Carolina
Enquanto a caminhonete vai deixando a cidadezinha para trás, sacolejando suavemente pela estrada de terra, me pego perdida nos meus pensamentos. Talvez, se eu economizar cada centavo que conseguir ganhar, consiga montar uma pequena poupança. Quem sabe até tenha tempo de estudar. Belo Horizonte não fica tão longe assim, e tem aquela faculdade de gastronomia que pesquisei semanas atrás, com um curso bom, um dos melhores do estado, dizem.
Eu imagino a cozinha do campus, as bancadas de inox brilhando sob luzes fortes, os ingredientes frescos espalhados, o aroma de ervas e temperos no ar, as aulas práticas onde eu poderia criar sem limites... É um sonho, eu sei. Mas e se esse for o meu momento? E se essa mudança toda for, na verdade, uma chance? Pela primeira vez em muito tempo, algo parece possível.
Estou tão imersa nessa ideia, construindo planos na cabeça como quem monta um castelo de cartas delicado, que só percebo onde estamos quando a caminhonete desacelera e para diante de um portão de ferro bem trabalhado, alto e imponente.
— É aqui? — pergunto, surpresa, com os olhos arregalados.
Meu avô apenas sorri e tira o cinto de segurança com um estalo seco.
— Aqui mesmo.
Desço do veículo devagar, os pés tocando o chão de pedrisco branco e crocante. Diante de mim, uma mansão. A arquitetura antiga é charmosa, quase imponente; as janelas altas com molduras de madeira escura, os vitrais coloridos que brilham com o sol da manhã, as colunas na varanda larga... tudo parece saído de outro tempo. Mas, mesmo com a idade da construção, cada detalhe grita riqueza discreta e herdada.
Engulo em seco.
A casa é bem maior do que eu imaginava. Muito maior. O tipo de lugar onde uma pessoa passa o dia inteiro só pra dar conta de varrer. E pelo que sei, o tal do Otávio tem lavouras de café, criação de gado, propriedades que vão até onde o olho alcança. É um homem rico. Muito rico.
— Parece mais afastado do que eu pensava — murmuro, olhando em volta. A cidade já ficou lá atrás, e aqui é quase campo aberto. O som é diferente. Não tem barulho de carro, só o vento passando entre as árvores altas e o canto de alguns pássaros distantes.
Antes que eu possa me aprofundar nas impressões, vejo uma mulher morena, de pele queimada de sol e o cabelo preso num coque bagunçado, se aproximando do portão. Ela usa um vestido simples e florido, e tem um sorriso largo no rosto, animada.
Eu tento sorrir de volta, por educação, mas o meu rosto não colabora. Sai mais como uma careta contida, tensa.
— Olha ela aí! — meu avô chama com a voz alta e calorosa. — Rosário!
A mulher levanta o braço e acena com energia.
— Bom dia! Chegaram cedo!
— É costume, né — ele responde, rindo.
Rosário chega até nós e me olha de cima a baixo com curiosidade evidente. Ainda sorrindo, mas com os olhos atentos.
— Então essa é a moça?
Assinto com um aceno tímido.
— Carolina — digo, estendendo a mão.
Ela a aperta com firmeza, como quem quer mostrar que é de confiança.
— Rosário. Serei eu a te passar o serviço. Aqui tem trabalho, viu? Mas se fizer direitinho, vive bem. Só não inventa de mexer com o patrão, que é um homem bom, mas cheio das manias.
Meu avô ri de canto.
— Ela é esperta, tava doida pra trabalhar.
Enquanto os dois conversam, eu volto a encarar a casa e um frio sobe pela minha barriga. É grande demais. Distante demais. E o patrão? Um homem viúvo, rico e cheio das manias, como a Rosário falou...
Respiro fundo. É o começo de algo novo, que pode ser assustador, mas é o que eu tenho agora. E eu vou fazer isso funcionar, nem que precise esfregar cada azulejo dessa casa com a mão.
— E a Rosa, como tá? — Rosário pergunta com aquele tom caloroso de quem realmente se importa.
Meu avô sorri, ajeitando o chapéu na cabeça.
