descascado brilhando. — Porque eu me lembro muito bem da última vez que você disse isso. Quando voltei, essa casa estava um chiqueiro. Nem o lixo você botou pra fora, Otávio! Nem o lixo!

Sinto a raiva crescer em silêncio, a mão se fechando num punho ao lado do corpo, o sangue latejando na têmpora. Mas não respondo. Não posso. Porque ela tem razão.

Rosário me encara por mais um segundo, depois suspira fundo, cansada. Os ombros caem um pouco, mas o olhar continua firme, maternal.

— Eu sei que ainda dói — diz ela, mais baixo agora, a voz mansa, apontando discretamente para o porta-retratos na cômoda. — Mas a vida precisa continuar, menino. Ela ia querer isso.

Desvio o olhar. O peso das palavras fica suspenso no ar, denso como fumaça. Não respondo. Não consigo.

Rosário me lança um último olhar e diz, seca:

— Você decide. Mas não trate mais ninguém assim, porque tem dor que não justifica crueldade. — Ela faz menção de sair, mas para, como eu já sabia que faria. — Otávio, olha aqui — continua, dedo em riste. — Reconsidere. Não mande a menina embora, não. E não adianta fazer essa cara feia que eu te conheço.

Reviro os olhos e cruzo os braços sobre o peito.

— Ela invadiu o quarto e quebrou o porta-retratos. Não tem conversa.

— Ah, conversa tem sim. E eu vou falar até você enfiar essa teimosia dentro do chapéu. — Ela cruza os braços, batendo o pé. — Você sabe muito bem que essa cidade não tem oportunidade pra ninguém. Essa menina só tá aqui porque precisa, deve tá juntando dinheiro, quem sabe pra estudar, pra ter uma vida melhor. Dá pra ver nos olhos dela.

Suspiro fundo, irritado. A imagem da garota franzina, de olhos castanhos e mãos trêmulas segurando o porta-retratos, volta à minha mente. Tão pequena, quase sumindo dentro do avental largo.

— Alguém tão nova daquele jeito vai dar conta de cuidar disso tudo aqui? — pergunto, mais para mim do que para ela.

— Vai. Eu tenho certeza — Rosário responde na lata. — Os quartos que ela limpou estão um brinco. A menina é caprichosa, trabalhadeira. A avó dela me contou que desde pequena ralava lá no Rio, fazendo faxina, vendendo doce, cuidando de criança. A mãe, coitada... cabeça de vento. Nunca cuidou da filha direito.

— Isso não é da minha conta — resmungo, virando o rosto para a janela.

Ela me dá um tapa firme no braço.

— Deixa de ser sem educação, Otávio! E escuta o que eu tô dizendo.

— Rosário... ela entrou aqui. Quebrou o porta-retratos da Letícia! Não dá pra passar pano nisso.

— Põe a foto em outro porta-retratos! Você tem uns dez no seu escritório! — reb**e ela, sem perder o tom. — Eu já falei mil vezes que a culpa foi minha. Eu não avisei que não era pra mexer nesse quarto. Ela não sabia. E você também sabe que não é bom ficar sozinho nessa casa. Não dá conta nem de manter uma sala sem parecer que passou um furacão. — Ela cruza os braços e b**e o pé com força no assoalho.

Respiro fundo, olho para o chão e penso. Penso no caos que foi a última vez que tentei limpar a cozinha sozinho: o pano sujo, a água espalhada pelo chão, o sabão que escorregou e quase me derrubou, o feijão queimado no fundo da panela. Até arroz fica um tormento. Faço as coisas, sim, mas tudo sai tão bagunçado que parece que não fiz nada.

— Rosário... — começo, já sabendo que vou me arrepender.

— Se você ficar com pirraça — ela me corta, erguendo o dedo de novo —, eu ligo pra dona Lara.

Meu sangue congela.

— Você não teria coragem.

— Ah, se tenho! Sua mãe vem correndo, ou pior, manda a Clarinha!

Fecho os olhos. Minha irmã aqui seria o fim da minha paz: Clarinha querendo redecorar tudo, tirar as lembranças de Letícia, as duas me torrando a paciência com sermões sobre conhecer alguém novo e me apaixonar outra vez.