— Tá bem, graças a Deus. Anda empenhada, sabe como é... ajudando os patrões a fazerem a fazenda render. Aquela mulher não para.
— Ah, minha filha... dona Rosa tem um coração que não cabe no peito. — Rosário suspira. — E o Alfredo e a Marina, tão bem também?
— Estão, sim. Mas andam meio apertados... o tal do Tolentino não tá dando sossego.
Na hora que meu avô fala o nome, eu me lembro do pouco que ouvi sobre ele; parece que é um fazendeiro das redondezas que está pressionando Alfredo para lhe vender a fazenda.
Penso em Marina, e meu coração se aquece um pouco. Ela foi uma das primeiras pessoas que me acolheu de verdade quando cheguei aqui. É o tipo de mulher que te abraça e você sente que é sincero. Nunca me tratou como alguém de fora. Me chama de “minha filha” com tanta naturalidade que às vezes esqueço que ela não é da família.
Alfredo é o oposto dela em temperamento, mais sério, fala pouco, mas cada palavra que sai dele vem carregada de cuidado e atenção. Ele sempre me cumprimenta com um aceno e um “tudo certo, menina?”, como se me enxergasse de verdade. Nenhum dos dois possui aquela arrogância de quem tem terra e gente trabalhando para eles. São simples. Humanos.
— Deus vai abençoar — diz Rosário, firme como quem crê de verdade — e eles vão conseguir erguer a fazenda de novo. São gente boa, merecem isso.
Meu avô assente, olhando para o céu com a mão no peito.
— Amém.
Ele então olha pra mim e ajeita o relógio no pulso.
— Bom, eu vou nessa. Tem muito serviço me esperando. Mas de tardinha eu passo aqui pra te buscar.
— Não precisa, vô — digo de imediato. — Eu volto a pé. É perto...
Mas ele já está me dando as costas, fingindo que nem ouviu. É o jeito dele de dizer que não tem discussão.
— Tchau, Carol. Se comporta, viu? — diz, acenando.
— Tchau, vô — respondo com um meio-sorriso.
Ele também se despede de Rosário com um aceno e logo some pela estradinha, levantando poeira com a caminhonete.
— Vem, menina — Rosário diz, me chamando com um gesto. — Vou te mostrar a casa e o tanto de serviço que te espera.
Dou uma última olhada para o portão, respiro fundo e sigo atrás dela.
— E o Rio, hein? — Rosário pergunta enquanto empurra o portão pesado com o quadril. — Você sente falta de lá?
Penso por um instante. Não quero ser mal-educada, mas não quero mentir também.
— É... barulhento demais — respondo, com um sorriso educado. — Aqui em São Domingos é tudo mais calmo. Acho que estou gostando mais dessa paz.
Rosário me olha com um sorriso satisfeito, parecendo já esperar essa resposta.
— Eu sabia. Quem chega aqui sente a diferença. Aqui a gente ouve os passarinhos, não as sirenes.
A porta da frente range levemente ao abrir, revelando uma sala que me faz parar por um segundo. Os móveis são antigos, mas conservados com tanto cuidado que parecem recém-saídos de uma loja chique de decoração — um sofá de veludo verde-musgo macio, poltronas com encosto curvo e almofadas bordadas à mão, uma cristaleira repleta de louças antigas e delicadas. Tapetes de tecido grosso cobrem partes do piso frio de madeira escura, e cortinas claras deixam a luz do sol entrar sem esforço. O estilo é todo vintage, clássico, impecável.
— É bonita, né? — Rosário pergunta, percebendo meu deslumbre. — Aqui é a sala de visitas. Tem que manter ela sempre limpinha, mesmo se o patrão não estiver recebendo ninguém. É o lugar que ele mais gosta de ver arrumado.
Assinto, ainda olhando em volta, já calculando o tempo que vou levar só para dar conta dela.
— Se fizer tudo direitinho, quem sabe fica com o trabalho mesmo depois que eu voltar — ela diz com um tom animado. — Vai ser bom ter ajuda, porque essas minhas costas... olha, estão pedindo socorro! — Ela dá uma gargalhada sonora.
Dou uma risadinha também, sem exagero, mas sincera. Ela é divertida.
Rosário me leva para conhecer o resto da casa, e a cada cômodo que vejo, tenho certeza de que o trabalho vai ser puxado. No andar de cima são seis quartos, todos com banheiro privativo. Camas grandes, roupas de cama alinhadas com perfeição, tudo muito bem cuidado. Passamos por uma porta fechada que ela não comenta, só passa reto. Fico com a sensação de que esqueceu um cômodo, ou preferiu não mostrar mesmo.
No térreo, ela me apresenta a sala de jogos e TV, que parece mais um espaço de descanso elegante, com uma lareira enorme de pedra. Depois vem o escritório do patrão, que ela só aponta de passagem:
— Aqui quase não precisa mexer. Só dar uma passada de pano leve.
E então chegamos à cozinha.
Meus olhos quase brilham. É uma das cozinhas mais bonitas que já vi. Bancadas de pedra natural, armários grandes de madeira escura, utensílios organizados e reluzentes, tudo com cheiro de limpeza e café recém-coado. Tem uma ilha central com um fogão embutido e um forno tão grande que só consigo pensar em quantos bolos caberiam ali de uma vez.
— E então? — ela pergunta com uma sobrancelha arqueada. — Você sabe cozinhar?
— Sei sim! — respondo, empolgada sem querer. — E gosto muito. Faço de tudo um pouco, mas o que mais gosto é fazer doces. Bolo, sobremesa... sonho em cursar gastronomia um dia.
Rosário arregala os olhos com um sorriso.
— Ô trem chique! Gastronomia! Que bonito, menina. Tomara que você consiga. Vou botar você nas minhas orações, viu?
Fico sem graça e baixo os olhos.
— Obrigada... de verdade.
— Agora, se for cozinhar pro patrão, já te aviso logo que ele não gosta muito de doce. É ruim pra comer, o bichinho. Ele avisa quando vai almoçar em casa.
Mordo o lábio, curiosa, e pergunto sem pensar:
— Ele está em casa?
— Saiu pouco antes de você chegar, foi ver os cafezais. Depois ia pra outra fazenda, acompanhar a vacinação do gado. Volta só lá pro fim da tarde, acho.
Assinto, sem entender direito a minha curiosidade repentina sobre ele. Talvez porque tudo ali ainda é tão novo.
— Pode ficar tranquila — Rosário diz, notando meu olhar pensativo. — Seu Otávio é genioso, sim, mas é bom homem. Faça seu trabalho certinho, não fique perguntando demais, e vai se dar bem.
Franzo o cenho.
— Perguntando o quê?
Ela faz um gesto com a mão, como se afastasse o assunto.
— Ele não gosta de gente em roda dele. E muito menos de quem toca no assunto da falecida. Até tinha uma ajudante antes, mas a menina saiu falando dele pela cidade... das amarguras, das manias. Ele não gostou, claro, então mandou ela embora na hora. — Rosário respira fundo e ajeita o pano de prato no ombro. — Ele ainda sofre, sabe? A morte da dona Letícia... Deus a tenha. Ela era nova demais, e os dois tinham muitos planos. É muito triste.
Sinto um aperto no peito. Nunca me apaixonei pra valer, mas sempre sonhei com isso. Imaginar que alguém tenha encontrado o amor da vida e depois perdido... deve doer de um jeito que nem sei explicar.
— Mas chega de conversa, né? — Rosário diz, se erguendo com energia. — Bora botar a mão na massa, que serviço aqui tem de sobra!
Assinto com um meio-sorriso, prendendo o cabelo com um elástico.
Com o pano já úmido e o mop em mãos, subo de novo para o segundo andar, determinada a terminar tudo antes do meio-dia. Já limpei quase todos os quartos. Mas então, paro diante daquela porta, a única que Rosário não me mostrou. A maçaneta antiga e empoeirada brilha pouco sob a luz suave do corredor.
Talvez ela só tenha esquecido, afinal, são tantos cômodos...