— E tem mais — continua ela —, se você não quiser a menina, posso muito bem chamar uma das minhas amigas da igreja. Tá cheio de gente querendo trabalhar.

Só consigo imaginar as amigas da igreja cochichando no portão, transformando minha vida em novela de rádio. Já basta viver com a dor. Não quero ela virando fofoca de roda de oração.

— Tá bom — falo, engolindo em seco. — A menina pode ficar. Mas quero deixar claro que se ela aprontar mais alguma coisa, vai embora com uma mão na frente e outra atrás. Entendido?

Rosário abre um sorriso vitorioso, largo e brilhante, daquele jeito que só ela sabe dar.

— Vai dar tudo certo. Eu vou ensinar tudo direitinho. Ela vai saber até quantos passos pode dar dentro dessa casa. Pode deixar.

Ainda estou irritado, com a sensação de que essa história vai dar problema. E ainda assim... sei que ela tem razão.

— Você ainda duvida que a menina vai dar conta, né? — provoca ela.

— Totalmente.

— E o que você tá fazendo aqui, afinal? Não ia voltar das fazendas só no fim da tarde?

— O veterinário teve um problema e cancelou a vacinação dos bezerros. Resolvi passar aqui antes de ir pro cafezal.

— Então vou correr com o almoço — diz ela, já se virando para sair. — Ah, e avisa pra menina que ela ainda tem o emprego.

— Rosário...

— Nada de Rosário. — Ela aponta o dedo de novo. — Do jeito que a coitada estava, não vai acreditar em mim, não. Custei pra segurar ela na cozinha. Queria sair a pé, olha só! A menina tá em frangalhos.

Suspiro. A última coisa que quero é ter que falar com ela de novo, mas sei que, se não for agora, Rosário vai me infernizar o resto do dia.

— Tá. Eu vou lá. Mas não inventa de me pedir mais nada.

Ela sorri, vitoriosa, j**a o pano de prato no ombro e sai resmungando algo que não consigo ouvir direito. Fico ali um momento, me preparando mentalmente para descer e encarar aquela garota outra vez.

Desço a escada com passos pesados, cada batida do meu coturno ecoando pela casa silenciosa como um aviso. A raiva ainda lateja, quente, nos músculos do maxilar e nas mãos fechadas. Não é só pela menina. É pelo retrato. Pelo quarto. Por tudo que aquela lembrança desperta em mim.

Respiro fundo no meio do caminho, tentando lembrar as palavras de Rosário sobre Carolina: a vida difícil, o trabalho desde criança, a mãe ausente. Talvez ela tenha mesmo uma história triste. Talvez mereça compaixão. Mas eu não quero saber. Não posso me importar. Já bastam as minhas próprias feridas.

Vou mantê-la aqui, sim. Mas, no fundo, torço para que ela cometa mais um erro. Só um. Na primeira chance que eu tiver, eu a mandarei embora. E aí esse incômodo acaba.

Chego à cozinha e a vejo andando de um lado para o outro, murmurando para si mesma, visivelmente nervosa. As mãos se agitam no ar como se explicassem algo para um interlocutor invisível, a voz baixa e atropelada. Assim que me vê, ela trava, fica estática, o corpo inteiro rígido, como se tivesse visto um fantasma.

É aí que reparo no rosto dela com mais clareza: os olhos castanhos, amendoados, vibrando de medo puro. A pele morena clara, levemente corada nas maçãs do rosto. Os lábios cheios, mordidos de ansiedade. Os traços delicados, quase frágeis, como se tivessem sido esculpidos com cuidado.

Ela empalidece, parece a ponto de desmaiar.

Percebo que estou olhando tempo demais. Desvio o olhar, pigarreio e falo logo, antes que me arrependa:

— Rosário me convenceu a não te mandar embora — digo, sem rodeios, a voz mais dura do que o necessário. — Mas quero deixar uma coisa bem clara: mais um erro, menina, só mais um, você tá na rua. Entendido?

Ela nem responde. Só assente com a cabeça, quase sem mexer o pescoço, o olhar ainda assombrado.

Antes que ela consiga dizer qualquer coisa, eu me viro de costas e saio, o eco dos meus passos preenchendo o silêncio da casa.

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