Fico ali parada, hesitando, mas a vontade de fazer o trabalho direito e, talvez, também uma pontinha de curiosidade, fala mais alto. Empurro a porta com cuidado.
O quarto é diferente dos outros, bem maior e visivelmente mais antigo. O ar é mais pesado, denso de poeira e memórias antigas. O chão está opaco, os móveis cobertos por uma fina camada de abandono. Entro com o balde e o mop, os rodízios rangendo sobre o assoalho de madeira.
Há um closet com a porta entreaberta, como se me convidasse a dar uma espiada. E eu cedo.
Lá dentro, roupas femininas. Várias. Vestidos longos de tecidos finos e delicados, blusas leves, perfumes em frascos quase intocados. Tudo permanece como se alguém ainda fosse voltar para usá-los. Sinto um frio percorrer minha espinha.
O nome sussurra na minha mente como uma prece antiga. E, por um instante, percebo que talvez eu não devesse estar ali. Talvez esse quarto seja um templo de lembranças que ninguém tem coragem de tocar. Dou um passo para trás, disposta a descer e falar com Rosário, mas então algo sobre a cômoda me prende. Porta-retratos. Vários.
Me aproximo devagar, e lá estão eles.
Um casal lindo. O homem tem feições fortes, cabelo castanho-escuro penteado de lado, olhos intensos e sorriso aberto. Parece saído de um filme. E ao lado dele, sempre, a mesma mulher loira, cachos dourados e olhar cheio de vida. Eles irradiam felicidade.
Num dos retratos, só ela aparece sorrindo de forma suave, parecendo segurar o mundo com leveza. Sem pensar, pego a moldura nas mãos, admirando a beleza serena. É quase como se ela fosse viva ainda, como se estivesse ali, me observando com calma.
Passo o pano do meu avental com delicadeza, tirando a poeira do vidro.
— Você era linda demais... — murmuro, sem perceber que disse em voz alta.
Sinto um aperto no peito. É injusto alguém morrer tão jovem, ainda mais uma pessoa que parecia carregar tanto amor na pele, no olhar, no gesto.
Me pergunto como deve ser Otávio hoje em dia. Será que ainda é bonito como nas fotos? Será que a dor mudou o rosto dele?
— Ai, Carolina! — sussurro para mim mesma, repreendendo meus pensamentos e me apressando em colocar o porta-retratos de volta.
Mas minhas mãos tremem e tudo acontece rápido demais. O vidro se espatifa no chão com um estalo seco; um som que parece um trovão no meio do silêncio sagrado.
— Não, não, não... — sussurro, me abaixando imediatamente, com o coração disparado. Pego o porta-retratos com as mãos trêmulas, verificando se o resto está inteiro. — Droga... droga...
E então, como se o universo quisesse me castigar ainda mais, uma voz grave, firme e cheia de autoridade ecoa atrás de mim.
— O que está acontecendo aqui?
Meu corpo congela e o sangue some do meu rosto, então me levanto em câmera lenta. Assim que olho em direção à porta, eu o vejo.
Alto, imponente, com ombros largos e postura rígida. O cabelo um pouco mais comprido está coberto por um chapéu escuro, sua barba é bem aparada e os olhos castanhos são escuros como a noite. O rosto é o mesmo das fotos, mas agora mais maduro, com traços marcados pela dor. Ainda assim, é o homem mais bonito que já vi na vida.
Mas ele está sério, muito sério. Seu maxilar está travado e o olhar direto em mim parece me atravessar.
Engulo em seco.
— Você não deveria estar aqui, menina! — A voz é grave, raivosa.
— Me desculpe se... senhor — balbucio. Eu mal consigo falar, não consigo formar uma frase.
— Quem deixou você entrar aqui?! — pergunta, elevando a voz e vindo em minha direção.
Me encolho, sentindo a respiração falhar.
— Dona Rosário disse para eu ir tirando a poeira dos cômodos — digo o mais rápido que consigo.
Ele olha diretamente para minha mão e seu semblante se torna mais sombrio. Sem nenhum aviso, arranca o porta-retratos da minha mão.
— Nunca te disseram para não tocar no que não lhe pertence?! — pergunta entredentes.